Capítulo 5. Temor

A maneira como Michel a agarrou pelo colarinho, prendeu sua garganta e a estava sufocando. Carolina não era boba, tinha vindo de outra vida, assumido o corpo de uma morta e não queria morrer de novo nas mãos de um suposto irmão que não a respeitava.    

     Prendendo o pouco de ar que ainda tinha nos pulmões, Carolina ergueu as mãos, segurou com força os ombros dele, apoiando-se e ergueu sua perna, chutando o baixo ventre do homem alto e forte. O urro de dor foi ouvido por todos os que estavam próximos e ele a soltou para segurar suas partes íntimas.

      Caindo de bunda no chão, Carol apoiou as mãos, levantou-se com dificuldade, mas não ligando para a dor em seu “derriere”. Correu para o carro onde Charles já a esperava com a porta aberta. Entraram e saíram às pressas, passando pelo portão sem olhar para trás. 

      Se tivessem olhado, teriam visto Gustavo chegando e acertando um tapa forte no rosto do filho. A discussão entre os dois começou e foi preciso que Helena interviesse para acalmá-los.

      Em seu escritório luxuoso, Dominick espumava de raiva e ansiedade. Não houve nenhuma notícia sobre uma mendiga morta embaixo da ponte. Cansado de esperar, ligou para o homem que lhe prometeu o serviço completo. 

      — O que aconteceu, por que ainda não vi nenhuma notícia sobre uma mendiga morta? 

      — Não sei o que houve, Senhor, estou indo até o local para ver se alguém soube de alguma coisa ou se há algum movimento por lá. 

      — Ande logo, não posso deixar que aquela pirralha continue suas investigações. 

     — Pode deixar, vou averiguar.

     Na presidência, no último andar, longe do escritório do CEO, Alan desligava o telefone cheio de esperança, depois de falar com a doutora Ferreira. Ele recebeu sua ligação e não esperava encontrar uma pessoa tão acessível e boa, disposta a tudo para auxiliar quem precisava, dentro de uma empresa onde só tinha “ratos”.

      Sorria à toa, ansioso pelo dia seguinte. Não contou para a esposa e nem para ninguém, combinou com a doutora e ele mesmo iria buscá-la para levá-la até onde seu filho estava sendo mantido secretamente. 

    

      Não querendo correr o risco de alguém sabotar a ida dela até seu filho e principalmente, não querendo que ninguém soubesse para não criar expectativas vãs ou atrapalhar o tratamento se fosse possível, Alan resolveu, ele mesmo, acompanhá-la e não contaria nem para a esposa.

      Carolina Ferreira, por sua vez, em seu laboratório, estava parada com os cotovelos apoiados na mesa e mordendo uma caneta, pensando no caso de Rafael. Pelo que ouviu de sua xará Carol e do senhor Alan, Rafael foi intoxicado e precisaria fazer uma investigação no seu corpo e no ambiente onde estava.

      Pelo tempo que ele estava sobrevivendo, provavelmente não estava envenenado com um veneno mortal, mas sim intoxicado, e se ainda não tinha dado sinais de vida, provavelmente alguém estava renovando a toxina. Só saberia depois que examinasse tudo.

      A Dra Ferreira tinha visto no noticiário o caso do jovem e promissor CEO Rafael, mas não podia se oferecer para o examinar, suas famílias eram inimigas de negócios e embora ela não trabalhasse com a gestão das empresas, seu nome estava no topo da lista de contratados, além de ser uma das acionistas.

      Quando recebeu a ligação da jovem Carolina Gordon, sua alma se alegrou e soube que era um caso especial. Pediu o contato do Sr. Alan e ligou, não querendo perder tempo. Erick Smith estava no seu pé, cobrando a nova pesquisa e seria bom se afastar um pouco dele.

      Imediatamente começou uma pesquisa usando os sintomas do enfermo e conseguiu alguns nomes de venenos, mas também surgiu um novo experimento, associando substâncias naturais e bactérias .

      — Uau! Quem diria que inventariam algo tão destrutivo. Precisarei tomar muito cuidado e preparar um antídoto. Caso estejam usando ele com cobaia o que acontecerá se usarem como a arma e lançarem na população?

       Não sabia o que a jovem Carol tinha a ver com tudo isso, ela parecia ser uma jovem muito esperta, pois estava pesquisando e chegou a base da questão, contactando-a. Depois que visitasse o rapaz e conseguisse curá-lo entraria em contato com ela para conhecê-la melhor.

      Carolina no corpo de Carol, chegou ao espaço restrito que chamavam de seu laboratório, no subsolo do prédio onde ficava a empresa de seu pai. Entrou e ligou o seu computador de última geração e com várias adaptações que ela mesmo fez para conseguir alcançar o nível que exigiam seus projetos.

       Sentou-se na poltrona confortável, a única coisa que ela tinha de bom naquele lugar e recostou-se, pensativa. 

      — É, Carolzinha, agora vamos testar se nossas mentes se conectaram completamente, pois eu não entendo nada de informática, o que dirá de criação de software.

      Assim que Carolina ligou o computador e a imagem surgiu pedindo a senha, digitou automaticamente, sem nenhuma dificuldade. Abriu sua área restrita de trabalho, várias pastas apareceram e ela conhecia bem a cada uma. 

      — Isso é incrível, eu jamais imaginaria que poderia voltar no tempo e ainda habitar o corpo de outra pessoa com o total acesso às suas memórias e qualidades. Não gostei de deixar minha vida para trás ou para frente (risadinha), mas poder agir em duas áreas distintas e que exige profundo conhecimento, é esplendoroso! 

      Trabalhou o restante do dia só parando para pegar algo para comer, na máquina do corredor. Faltava alguns pontos para acertar no algoritmo e tinha deixado de fora, propositalmente, para atrapalhar o seu irmão. Acertou tudo, testou e registrou. 

      — Pronto, idiota, aproveite bem, é o último trabalho que faço para vocês.

      Passou todos os dados para um pendrive e foi ao escritório central. A secretária a tratou com arrogância e as memórias da antiga dona chegaram com força, revelando episódios que ela ocultava no profundo do seu cérebro. 

      Não imaginou que a jovem esperta e inteligente era tão maltratada por sua família, ao ponto de até os funcionários a destratarem. Essa secretária era a principal, deixava ela esperando por horas até poder entrar no escritório e por diversas vezes, derramou café quente sobre ela e sujou seis documentos.

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