4. Isadora descobre o nome do noivo

POV: Isadora Montenegro

Fechei a pasta do embargo de patentes e larguei a caneta na mesa.

— Três a zero para mim, doutor Ferraz — murmurei para a tela do computador, onde a decisão do juiz confirmava a terceira derrota consecutiva da Ferraz Nexus.

O interfone tocou duas vezes antes que eu conseguisse levantar para pegar um café.

— Doutora Isadora? — A voz da minha secretária soou tensa. — O gabinete da presidência da Ferraz Nexus acabou de enviar um portador especial com uma notificação lacrada. Não passou pelo contencioso. Foi entregue direto em mãos para o seu pai.

Travei a mão na xícara.

— Para o meu pai?

— Sim. E ele pediu para a senhora ir até a sala dele. Agora.

A Ferraz Nexus não usava portadores para falar com a Montenegro Investimentos há quase dez anos. As duas famílias só conversavam por meio de intimação judicial, recurso em segunda instância e alfinetada na imprensa de negócios.

Qualquer coisa fora desse script cheirava a armadilha.

Caminhei a passos largos pelo corredor do décimo quarto andar. Cruzei a antessala e abri a porta do gabinete da presidência sem me dar ao trabalho de bater.

Meu pai estava de pé diante da janela panorâmica, de costas para a porta. Segurava uma folha de papel timbrado com a postura rígida de quem tentava, a todo custo, disfarçar o nervosismo por trás daquele terno impecável.

— O que a Ferraz Nexus quer, pai? — fui direto até a mesa. — Se for outra proposta de acordo extrajudicial para liberar as licenças de software, a resposta é não. O parecer do meu compliance é indiscutível: a tecnologia foi desenvolvida com o nosso dinheiro antes da cisão.

Daniel Montenegro virou devagar. Ele dobrou a folha ao meio antes de me encarar, com um vinco fundo entre as sobrancelhas.

— Não é sobre as patentes, Isadora.

Puxei a cadeira de couro e me sentei, cruzando as pernas.

— Então é sobre o vazamento de dados que estourou nas redações de Brasília nesta manhã. Eu vi as prévias. A Ferraz Nexus tá com a corda no pescoço na licitação do governo. Eles querem que a gente retire os processos para não respingar no nosso nome?

Meu pai soltou uma risada curta, sem um pingo de graça, e caminhou até a mesa.

— Você sempre pensa rápido demais. Mas não é tão simples.

— Nada entre os Montenegro e os Ferraz é simples há trinta anos — rebati, apoiando os cotovelos nos braços da cadeira. — O que eles escreveram nessa notificação para você ficar com essa cara de quem viu um fantasma?

Meu pai colocou o papel dobrado sobre a mesa, mas manteve a palma da mão espalmada em cima, escondendo o texto.

— É uma proposta de conciliação ampla. Fim de todas as disputas na justiça, divisão dos lucros das patentes e acesso irrestrito aos relatórios de governança da holding deles.

Arqueei a sobrancelha, sem acreditar em uma única palavra.

— A Ferraz Nexus tá oferecendo abrir a contabilidade para a gente? Por quê? O conselho deles nos odeia. O Augusto Ferraz preferia tocar fogo naquele prédio a dar uma cadeira para a nossa família.

— O Augusto tá doente — meu pai respondeu, baixando o tom de voz. — E o homem que tá sentado naquela presidência agora não j**a o mesmo jogo que o pai j**ava.

Fiquei alerta na mesma hora.

Eu sabia muito bem de quem ele estava falando.

Eu já tinha cruzado com Rafael Ferraz em duas audiências de conciliação em São Paulo. Ele não era do tipo que mandava emissário para pedir trégua. Um metro e noventa de puro cinismo, ombros largos e uma frieza cortante no olhar que parecia calcular o preço de cada pessoa na sala antes do primeiro aperto de mão. Ele não gritava, não ameaçava; simplesmente asfixiava os adversários pelo caixa até a empresa pedir arrego.

Se aquele desgraçado estava recuando e oferecendo mundos e fundos, a faca no pescoço dele era muito mais afiada do que a imprensa noticiava.

— O Rafael não dá um passo sem segundas intenções, pai — avisei, inclinando o corpo para a frente. — Qual é a pegadinha? O que ele exigiu em troca desse pacote de bondades?

Daniel hesitou. Tirou a mão de cima da folha, mas não a empurrou na minha direção.

— Tem uma pendência antiga, filha. Coisas da época em que eu e o velho Horácio rompemos a sociedade. Acordos amarrados em cartório que estão vindo à tona agora por causa dessa crise da bolsa.

— Não me venha com rodeios — cortei, endurecendo a voz. — Eu sou a diretora jurídica desta empresa. Se tem um passivo podre estourando no nosso colo, eu preciso saber agora. O que o Rafael quer de você?

— De mim, nada — meu pai finalmente soltou o papel e o empurrou pelo vidro da mesa. — Ele quer você.

Franzi a testa e peguei a folha timbrada.

Meus olhos correram pelas linhas impressas em papel pesado, terminando na assinatura arrogante e angulosa de Rafael Ferraz no rodapé.

O texto era formal, conciso e assustadoramente direto. Não pedia reunião de diretoria. Não propunha fusão entre as duas empresas.

Exigia a formalização de uma união civil irrevogável entre o diretor-presidente da Ferraz Nexus e a única herdeira de Daniel Montenegro, sob pena de execução fiduciária de ações.

Li a cláusula duas vezes para ter certeza de que não era um delírio ou uma piada jurídica de péssimo gosto.

Levantei os olhos para o meu pai, com um sorriso incrédulo travado na boca:

— Ele quer que eu faça o quê?!

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