3. A Herdeira Única

POV: Rafael Ferraz

Bati a pasta encadernada com força na mesa de centro do escritório. O estrondo estalou nas paredes revestidas de couro.

— Tem que ter uma brecha, Silveira. Qualquer vício de forma, prazo caducado, qualquer merda! Não existe lei neste país que obrigue um homem a casar pra não perder o próprio patrimônio.

O Dr. Silveira nem piscou. Continuou sentado atrás da escrivaninha de mogno, com os óculos na ponta do nariz e a caneta-tinteiro entre os dedos.

— Não estamos falando de direito de família comum, Rafael — a voz dele saiu mansa, no compasso de quem não tem pressa nenhuma. — O seu avô vinculou as ações da holding fundadora a uma obrigação de recomposição societária.

Avancei até a mesa e apoiei as duas mãos na borda de madeira, encarando o velho de perto.

— Traduz isso pro português claro.

Silveira virou a página amarelada, apontando pro quarto parágrafo carimbado em vermelho pelo cartório.

— Horácio Ferraz e Daniel Montenegro eram sócios nos anos noventa, antes da briga judicial pelas patentes. Quando o seu avô comprou a parte dele por meios pouco limpos, o acordo pra evitar uma execução que faliria a empresa foi este: uma opção perpétua de recompra de trinta e cinco por cento das ações com direito a voto.

— Trinta e cinco por cento — repeti. O número desceu queimando como ácido na minha garganta.

— O suficiente pra arrancar o controle da sua mão e entregar de bandeja pra qualquer fundo rival. O seu avô colocou a cláusula de casamento como uma trava de segurança. Se você se casar com a herdeira direta dos Montenegro, a dívida é considerada paga, a opção de recompra morre pra sempre e as ações se consolidam no seu nome.

— E se eu mandar essa cláusula pro inferno?

— As ações vão direto pra um fundo de liquidação. O conselho toma a presidência e você vira um acionista minoritário sem voz nem poder de veto.

— Qual é o prazo?

— Trinta dias — Silveira foi cirúrgico. — O relógio começou a rodar no exato segundo em que o vazamento caiu na imprensa. Trinta dias cravados. Nem um minuto a mais.

A porta pesada de madeira rangeu ao abrir.

Olhei por cima do ombro. Meu pai entrou, arrastando os passos pelo tapete persa. Ele fechou a porta atrás de si, com a respiração curta, e ficou encostado na estante de livros.

Ele não parecia surpreso. Nem chocado.

Aquele silêncio covarde fez o sangue ferver na minha cabeça.

— Você sabia — soltei, dando passos largos na direção dele. — Você passou trinta anos sabendo que o velho tinha colocado essa forca no meu pescoço.

Augusto ergueu o queixo, sustentando o meu olhar pela primeira vez no dia.

— O seu avô construiu este império no meio de uma guerra, Rafael. Ele fez o que precisava pra manter a empresa de pé.

— Ele me vendeu antes mesmo de eu aprender a andar! — rebati, a voz saindo baixa, dura como pedra. — E você ficou calado. Deixou eu me matar de trabalhar, assumir essa presidência, engolir dívida... sabendo que, no primeiro tropeço, eu ia ter que abrir as pernas pra família do meu maior inimigo!

— Eu tentei anular essa desgraça duas vezes! — Augusto explodiu, a voz rouca e falha. — Botei os maiores juristas do país em cima disso. A escritura é blindada. Qualquer tentativa de contestar na justiça cancela as ações no mesmo segundo!

— E por que você não casou com uma Montenegro na sua época? — Dei mais um passo, encurralando os olhos cansados dele. — Por que a bomba sobrou pra mim?

Augusto desviou o olhar pra janela, enfiando as mãos nos bolsos do sobretudo.

— Eu já estava casado com a sua mãe. E Daniel não tinha filhas em idade de casar.

O nome da minha mãe caiu na sala como uma bofetada. Eu mal lembrava do rosto dela sem recorrer às fotos trancadas no cofre do meu pai. Mas o silêncio que ele guardava sobre ela desde sempre fazia mais sentido agora — e doía mais.

Passei a mão pelo cabelo, andando de um lado pro outro como um animal enjaulado. Trinta dias. Uma crise bilionária com o governo, o conselho pronto pra me apunhalar pelas costas e uma herança maldita me empurrando pro covil do meu rival.

Girei nos calcanhares e voltei pra mesa de Silveira.

— Daniel Montenegro tem uma penca de sanguessugas na família. Irmãs, primas, sobrinhas. Quem é o alvo dessa cláusula?

Silveira puxou uma ficha de dentro da pasta e ajeitou os óculos.

— A escritura exige descendência direta de primeiro grau, mais de vinte e cinco anos e capacidade civil plena. As irmãs de Daniel estão fora do limite de idade. Sobrinhas não contam.

— E Daniel só tem uma filha — completei, a respiração parando por um segundo inteiro.

— Uma única filha — confirmou Silveira, correndo os olhos pelo documento. — Trinta anos. Especialista em direito societário, mestre em compliance financeiro e atual diretora jurídica da Montenegro Investimentos. A mulher que comandou as últimas três ações de bloqueio contra a gente.

Fiquei imóvel no meio da sala.

O nome me acertou antes mesmo de Silveira terminar de falar. Eu já tinha visto aquela mulher em pé numa sala de audiência, desmontando os nossos argumentos com uma frieza cirúrgica que eu respeitava e odiava em partes iguais. A filha do homem que jurou destruir o meu pai. A advogada implacável que conhecia cada brecha dos nossos contratos e que agora tinha o poder de me salvar ou me enterrar vivo.

— Como ela se chama, Silveira?

O advogado fechou a pasta preta com um estalo seco e sustentou o meu olhar:

— Isadora. Isadora Montenegro.

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