Mundo de ficçãoIniciar sessãoA Verdade que Ficou Presa na Garganta
Melina abriu a porta do apartamento de Ferith com um sorriso que iluminava o hall escuro como um farol. Eram quase duas e meia da manhã, mas ela sabia que ele estaria acordado. O luxuoso duplex ficava no coração de Dubai Marina. Ela ainda carregava no corpo o calor do palco, pele clara ligeiramente rosada pelo esforço, cabelos pretos longos soltos e ondulados nas pontas, olhos verdes brilhando com uma mistura de triunfo e cansaço, vestia um simples macacão de seda branca que abraçava suas curvas, nada comparado ao traje dourado e vermelho da dança, mas mesmo assim ela parecia uma rainha voltando da guerra. Ferith surgiu da sala de estar antes mesmo que ela fechasse a porta. Alto, imponente, barba bem aparada e olhos castanhos cheios de alívio, ele vestia apenas uma calça de moletom preta e uma camisa branca aberta no colarinho, com a cara emburrada de tanto esperar. Na mesa de centro havia uma garrafa de suco de romã gelado, duas taças e um envelope fechado que ele planejara abrir naquela noite. Dentro dele, uma carta que ele escrevera à mão durante a tarde toda, lá estava escrito a verdade que guardava há seis meses. “Meu amor, meu pai é o Sheik Khalid Al-Mansour, governante de um dos maiores emirados. Eu sou o herdeiro. Eu escondi por medo de te perder…” Ele havia ensaiado o discurso mil vezes no espelho. Hoje seria o dia, logo ela descobriria quem ele era e poderia ser julgado por mentir e perder Melina. Mas quando Melina entrou rindo e quase gritando de alegria, jogando a bolsa no sofá, Ferith esqueceu o envelope por um segundo. Ela pulou no seu colo e o beijo foi urgente, faminto, o tipo de beijo que apagava brigas e parecia que ela tinha acendido um fogo que ele não entendia. — Você está aqui — ele murmurou ele contra os lábios dela, e suas mãos descendo pela curva da cintura fina. — Graças a Deus. Eu quase morri de preocupação. Como foi? Conta tudo? Melina riu, aquele riso cristalino que mostrava que tinha feito algo grande. Puxou-o pela mão até o sofá, sentou-se no colo dele como nos tempos da faculdade e começou a falar sem parar, os olhos verdes faiscando de excitação, desarmando ele completamente. — Ferith, foi o show da minha vida! O palácio… meu Deus, parecia saído de um conto de fadas. Cúpulas douradas, fontes aromatizadas, salão enorme com teto de cristal. Tinha dez dançarinas, as melhores do Oriente Médio. Eu era a última, a principal. O cachê? Absurdamente alto, dá pra comprar um apartamento em Moscou e ainda sobrar pra viajar, para presentear meus pais. Mas o melhor não foi o dinheiro. Ela fez uma pausa dramática, mordendo o lábio inferior. Ferith sorriu, acariciando os cabelos longos dela, ainda orgulhoso. — O que foi então? Você dançou como só você sabe dançar? — Mais que isso. Eles estavam ignorando a gente, Ferith. Todos aqueles homens, empresários, governantes, sentados em almofadas de seda, fumando Shisha, charutos caros, falando de petróleo, contratos, política. Durante a dança das outras meninas já tinha burburinho. Quando chegou minha vez… piorou. Eu entrei a música começou, eu fiz tudo perfeito, e eles? Continuavam conversando! Como se eu fosse música de fundo. Os olhos dela endureceram com a lembrança. Ferith sentiu um frio na espinha, mas ainda sorria, achando que era só uma história engraçada, mas la no fundo ele sentia que não era tão simples assim. — E aí? — perguntou ele, traçando o contorno do rosto dela com o polegar. — Aí eu parei. Parei tudo. A música continuou por um tempo e depois parou e o músico quase morreu de susto. — Ela ri nesse momento, com a lembrança. Ela levanta do colo dele e demonstra o que fez. — Eu coloquei as mãos na cintura, ergui o queixo e falei alto, em árabe, que se eles vieram aqui para fechar negócios, vão para a sala ao lado. Eu não danço para paredes. Eu danço para homens que sabem respeitar uma mulher que coloca a alma no palco. Se não conseguem calar a boca por cinco minutos, eu paro agora. — Ah é? E onde foi isso? — Perguntou divertido, imaginando a cena. — Bom, foi só no Burj Al Arab... uma das maiores convenções de poderosos da região. — Ela suspira de orgulho de si mesma. Ferith congelou. O sorriso morreu nos lábios. Melina não notou, mas o rosto de Ferith empalideceu e seu corpo travou no lugar e a respiração ficou presa.






