Mundo ficciónIniciar sesiónOV: Isadora Montenegro
O trigésimo oitavo andar da Ferraz Nexus estava mais silencioso do que um tribunal em dia de sentença. Passei direto pela secretária da presidência sem esperar anúncio e empurrei a porta de vidro duplo da sala de Rafael Ferraz. Ele estava de pé diante da mesa. Sem paletó, com as mangas da camisa branca dobradas até os antebraços e um copo de água intocado ao lado de uma pasta preta. Quando me viu, nem piscou. Só ajeitou a postura e ergueu o queixo, com aquela mesma arrogância calculada que eu já conhecia das audiências em São Paulo. — Pontual, doutora Montenegro — ele disse, apontando a cadeira de couro do outro lado da mesa com um gesto seco de cabeça. — Sente-se. Temos pouco tempo. Bati a porta atrás de mim, mas continuei exatamente onde estava. — Se eu quisesse receber ordens suas, Rafael, tinha me candidatado a uma vaga no seu conselho — apoiei a bolsa na borda da mesa e cruzei os braços. — Você tem cinco minutos antes que eu volte para o meu escritório e deixe o Ministério das Comunicações terminar de enterrar a sua empresa. Os olhos escuros dele travaram nos meus. Nenhum músculo daquele rosto se moveu. — Você não veio até aqui para ameaçar — rebateu ele, a voz baixa, firme e irritantemente calma. — Se a sua intenção fosse me derrubar, já teria protocolado um pedido de bloqueio cautelar antes do meio-dia. Se está nesta sala, é porque o seu pai te entregou a notificação. — Eu li o papel ridículo que você mandou — retruquei, sustentando o olhar. — E confesso que fiquei curiosa. Em qual cartilha de reestruturação de empresas você aprendeu que casamento de fachada resolve rombo financeiro? Rafael puxou a cadeira dele e se sentou, apontando para o documento aberto sobre o couro da mesa. — Não tem nada de romance aqui, Isadora. É uma operação de governança com prazo fatal. O testamento do meu avô exige a união das duas famílias para consolidar o controle acionário antes da assembleia. Temos trinta dias a partir de hoje. — E por que cargas d’água eu deveria me importar com o seu controle acionário? — Porque a contrapartida é a única que interessa à sua família — ele inclinou o corpo para a frente, apoiando os antebraços na mesa escura. — Com a certidão de casamento averbada, encerramos todas as ações de patentes sem custos de processo para vocês. A Montenegro Investimentos passa a receber vinte por cento dos royalties de tecnologia a partir do próximo trimestre. E você ganha um assento consultivo com acesso irrestrito aos relatórios internos de governança e auditoria da Ferraz Nexus. Por um segundo, esqueci como respirar. Acesso irrestrito aos relatórios internos de governança e auditoria. Aquilo bateu na minha cabeça como um estalo. A Ferraz Nexus guardava a contabilidade da última década a sete chaves. Se existia uma prova real sobre quem autorizou aquele desvio de quarenta e dois milhões e se o meu próprio pai estava metido até o pescoço nisso ou se foi feito de bode expiatório pelo Augusto Ferraz, essa resposta estava trancada dentro dos servidores deste prédio. E o Rafael estava me entregando a chave do cofre de bandeja. Não deixei transparecer um milímetro de surpresa. Mantive o queixo erguido, puxei a cadeira de couro devagar e me sentei, cruzando as pernas com calma. — Você fala como quem tá comprando uma subsidiária falida, Rafael. Achou mesmo que bastava rabiscar uma cláusula e eu aceitaria brincar de noiva para salvar a sua pele diante do mercado? — Eu não estou pedindo favor, Isadora — a voz dele endureceu. — Estou propondo um acordo em que os dois lados saem vivos. O escândalo que tá na imprensa explode na Ferraz Nexus hoje, mas o rastro de pólvora vai bater na porta do seu pai amanhã. Você conhece esse mercado. Se eu cair, levo quem tiver amarrado no passado junto comigo. — Isso é uma ameaça? — É cálculo de risco — ele empurrou uma caneta pesada de metal na minha direção. — Casamento no civil. Trinta dias para formalizar. Residência compartilhada para manter as aparências diante dos acionistas e da imprensa até a assembleia extraordinária. Depois que a poeira baixar e a governança estiver blindada, a gente assina um divórcio consensual sem briga na justiça. Olhei para a caneta prateada parada na minha frente. O plano dele era cirúrgico, frio e prepotente. A cara do homem que o desenhou. Rafael achava que estava me encurralando para salvar o próprio pescoço, sem sonhar que estava me dando a munição perfeita para desmontar a farsa da família dele por dentro. Morar sob o mesmo teto que aquele arrogante seria um teste de paciência diário. Mas eu não ia assinar nada nos termos dele. Muito menos de graça. Apoiei o indicador na caneta e empurrei o metal de volta, fazendo-o deslizar pela madeira até bater nos dedos dele. — Você tá acostumado a lidar com conselheiros frouxos que assinam qualquer coisa para garantir o bônus de fim de ano, Rafael. Mas eu não sou uma das suas funcionárias e não sou anexo de contrato para você ditar regra. Rafael franziu a testa, os olhos semicerrados de pura irritação. — O tempo tá correndo contra nós dois, Isadora. — O tempo tá correndo contra você — corrigi, levantando da cadeira sem pressa e ajeitando a alça da bolsa no ombro. — A minha empresa continua sólida. A sua é quem tá com a cova cavada para amanhã de manhã. Ele se levantou no mesmo instante. A presença dele preencheu a sala, alto, imponente, com o maxilar travado pela primeira vez desde que entrei ali. — Você vai recusar? Caminhei até a porta, pousei a mão na maçaneta e olhei para trás por cima do ombro, sustentando o olhar dele com aquele meio sorriso cínico que eu sabia que o tiraria do prumo: — Eu vou pensar, Rafael. E se eu resolver aceitar, vai ser sob as minhas condições, não as suas. Girei a maçaneta e bati a porta com um estalo firme, deixando o presidente da Ferraz Nexus falando sozinho.






