O idiota do elevador

Algumas semanas se passaram desde o anúncio da venda da Alfhavision. Nesse meio tempo, a empresa vira de cabeça para baixo. O novo dono assume o controle de forma implacável, mudando processos e exigindo relatórios diários de todas as áreas. O clima no meu setor, o de Relações Públicas, é de pura tensão. Todo mundo anda com pilhas de papéis, as salas de reunião vivem cheias e o falatório sobre o tal "CEO misterioso" não para, já que ele quase não sai da cobertura do prédio.

Eu, no entanto, fico apenas no meu trabalho. Só quero entregar o relatório de gestão de crises e garantir que o nosso setor continue funcionando sem nenhuma interferência dele.

— Kayla, você viu as atualizações da fusão das contas que o novo comitê pediu? — Tati pergunta, correndo até a minha mesa com um tablet na mão.

— Estou terminando de revisar agora — respondo, sem tirar os olhos da tela. — Só preciso imprimir e colocar na pasta da diretoria antes que eles comecem a cobrança.

— Pois corre, porque me falaram que o homem resolveu descer hoje para fiscalizar os andares pessoalmente. O pessoal do design disse que o clima congelou quando ele passou por lá.

— Deixa comigo. Vou levar esses documentos lá para cima agora mesmo.

Pego as duas pastas pesadas, coloco o celular no bolso e saio do setor a passos rápidos, indo direto para o corredor dos elevadores. O visor mostra que uma das cabines está descendo bem no meu andar.

— Espera! Por favor, segura o elevador! — grito, apertando o passo enquanto equilibro as pastas nos braços.

Vejo a porta escovada começar a fechar. Através da fresta, consigo enxergar a silhueta de um homem alto, de terno escuro impecável, segurando um celular. Ele olha bem na minha direção, com uma expressão totalmente séria, e não move um único dedo para apertar o botão de abrir.

A porta  então se fecha bem na minha cara.

— Mas que cara idiota! Com certeza gentileza não é o seu forte .— resmungo sozinha, chocada com a falta de educação.

Sem tempo para esperar o próximo, viro as costas e vou direto para a porta de emergência. Subo os dois lances de escada bufando, o que só me deixa mais irritada. Quando saio no andar da diretoria, encontro dois colegas da criação conversando perto do bebedouro.

— Vocês não sabem o que acabou de acontecer — falo, parando para recuperar o fôlego e arrumando o cabelo. — Um sujeito de terno escuro acabou de fechar a porta do elevador na minha cara. Me viu correndo e não teve a capacidade de segurar. Que tipo de imbecil faz isso?

— Xi, Kayla... cuidado com o que fala — um deles sussurra, olhando para os lados.

— Esse "sujeito" deve ser o novo chefe. Ele está fazendo uma espécie de inspeção  surpresa nos setores, hoje.

— Se for ele, deu para ver que gentileza não é o seu forte , ele pode ser o chefe  , se achar o  dono do mundo, mas é um grosseirão.— respondo, ainda inconformada.

Deixo os documentos na mesa da secretária e desço novamente para o meu setor pelas escadas, torcendo para que meu caminho não cruze com o daquele homem sem educação tão cedo.

Meia hora depois, aproveito que o movimento no nosso andar deu uma diminuída para adiantar o serviço. Pego algumas caixas de arquivos antigos e levo para a sala de reuniões no fim do corredor, decidida a organizar tudo para a auditoria de amanhã. Fico ali concentrada por um tempo, guardando os papéis e limpando as pastas, completamente alheia ao que está acontecendo do lado de fora.

Só saio da sala de reuniões uns minutos depois, limpando as mãos na calça e achando que o dia está correndo normal. Mas, assim que coloco os pés de volta no setor, percebo o alvoroço. Minhas colegas estão todas reunidas perto das baias, falando baixo, gesticulando e com as bochechas vermelhas de agitação.

— Meninas, o que aconteceu? Parece que vocês viram um fantasma — pergunto, me aproximando da rodinha.

— Fantasma não, Kayla! Um deus! — Tati fala, com os olhos quase saindo para fora. — O novo dono da empresa acabou de passar por aqui com a diretoria! O senhor Ferraro veio direto para a sua mesa para falar com você. Amiga, você perdeu de limpar a vista com aquele colírio em forma de homem.

— O senhor Ferraro veio aqui na minha mesa? — sinto um frio esquisito e repentino na barriga.

— Veio! E deixa eu te falar: o  homem,  o que tem de lindo tem  de durão , não nos deu se quer um meio sorriso e foi logo falando que quer você as  duas da tarde em ponto com os relatórios de como anda a imagem da empresa nos últimos anos . E a julgar pela cara de poucos amigos que ele estava, é melhor não se atrasar nem um segundo.

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