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Capítulo 2 — O Que Não Faz Sentido 

“Existem encontros que despertam desejo. Os mais perigosos despertam lembranças.”

Existem perguntas que fazemos por curiosidade. Outras fazemos porque alguma coisa dentro de nós exige uma resposta.

Nikolai Romanov não costumava fazer perguntas a desconhecidos.

Foi por isso que o próprio som da sua voz pareceu estranho quando ele encarou a mulher parada do outro lado da sala e perguntou:

Qual é o seu nome?

A pergunta saiu baixa e rouca, carregada por uma urgência incomum. Dmitri ergueu ligeiramente as sobrancelhas ao ouvir o tom da voz do amigo, porque havia algo ali que não combinava com o homem controlado que Nikolai costumava ser.

Irina demorou um segundo para responder, porque a intensidade com que ele aguardava aquela resposta fez parecer que ela tinha um peso que não deveria ter.

— I-Irina — disse, com a voz um pouco mais baixa do que gostaria. — Irina Petrova.

O nome pareceu permanecer suspenso entre os dois durante alguns segundos.

Nikolai repetiu aquele nome mentalmente, procurando alguma explicação para o incômodo que sentia. Mas não havia nada. Nenhuma lembrança, nenhuma conexão aparente, apenas a sensação desconfortável de estar reagindo de forma inexplicável a uma mulher que nunca tinha visto antes.

Irina Petrova era uma desconhecida. Nikolai sabia disso. Ainda assim, precisou forçar os dedos a relaxarem ao perceber que havia cerrado a mão com força, como se seu corpo estivesse reagindo a algo que sua mente não conseguia compreender.

Atrás dele, Dmitri deixou o copo sobre a mesa lateral com cuidado e passou a observar o amigo com uma atenção muito mais séria. Conhecia Nikolai havia tempo suficiente para saber que o problema não estava na funcionária, mas na reação dele, porque Nikolai Romanov não se alterava diante de ninguém, não perdia o foco sem motivo e, acima de tudo, não olhava para uma mulher como se ela tivesse acabado de atravessar uma porta que deveria permanecer fechada.

— Pode continuar — Nikolai disse por fim, recuperando parte da frieza habitual, embora o pequeno atraso na resposta já tivesse revelado demais.

Irina assentiu rapidamente e desviou o olhar antes de voltar ao trabalho. Tentou se concentrar nos materiais que organizava, obrigando as próprias mãos a se moverem com naturalidade, mas o leve tremor em seus dedos denunciava seu nervosismo. Ela odiou perceber que ainda estava consciente da presença dele do outro lado da sala, como se não conseguisse esquecer que estava sendo observada.

Nikolai voltou para perto da mesa, mas não se sentou.

Permaneceu de pé, observando cada movimento dela enquanto tentava ignorar a sensação incômoda que ela despertava, mas quanto mais tentava, mais consciente dela se tornava. 

Dmitri inclinou levemente a cabeça, analisando o perfil rígido do amigo antes de soltar uma risada baixa e sem humor.

— Eu nunca vi você olhar para ninguém assim.

Nikolai lançou um olhar frio em sua direção, mas a irritação habitual parecia enfraquecida por alguma coisa. Dmitri percebeu a mudança imediatamente e teve ainda mais certeza de que aquela mulher havia provocado uma reação que o amigo não conseguia controlar nem entender.

— Descubra tudo sobre ela.

A ordem foi baixa, direta e sem qualquer hesitação.

Dmitri ficou em silêncio por um instante, como se esperasse que o amigo percebesse o absurdo do que acabava de pedir.

— Isso é sério?

Nikolai não desviou os olhos de Irina.

— Tudo, Dmitri.

A expressão de Dmitri mudou quase imperceptivelmente, mas o suficiente para revelar que ele havia compreendido. Aquilo não parecia um interesse comum. Havia algo na postura de Nikolai, na rigidez dos ombros e na atenção incomum que dedicava àquela mulher que indicava uma reação muito mais profunda do que ele próprio parecia capaz de explicar.

— Certo — respondeu, mais baixo. — Então temos um problema?

Nikolai permaneceu olhando para Irina por mais alguns segundos antes de responder.

— Não.

A voz saiu fria, mas não inteiramente firme.

— Ainda não.

Irina terminou o trabalho mais rápido do que de costume. Permanecer naquele escritório estava se tornando cada vez mais difícil. A sensação constante de estar sendo observada a deixava inquieta e, por mais que tentasse ignorar, seu coração ainda não havia voltado ao ritmo normal desde o momento em que seus olhos encontraram os de Nikolai Romanov.

Quando deixou o escritório, Irina se obrigou a continuar andando sem olhar para trás. Apenas ao alcançar o corredor vazio ela parou por um instante, levou a mão ao peito e respirou fundo, tentando entender por que uma breve conversa com um desconhecido havia sido suficiente para deixá-la tão abalada.

— O que foi isso? — sussurrou, quase sem voz.

Do outro lado da porta, Nikolai permaneceu imóvel.

O escritório voltou ao silêncio, mas já não era o mesmo silêncio de antes.

Pela primeira vez em dois anos, alguma coisa havia conseguido atravessar a muralha de indiferença que ele construiu ao redor de si mesmo, e aquilo não o deixou curioso, comovido ou esperançoso.

Deixou-o irritado.

Porque Nikolai Romanov não gostava de reações que não conseguia controlar. Muito menos de reações que não conseguia explicar.

E, no fundo, mesmo tentando negar, ele sabia que aquilo não tinha terminado ali.

Aquilo havia apenas começado.

Dmitri foi embora pouco depois, deixando para trás o silêncio que costumava ocupar o escritório sempre que Nikolai ficava sozinho. Quando a porta se fechou, ele voltou para a mesa e tentou retomar o trabalho. Abriu relatórios, respondeu alguns e-mails e obrigou a própria atenção a permanecer na tela do computador, mas a tentativa durou menos de cinco minutos.

Por mais que tentasse se concentrar, sua mente continuava voltando para a mesma pessoa.

Irina Petrova.

Naquela noite, sozinho no apartamento silencioso que pouco havia mudado desde o funeral, Nikolai permaneceu alguns minutos diante da biblioteca antes de afastar um dos painéis de madeira escura e revelar o cofre escondido atrás dele.

Fazia dois anos que não abria aquele compartimento.

Dois anos que evitava tocar em qualquer coisa relacionada àquela noite, que fingia não lembrar de detalhes que, na verdade, continuavam presos dentro dele com uma precisão cruel.

A senha foi digitada lentamente e o  clique da trava soou alto demais no silêncio do apartamento.

Dentro do cofre, havia uma única caixa.

Nikolai permaneceu alguns segundos observando a caixa antes de puxá-la para fora. A tampa se abriu sem resistência, revelando fotografias, cartas e documentos que ele conhecia de cor, mas que passou os últimos dois anos evitando encarar.

Ele passou os documentos um a um até encontrar o prontuário médico da mulher que havia perdido. Então releu as informações em silêncio, mantendo uma frieza que exigia mais esforço do que gostaria de admitir, até que seu olhar se deteve em uma linha específica.

Uma única informação.

“Coração: doado.”

Nikolai permaneceu imóvel enquanto lia aquela informação novamente. E depois mais uma vez. A tensão se espalhou lentamente por seu corpo à medida que uma possibilidade impensável começava a surgir em sua mente.

Pela primeira vez desde que Irina Petrova atravessou a porta do seu escritório, a reação que teve ao vê-la deixou de parecer uma simples falha do próprio controle.

Porque, se aquele coração ainda batia em algum lugar, então talvez existisse uma explicação para tudo aquilo.

E talvez o passado não estivesse tão enterrado quanto ele acreditava.

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