Mundo de ficçãoIniciar sessãoO Sheik Khalid Al-Mansour. Cinquenta e cinco anos era devastadoramente bonito. Alto mesmo sentado, ombros largos que preenchiam o thobe branco imaculado com bordados dourados sutis. Pele morena dourada, marcada por linhas de expressão que só aumentavam o charme. Cabelos pretos com fios grisalhos nas têmporas, barba curta e bem cuidada. Mas o que prendia o olhar eram os olhos: castanhos esverdeados, profundos como o deserto ao entardecer, contornados por um delineado preto perfeito de kohl tradicional que ele nunca abandonara. Olhos que pareciam ver através da alma.
Khalid sentiu o impacto como um soco no peito. Nunca, em todos os seus anos de poder, uma mulher o havia confrontado assim. Em público. Com aquela voz firme, aquele corpo que parara de dançar e ainda assim dominava o espaço inteiro. A pele branca contrastando com o vermelho da saia, os olhos verdes brilhando de raiva e orgulho, os cabelos negros caindo selvagens sobre os ombros. Ela era fogo em forma de mulher. O coração dele, aquele coração que ele jurava ser de pedra depois de três casamentos arranjados e uma vida de dever, acelerou de forma vergonhosa. Uma onda de desejo puro, cru, avassalador, subiu pela sua espinha. Ele quis se levantar. Quis aplaudir. Quis… mais. Mas Khalid Al-Mansour não era homem para demonstrar fraqueza. Ele manteve o rosto impassível, mandíbula rígida, olhos semicerrados, apenas um leve inclinar de cabeça, quase imperceptível que poderia ser interpretado como aprovação ou mera curiosidade. Internamente, porém, ele queimava. As mãos apertavam a xícara de chá com tanta força que o ouro quase entortava. “Quem é essa mulher?”, pensou ele, forçando a mente a se acalmar. “E por que o meu corpo reage como se eu tivesse vinte anos novamente?” Melina, sem saber que acabara de incendiar o homem mais poderoso do salão, retomou a dança. Desta vez, o silêncio era absoluto. Todos os olhos estavam nela, cada ondulação dos quadris, cada arco dos braços, cada batida do derbak era sentida como um golpe. Ela dançou com fúria contida, com paixão redobrada, a saia rodopiava, as moedas tilintavam, o véu voava. E quando terminou, com um giro final dramático e uma reverência profunda, o salão explodiu em aplausos genuínos, altos, respeitosos. Khalid não aplaudiu, apenas bateu palmas duas vezes, lentas, controladas. Mas seus olhos não desgrudavam dela, ele notou o leve brilho de suor na pele clara do colo, a respiração acelerada que fazia o peito subir e descer, o jeito como ela erguia o queixo como uma rainha. Quando Melina se retirou do círculo, o mestre de cerimônias anunciou um intervalo. Ela caminhou de volta ao camarim com as pernas firmes, mas o coração ainda batendo forte da adrenalina. Uma das dançarinas a abraçou: — Você é louca! Mas genial. Eles nunca tinham ficado quietos assim. Melina sorriu, ainda sem fôlego. — Alguém tinha que ensinar respeito! No salão, Khalid chamou discretamente um dos seus assessores mais próximos. — Quem é ela? — perguntou em voz baixa, tom neutro, quase entediado. — Melina Petrova, Vossa Alteza. Russa, a mais requisitada do circuito internacional. Acabamos de descobrir que … é noiva do seu filho, Ferith. Khalid sentiu o chão tremer sob os pés. Noiva de Ferith. A informação bateu como um golpe. Seu próprio filho escondia algo tão grande assim, e a mulher que acabara de despertar nele um desejo que ele não sentia há décadas… era a noiva de Ferith. Ele manteve o rosto de pedra. Ninguém no salão percebeu a tempestade interna, apenas assentiu uma vez, como se a informação não significasse nada. — Interessante! — disse apenas. Internamente, porém, Khalid já sabia. Aquela mulher não sairia da sua cabeça. E ele, homem duro, sério, acostumado a ter tudo que desejava, já calculava como fazer o impossível: tê-la para si. Mas antes ele daria a chance de Ferith lhe contar, pois ele se comprometeu a ela sem que o mundo soubesse. Porque quando o Sheik Khalid Al-Mansour queria algo… ele conseguia. Sempre. Melina, no camarim, trocava de roupa sem imaginar que o destino acabara de mudar de direção. Ela só pensava em voltar para Ferith, contar da noite triunfal e, quem sabe, fazer as pazes depois da última briga. Mas o olhar daqueles olhos castanhos esverdeados delineados de preto… aquele olhar que ela sentira queimando em sua pele durante toda a dança final… aquele olhar não a deixaria em paz tão cedo. E ela ainda não sabia o nome dele.






