Capítulo 3
Faltava apenas o carimbo do responsável pelo registro civil nos documentos do divórcio.

O problema era que ele tinha saído da cidade para resolver alguns assuntos e só voltaria dois dias depois.

Durante esse período, eu ensinava Bruno a fazer hastes de guarda-chuva todos os dias no quarto dos fundos.

— Vá seguindo as fibras da taquara ao desbastar. Nunca corte contra o sentido delas.

Bruno assentiu e começou a trabalhar com cuidado.

Depois de fazer alguns ajustes com a ferramenta, tirou um pequeno beija-flor de madeira do bolso e colocou na minha mão.

— Eu fiz isso para a senhora.

Não consegui segurar um sorriso.

No instante seguinte, percebi que Henrique estava parado na porta.

Eu nem tinha notado quando ele chegou.

A expressão dele estava mais fria do que nunca.

— Bruno, a oficina de barcos está precisando de alguém para carregar madeira. Vá ajudar lá.

Bruno se assustou e se levantou rapidamente.

— Sr. Henrique, você chegou.

Ele segurava a ferramenta nas mãos e parecia dividido.

— Mas a Luana ainda está me ensinando... Além disso, eu sou pequeno. Acho que não vou conseguir carregar aquelas peças grandes de madeira.

O olhar de Henrique passou pelo beija-flor de madeira que eu segurava, e sua expressão ficou ainda mais fechada.

— Se não consegue carregar, então treine até conseguir. Hoje você não vai aprender a fazer guarda-chuvas.

Coloquei Bruno atrás de mim.

— Ele é aprendiz da oficina de guarda-chuvas. O trabalho dele é aprender a fazer guarda-chuvas.

Henrique soltou uma risada fria.

— Então agora eu não posso nem dar uma tarefa para o aprendiz da minha própria loja?

Ele colocou sobre a mesa a garrafa térmica que segurava.

Dentro havia água morna.

Era a mesma garrafa que eu costumava levar para a oficina de barcos.

No passado, quando eu levava o jantar para Henrique, sempre colocava água quente ali antes de sair.

Eu sabia que ele passava noites inteiras trabalhando perto do rio e muitas vezes nem tinha uma bebida quente para tomar.

Provavelmente, ele tinha vindo trazer água para mim.

Mas, assim que abriu a boca, o que saiu foi apenas uma cobrança.

— Esse quarto tem vento entrando por todos os lados. Você está morando aqui só para fazer a cidade inteira achar que a família Alves maltrata você? Você realmente sabe planejar cada passo.

Olhei para a garrafa térmica.

A pequena emoção que tinha surgido no meu coração desapareceu rapidamente.

— Você está pensando demais. Assim que acertarmos as contas hoje, amanhã vou procurar o responsável pelo registro civil e concluir os procedimentos. Depois disso, eu e você não teremos mais nada um com o outro. Ninguém vai dizer que a família Alves me tratou mal.

A expressão de Henrique mudou por um instante.

A mão dele, caída ao lado do corpo, se fechou com força.

Depois de um momento de silêncio, ele finalmente falou, como se estivesse disposto a ceder.

— Eu posso impedir que a Isabela mexa na sua bancada de trabalho. Também posso devolver a chave do armário de contas para você. Só volte para casa.

Essa era a forma dele de compensar tudo.

Foi justamente nesse momento que Isabela entrou.

Ao ouvir aquelas palavras, ela parou por um instante.

O sorriso no rosto desapareceu um pouco, mas logo ela voltou a agir como se nada tivesse acontecido e se aproximou.

— Luana, o Henrique já está disposto a ceder. Volte para casa. Vocês dois realmente precisam chegar ao ponto do divórcio?

Ela pressionou levemente os lábios, como se tivesse se lembrado de algo por acaso.

— Mas, já que você está insistindo tanto... será que é mesmo porque o Rafael está voltando?

Olhei para ela, sem esconder a frieza na voz.

— Isso não tem nada a ver com o Rafael.

Isabela cobriu a boca e soltou uma risada baixa.

— Eu só estava brincando. Todo mundo sabe que você e o Rafael sempre foram muito próximos. Agora que ele vai voltar, é normal que as pessoas pensem nisso.

Como se aquelas palavras tivessem tocado em uma ferida, Henrique arrancou o beija-flor de madeira da minha mão.

— Alguém te dá uma coisa sem valor como essa e você já fica tão feliz. Você realmente é fácil de conquistar.

Puxei levemente o canto dos lábios.

— Pelo menos isso foi dado pelo Bruno de coração. Não foi usado para me obrigar a abaixar a cabeça.

A expressão de Henrique ficou completamente fria.

— Vou perguntar pela última vez. Você vai voltar para casa hoje à noite ou não?

— Não vou.

Henrique ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois soltou uma risada fria, quase imperceptível.

— Faça como quiser.

Ele colocou o beija-flor de madeira de volta sobre a mesa e saiu sem sequer pegar a garrafa térmica.

Isabela foi atrás dele até a porta.

— Eu vou com você para a oficina de barcos. À noite, o rio fica úmido e frio. E o ferimento da sua mão ainda não cicatrizou.

Henrique não recusou.

Os passos dos dois desapareceram no fim do beco.

Peguei o beija-flor de madeira e guardei com cuidado.

Depois, peguei a garrafa térmica.

A água estava exatamente na temperatura certa.

Ele sabia que, depois de eu cair no rio, eu tinha passado a temer mais o frio.

Também lembrava que eu não conseguia beber água quente demais.

Ele se lembrava de tudo isso.

Mas, mesmo assim, nunca foi capaz de me dar uma única palavra de confiança.

......

Naquela madrugada, entreguei a chave da Mansão dos Alves para Francisco.

Mas Henrique voltou mais uma vez.

Havia um leve cheiro de álcool nele.

Ele parou na porta do quarto e viu os pingentes de guarda-chuva que eu tinha feito para Bruno e Maria.

De repente, estendeu a mão para mim.

— Para os outros você se esforça tanto. E o meu?

Fiquei surpresa por um instante.

Mas Henrique logo recolheu a mão, como se aquela frase nunca tivesse saído da boca dele.

— Esquece. Fazer coisas para os outros parece natural para você. Quando é para mim, parece até uma obrigação por pena.

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