4 - A ESPERA

Dante saiu do quarto e caminhou pelo corredor em direção à saída. Já era tarde. Entrou no carro e, antes de ligar o motor, respirou fundo uma vez. Depois outra. A cena do acidente voltou, como sempre voltava, para acusá-lo.

O som.

O impacto.

O corpo no asfalto.

- Essa culpa eu vou carregar, disse em voz alta.

Soou como uma declaração. Ou talvez como um confronto. Falava com o invisível, como se exigisse explicações de Deus.

Pela primeira vez desde a morte de Mônica, Dante permitiu que o pensamento avançasse para aquilo que considerava maior do que ele, mas em que já não confiava. A fé havia se rompido no dia em que perdeu a esposa.

O que mais você quer de mim?

A pergunta não buscava resposta.

Já não bastou levar a Mônica?

Já não bastou deixar a Olie sem mãe?

Me deixar com essa culpa atravessada no peito por ter acreditado em você quando mais precisei?

Fechou os olhos por um instante.

Mônica tinha lúpus. Não era um quadro leve. Tratava-se de um quadro severo. Havia riscos desde o início, alertas repetidos, noites em claro. Ainda assim, existiam chances. Foi nisso que ele se agarrou.

Na fé.

Acreditou que, mesmo diante de um corpo frágil, Deus estaria no controle. Que aceitar os riscos de uma gravidez não seria em vão. Que não seria justo perder depois de tanta luta.

Mas foi exatamente isso que aconteceu.

Mônica morreu no parto, antes de ouvir o primeiro choro de Olie. Os médicos não puderam salvá-la. Olie também nasceu fraca e prematura, precisou ficar internada por um tempo, lutando para ganhar forças antes de poder ir para casa. Tempo suficiente para Dante enterrar a esposa e aprender, à força, como seguir sozinho com um bebê nos braços.

- Você à levou de mim, disse, sem suavizar. - E ainda espera que eu confie?

Não houve resposta.

Nunca havia.

Naquele dia, ao se despedir de Mônica, fizera uma promessa silenciosa: nunca mais pediria nada.

Endireitou o corpo. O gesto automático de quem aprendeu a seguir sem amparo.

Se ela acordar bem, decidiu, vou oferecer uma indenização. Vou ajudá-la a seguir em frente. É o que posso fazer.

A decisão não vinha de fé. Vinha de responsabilidade.

Se ela não estiver bem, continuou, vou amparar a família. Vou assumir o que for preciso.

Não era promessa feita a Deus. Era um acordo consigo mesmo.

Era o limite do que ainda acreditava poder controlar.

Consultou o relógio. Já era tarde.

Ligou o motor e seguiu para casa. Ao entrar, encontrou a governanta na sala e perguntou:

- Você conseguiu contratar alguma babá?

- Não consegui, senhor Owen. Nenhuma delas se enquadrava nas suas exigências.

- Droga. Será que é pedir demais alguém minimamente qualificado?

Virou-se para ela, decidido:

- Continue procurando. Quando encontrar, contrate imediatamente.

Agradeceu e seguiu para o quarto. Olie já dormia.

Mais uma vez, ele não chegou a tempo.

A madrugada avançava devagar no hospital.

Não era silêncio absoluto, mas um intervalo diferente do resto do dia. Menos vozes, menos passos, menos interrupções. O tempo parecia passar mais lentamente.

Foi nesse intervalo que Melissa acordou novamente.

Não despertou de uma vez. A consciência retornou em partes, como se fosse preciso atravessar camadas até alcançar algo reconhecível. Havia um peso no corpo. Um peso estranho, que não correspondia apenas ao cansaço que ela conhecia tão bem. Era diferente, como se não tivesse forças sequer para se sustentar sozinha.

Abriu os olhos. A luz da UTI irritou-lhe a visão, e ela precisou fechá-los novamente.

De olhos cerrados, tentou organizar os pensamentos, mas eles vinham soltos, sem ordem. Não havia imagens claras, apenas a sensação insistente de que algo estava errado.

A preocupação veio antes da memória.

Um som escapou de sua garganta, baixo, quase involuntário.

- Ela está acordando, disse uma voz próxima.

Melissa tentou falar, mas o ar parecia curto demais. A garganta estava seca. Tudo exigia esforço.

- Calma, respondeu outra voz, firme. - Você está no hospital. Sofreu um acidente.

- Água… pediu, com voz fraca, tomada pela sede.

A enfermeira se apressou em embebecer um algodão e molhou-lhe os lábios com cuidado, deixando algumas gotas escorrerem para dentro da boca, aliviando a garganta ressecada.

Ela tentou se mover novamente. O corpo respondeu com atraso. Foi então que a dor começou a se impor, espalhada, ocupando espaço dentro dela.

Respirou com dificuldade.

- Meu pai… - conseguiu dizer, com esforço.

O médico se aproximou do leito, inclinando-se para ficar à altura de seu rosto.

- Você consegue me dizer seu nome? - Precisamos localizar sua família.

Melissa piscou algumas vezes. A dor pulsava agora, mas havia algo mais forte naquele momento.

Preocupação. Não com ela, mas com o pai.

- Me chamo…,  voz falhou. - Mel…

Richard aguardou, sem pressionar.

- Mel? Incentivou. - Continue.

Ela respirou fundo, sentindo o esforço pesar no peito.

- Melissa… disse com dificuldade. - Melissa Cross.

A equipe anotou rapidamente.

- Certo. E o nome do seu pai?

- John…, respondeu, sentindo a pressão aumentar. - John Cross.

Richard se virou para a equipe, já dando um passo adiante.

- Vamos entrar em contato.

Antes que completasse a frase, Melissa estendeu a mão com esforço e segurou o pulso dele. O gesto foi fraco, mas decidido.

- Não, disse, quase num sussurro. - Por favor, não.

Dr Richard se voltou para ela, surpreso.

- Seu pai precisa saber que você está aqui.

Melissa respirou fundo. A dor crescia, mas a preocupação crescia ainda mais.

- Ele está internado, disse com dificuldade evidente. — Muito debilitado. Esperando um transplante de coração.

O monitor reagiu. A frequência aumentou.

- Se ele souber…, continuou, lutando para manter os olhos abertos. - Pode não resistir.

Richard hesitou por um instante. Pouco tempo, mas suficiente para mostrar que a situação não era simples.

- Não contem nada, pediu Melissa. - Não agora. Não a ninguém.

O esforço cobrou seu preço. A dor voltou com mais intensidade, como se o corpo reclamasse daquela lucidez forçada.

- Ela está muito agitada, avisou a enfermeira.

- Vamos controlar a dor, respondeu a Richard. - Agora.

A medicação começou a correr pelo acesso. Melissa tentou dizer mais alguma coisa, mas a voz já não saía. O corpo começava a ceder, mesmo quando a mente insistia em permanecer alerta.

A pressão subia, não pelo ferimento. Mas pela preocupação.

Antes que o silêncio retornasse por completo, um pensamento se manteve claro, insistente:

Não contem a eles.

O mundo começou a se afastar novamente, não como um apagão abrupto, mas como um recuo lento e inevitável.

Quando tudo se aquietou, ela já dormia outra vez.

Richard permaneceu alguns segundos ao lado do leito, observando os monitores se estabilizarem. O pedido ainda ecoava em sua mente. Não era comum ouvir aquele tipo de preocupação vinda de alguém naquela condição.

Anotou as informações com cuidado.

Nome completo.

Nome do pai.

Observação: paciente solicita não comunicar familiares no momento.

Fez um gesto discreto para a equipe.

- Vamos respeitar, disse em voz baixa. — Por enquanto.

A madrugada seguiu.

Em outro ponto do hospital, o nome recém-descoberto foi incluído no prontuário.

Melissa Cross.

Pela primeira vez, ela deixava de ser apenas um corpo ferido sem identidade.

E, sem saber, dava início a uma sequência de decisões que não dependiam mais apenas dela.

Horas depois, ainda antes do amanhecer, Melissa dormia sob efeito dos analgésicos. A dor havia recuado, mas não desaparecido por completo. O corpo permanecia frágil. A mente, exausta.

Mesmo inconsciente, havia tensão em seus traços, como se o descanso fosse vigiado.

Do lado de fora, o hospital começava lentamente a acordar para mais um dia, e a equipe médica decidiu comunicar Dante sobre a identidade da paciente, já que ele era o responsável até então.

Dante já estava no estacionamento da sede de sua empresa quando recebeu a ligação.

Estava dentro do carro, com a porta aberta, a pasta apoiada no banco do passageiro. O prédio ainda estava quieto àquela hora, poucos carros chegando, o dia apenas começando a se organizar.

O telefone vibrou.

Era o hospital.

Atendeu sem hesitar.

- Senhor Owen, disse a voz do médico. - A paciente acordou durante a madrugada.

Dante fechou a porta do carro com calma e se apoiou no encosto do banco.

- Ela está consciente agora? — perguntou.

- Teve um período de lucidez. Sentiu muita dor, mas conseguiu se comunicar. Precisamos controlá-la novamente com analgésicos. No momento, dorme. Está estável. Dante ouviu em silêncio aliviado.

- Ela informou o nome, continuou o médico. — Melissa Cross. E também nos informou o nome de seu pai.

O nome não despertou lembrança alguma. Ainda assim, Dante o registrou com atenção.

- A família já foi comunicada? - perguntou.

- Não. Ela pediu que não comunicássemos ninguém. O pai está internado, aguardando um transplante de coração.

Dante respirou fundo uma única vez.

- Então aguardem, disse. - Se a paciente pediu, vamos respeitar.

Houve uma breve pausa do outro lado da linha.

- Precisaremos localizar algum responsável legal, ponderou o médico. - Nem sempre conseguimos manter esse tipo de decisão por muito tempo.

- Entendo, respondeu Dante. - Mas não tomem nenhuma iniciativa até que ela esteja consciente e em condições de conversar. Quando acordar e estiver estável, eu irei ao hospital. Preciso falar com ela.

- Certo, disse o médico. - Avisaremos.

Dante desligou o telefone e permaneceu alguns segundos parado, olhando para o prédio da empresa sem realmente enxergá-lo.

Melissa Cross.

Agora havia um nome.

Ficou no carro por alguns instantes após desligar o celular. Pensava no que diria quando estivesse diante dela.

Ele não tinha respostas.

Só responsabilidades e não fugiria delas.

Sentiu-se, no entanto, mais aliviado ao saber que Melissa recobrava a consciência. Pensou por alguns segundos: pobre infeliz. Um acidente brutal e um pai sem condições de ampará-la.

Por que algumas pessoas atraem histórias tão perturbadoras?

Seria coincidência? Ou algo que não se pode explicar?

Dante reconheceu dois sentimentos em relação a Melissa.

O primeiro era responsabilidade.

O segundo, dó.

Agora que ela tinha um nome, o peso do que havia acontecido parecia maior do que antes.

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