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Capítulo 4 — A Sensação Não Era Minha 

"Algumas lembranças nos assombram porque não conseguimos esquecê-las. As mais perigosas são aquelas que não deveriam existir."

O problema das perguntas sem resposta é que elas costumam voltar justamente quando o mundo fica em silêncio. 

Mais tarde, quando o apartamento finalmente mergulhou no silêncio e Ekaterina se recolheu para o próprio quarto, Irina descobriu que o problema não era voltar para casa.

O problema era que Nikolai Romanov tinha vindo com ela.

Ele continuava presente nos pensamentos dela, nas perguntas que não conseguia responder e na lembrança insistente daquele olhar. 

Tentou convencer a si mesma de que aquilo desapareceria pela manhã, que bastava dormir, descansar, acordar. Porque era assim que as coisas normalmente funcionavam. Os problemas pareciam menores depois de uma noite de sono. As preocupações perdiam força. As emoções encontravam equilíbrio.

Mas naquela noite nada parecia disposto a seguir o comportamento normal das coisas.

Irina virou-se de um lado para o outro na cama, puxou o cobertor até os ombros e fechou os olhos, mas a tentativa de dormir durou apenas alguns minutos antes que ela os abrisse novamente.

O relógio sobre a mesa de cabeceira avançava lentamente pela madrugada. Primeiro passou da meia-noite. Depois da uma. Mais tarde, das duas. E, apesar das horas que continuavam avançando, Irina permanecia exatamente no mesmo lugar. 

Se alguém perguntasse exatamente o que havia acontecido dentro daquele escritório, ela não saberia responder.

E talvez fosse justamente isso que a incomodava tanto.

Porque seu corpo parecia ter reagido a alguma coisa que sua mente não conseguia enxergar. E quanto mais tentava esquecer, mais a lembrança voltava. 

Como se estivesse presa dentro dela. Como se alguma parte sua se recusasse a deixar aquilo ir embora.

Irina pressionou as mãos contra os olhos por alguns segundos e soltou o ar lentamente.

Aquilo estava ficando ridículo.

Era apenas um homem que ela conheceu por alguns minutos. Alguém que provavelmente já tinha voltado para a própria rotina sem sequer pensar nela novamente.

Então por que parecia tão difícil fazer o mesmo?

A pergunta a incomodou imediatamente, porque não existia resposta. Não uma que fizesse sentido.

Talvez Ekaterina estivesse certa.

Talvez tudo aquilo tivesse alguma relação com o transplante, fosse apenas ansiedade, ou ela estivesse cansada demais.

Talvez seu corpo estivesse reagindo de forma estranha por algum motivo que os médicos saberiam explicar.

Mas nenhuma dessas possibilidades parecia suficiente. E era exatamente isso que a assustava.

Porque Irina sempre acreditou que tudo tinha uma explicação.

Sempre.

Mesmo quando não gostava da resposta, ou quando a resposta era difícil.

Ela acreditava em lógica, causa, consequência e fatos. Mas o que havia acontecido naquele escritório parecia escapar de tudo isso.

Não conseguia explicar a sensação que teve quando seus olhos encontraram os dele, nem por que continuava pensando naquilo horas depois. E definitivamente não conseguia explicar a estranha impressão de que alguma coisa dentro dela tinha reagido antes mesmo que tivesse tempo de pensar.

Os dedos voltaram a tocar o próprio peito inconscientemente.

O coração batia normal agora, ou pelo menos quase normal. Mas a inquietação permanecia.

E quanto mais tentava encontrar uma resposta racional, mais uma sensação desconfortável começava a crescer.

Como se estivesse esquecendo alguma coisa. Como se existisse uma peça faltando em um quebra-cabeça que ela nem sequer sabia estar montando.

Irina fechou os olhos com força.

Precisava dormir. Precisava parar de pensar. Precisava acordar na manhã seguinte e descobrir que tudo aquilo tinha sido apenas uma reação exagerada a um encontro estranho.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não tinha certeza de que conseguiria convencer a si mesma disso.

Fechou os olhos várias vezes ao longo da madrugada, mas nada mudava. Tentava obrigar a mente a pensar em qualquer outra coisa, porém a voz dele, a pergunta e a sensação inexplicável que surgira naquele escritório continuavam voltando com a mesma força. 

Até que, em algum momento entre o cansaço e a insônia, alguma coisa aconteceu.

Tudo aconteceu em questão de segundos, rápido demais para que ela entendesse completamente, mas suficiente para fazê-la prender a respiração. 

Por um breve instante, teve a impressão de ouvir uma risada distante e suave. Não reconheceu a voz, nem o lugar, mas reconheceu a sensação que surgiu junto com ela. 

Era paz. 

Uma paz profunda, acolhedora e estranhamente familiar, tão intensa que quase doeu, e foi exatamente isso que a assustou.

Porque aquela sensação não parecia dela.

Não era apenas familiar.

Era pior.

Parecia uma lembrança.

E Irina tinha absoluta certeza de nunca ter vivido aquilo.

Os olhos se abriram imediatamente e Irina sentou na cama num impulso, ofegante, com a mão pressionada contra o peito enquanto sentia o coração acelerar outra vez. 

O quarto permanecia escuro, silencioso e vazio, mas a sensação continuou ali por alguns segundos que pareceram longos demais. 

— O que está acontecendo comigo...? — sussurrou. 

A pergunta desapareceu no silêncio, sem encontrar resposta, lógica ou explicação, deixando para trás apenas uma sensação incômoda de que alguma coisa estava errada.

Mas, pela primeira vez desde que conheceu Nikolai Romanov, Irina começou a ter medo de descobrir.

Na manhã seguinte, Irina decidiu que evitaria o último andar, a presidência e Nikolai Romanov. Era um plano simples e perfeitamente razoável, pelo menos até entrar no vestiário das funcionárias. O passo seguinte nunca chegou a ser dado, porque ela parou imediatamente ao avistar um uniforme novo sobre um dos bancos, perfeitamente dobrado e muito mais elegante do que qualquer outro que já havia usado. 

Não pertencia a ninguém daquele setor, e ela percebeu isso antes mesmo de notar o envelope deixado ao lado dele. 

O estômago apertou. Os dedos permaneceram imóveis por um instante sobre o envelope antes que ela finalmente encontrasse coragem para abri-lo. 

Então seus olhos encontraram a única frase escrita ali, e seu coração falhou uma batida.

"A partir de hoje, você trabalhará diretamente para mim."

 Nikolai Romanov

Irina permaneceu imóvel.

Os olhos voltaram para a assinatura, depois para o uniforme e  novamente para o bilhete. Como se estivesse esperando que as palavras mudassem, ou como se tivesse lido alguma coisa errada. 

Mas as palavras continuavam ali.

Durante toda a noite ela havia tentado convencer a si mesma de que aquele encontro não significava nada.

Que Nikolai Romanov provavelmente já nem se lembrava dela. Que tudo aquilo não passava de um mal-entendido criado pela própria imaginação.

Agora já não tinha tanta certeza.

Porque havia passado horas procurando uma forma de evitá-lo.

E, aparentemente, evitá-lo já não era mais uma opção. 

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