Confronto no estacionamento

Respiro fundo, puxando o ar lentamente pelo nariz para conter o tremor de raiva. Lembrei de cada noite em claro e de tudo o que sacrifiquei para chegar até aqui. Endireito a postura e sustento o olhar dele.

​— Com todo o respeito, senhor Ferraro, se eu não fosse competente, jamais estaria ocupando este cargo, muito menos liderando o setor de Relações Públicas da Alfhavision. Se o senhor analisar os relatórios com um pouco mais de calma, verá que nos últimos anos eu resolvi muitas crises severas em curtíssimos períodos de tempo.

​O canto dos lábios dele sobe em um sorriso sarcástico, frio e calculado.

​— Então, além de audaciosa, a senhorita agora está me chamando de preguiçoso? — rebateu, a voz perigosamente mansa.

— Está sugerindo que eu não li os relatórios como se deve? Eu examinei tudo o que está nesse papel, senhorita Garcia. E realmente não achei o seu trabalho eficiente, já que não conseguiu evitar que a empresa perdesse vários clientes e quase todo prestígio que tinha no mercado financeiro.

​Não recuo. Mantendo a elegância, respondo de imediato:

— De maneira nenhuma estou chamando o senhor de preguiçoso. Só estou dizendo que o senhor se equivocou ao me acusar de algo que eu não sou e nunca fui. A perda de alguns clientes foi inevitável porque devido a má gestão que a empresa passou já era esperado.

O silêncio volta a se instalar na sala, denso e carregado de uma tensão que vai muito além da disputa profissional. O senhor Ferraro me encara por longos segundos, avaliando a minha resistência. Ele se inclina para trás na cadeira de couro, os olhos semicerrados fixos em mim.

Mesmo em meio a toda aquela tensão , diante da sua arrogância , eu não consigo parar de admirar os traços perfeitos daquele rosto , a imponência daquele homem e tudo que consigo pensar é porque aquele desgraçado tinha que ser tão bonito para me desestabilizar desse jeito.

Depois de alguns instantes apenas me olhando, ele fala novamente.

— Muito bem. Eu só vou acreditar na sua competência depois que você fizer com que a imagem da Alfhavision volte a ser mais límpida possível , afinal eu não investi tanto dinheiro nessa empresa para nada , se a senhorita não ser capaz de fazer o que eu espero que faça então quem cometeu um equívoco foi seu antigo chefe em te dar esse cargo.

Ele descruza os braços lentamente, apoiando as mãos na mesa de vidro escuro. O perfume dele, uma mistura de madeira e especiarias caras, invade o espaço entre nós, testando o meu autocontrole. Ele inclina o corpo para a frente, diminuindo a distância

— Quero um plano de reconstrução da imagem da empresa na minha mesa amanhã, às oito da manhã. Quero ver se a sua entrega no trabalho é tão... impressionante quanto a sua audácia.

Engoli em seco, sentindo a pele queimar. Aquilo já não era mais uma discussão sobre relatórios; era um teste de resistência.

— O senhor não faz ideia do que eu sou capaz — retruco, sustentando o jogo.

Ele solta um risinho debochado ,o canto dos lábios subindo de um jeito que me dá vontade de esbofeteá-lo só para apagar aquele seu ar de desdém , deixando claro que não acreditava em mim como profissional.

— É o que vamos ver. Está dispensada senhorita Garcia.

Me levanto, pego minha bolsa com toda a dignidade que consigo reunir e caminho em direção à porta. Sinto os olhos dele queimando as minhas costas a cada passo, mapeando o meu movimento. Só quando a porta de madeira maciça se fecha atrás de mim e o corredor silencioso da presidência me acolheu é que finalmente solto o ar que nem sabia que estava prendendo.

Minhas pernas estão bambas. Que inferno, porque esse homem mexe tanto comigo e porque eu tenho a sensação que já vi aqueles olhos antes?

Caminho até o meu setor com o coração ainda batendo descompassado , a cabeça fervendo com o plano que preciso entregar às oito da manhã. Decidida a não me deixar abalar, passo o resto da tarde mergulhada em dados, traçando a estratégia perfeita para esfregar a minha competência na cara daquele arrogante.

Quando finalmente desço para o estacionamento do subsolo, já passa das vinte horas. O lugar está deserto, a iluminação fraca criando sombras longas entre os pilares de concreto. O eco dos meus saltos é o único som no ambiente.

Tiro a chave da bolsa e, antes mesmo de tocar na maçaneta do meu carro, o som de passos firmes ecoa logo atrás de mim.

Olho para o lado e vejo um sedã preto blindado, imponente e luxuoso, parado na vaga presidencial. A porta traseira se abre e o senhor Ferraro desembarca, dispensando o motorista com um aceno de mão discreto. O homem de terno apenas assente e permanece aguardando ao lado do veículo.

Ferraro já não veste o paletó. As mangas da camisa social estão dobradas até os antebraços e a gravata está ligeiramente frouxa, deixando o visual perigosamente desalinhado e realçando o físico imponente o deixando ainda mais sexy.

Ele caminha na minha direção e ali não há paredes e muito menos mesas de vidro nos separando, apenas a penumbra do estacionamento.

— Trabalhando até tarde, senhorita Garcia? — A voz dele ecoou pelo espaço vazio, ainda mais grave e rouca do que no escritório, enviando um arrepio instantâneo direto para a minha espinha. Ele deu mais um passo, parando a centímetros de mim.

— Isso tudo é para impressionar seu novo chefe ou é desespero para provar que eu estava errado sobre a sua falta de competência?

Dei um passo instintivo para trás, mas minhas costas bateram direto na lataria fria do meu carro. Eu estava encurralada. o senhor Ferraro não recuou; ele avançou o espaço que deixei, apoiando a mão no teto do veículo, logo acima da minha cabeça, me cercando com seu físico imponente.

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