Mundo de ficçãoIniciar sessão
A luz do entardecer, filtrada pelas cortinas de veludo carmesim do recém reformado
Bar Apolo desenhava sombras douradas no salão. Eu estava sentada em um dos banquetes do bar, o laptop aberto diante de mim, meus dedos dançando sobre o teclado enquanto traduzia um romance francês para o português. A música suave do piano do meu avô, o Sr. Gaspar, ecoava como um fio condutor entre as palavras que surgiam na tela. “La nuit était froide, mais froide encore que son regard…” - traduzi, pausando para observar o homem de cabelos prateados que, como todas as tardes, vestia seu terno marrom e dedilhava as teclas do piano como se conversasse com fantasmas. O cheiro de uísque single malt que ele insistia em beber aos goles lentos misturava-se ao aroma de madeira envernizada e café fresco. O bar ainda estava fechado. Garçons ajustavam toalhas impecáveis sobre mesas de mogno e o som de copos sendo organizados na prateleira acompanhava a melodia do piano. Foi nesse cenário que a porta de carvalho rangel, violando a rotina vespertina. Um homem entrou como uma tempestade contida. Alto, magro, com ombros largos que tencionava o tecido impecável de seu paletó azul-marinho, ele parecia ter saído de um catálogo de revista, e, no entanto, havia algo que quebrava sua postura. Seus cabelos castanhos escuros, levemente ondulados, caiam de forma desordenada sobre a testa como se ele não se importasse o suficiente para domá-los. Seus olhos, porém, eram o que me prendiam, um cinza metálico quase prateado que escaneavam o ambiente com a frieza de um algoritmo. Não sorriu. Não cumprimentou. Apenas parou no centro do salão, com as mãos enfiadas nos bolsos, enquanto seu olhar percorria cada um dos cantos como se calculasse riscos invisíveis. “O bar abre às 18 horas.” Falei, fechando o laptop com um clique seco. Minha voz era suave, mas carregada de autoridade, o que fez com que os garçons ignorassem suas tarefas para observar. O homem virou-se lentamente em minha direção. Seu rosto era uma escultura de mármore, queixo angular, nariz afilado, uma cicatriz quase imperceptível cortando a sobrancelha esquerda. Bonito, sim, mas de uma beleza que doía. Ele me fitou por alguns segundos, os olhos pousados em mim como se decifrasse um código antes de responder. “Não vim beber. Vim inspecionar.” A voz dele era grave, rouca, como se não fosse usada com frequência. Cruzei os braços, como que em um movimento de defesa, sentindo um arrepio na nuca. “Inspecionar?” Repeti arqueando a sobrancelha. “O noivado de Gabriel e Sofia… ela é minha irmã. Preciso garantir que o local esteja seguro. Câmeras, saídas de emergência, rotas de evacuação.” Ele puxou o celular do bolso interno do paletó, os dedos deslizando rapidamente sobre a tela. Nem sequer olhou pra mim para falar. Ri, um som curto e desprovido de humor. “Esse bar tem mais de trinta anos e nunca precisou de rotas de evacuação.” Finalmente ele ergueu os olhos. Havia uma centelha ali, algo que poderia ser irritação ou interesse. “Se tem mais de trinta anos, pode estar cheio de falhas.” respondeu secamente. “E você é…?” “Ária Garcia. A dona.” Ele inclinou a cabeça como se aquela informação fosse algo a ser registrado, não uma apresentação. “Fred Almeida. Preciso de acesso aos sistemas elétricos e ao mapa estrutural.” Senti o sangue latejar nas têmporas. Não sou uma mulher muito paciente. “Você poderia começar com um boa tarde.” Disse, descendo do banco com movimentos lentos. Me aproximei dele, os saltos das minhas botas ecoando no assoalho. Fred não recuou, mas seus dedos se contraíram levemente em torno do celular. Eu o observava, impassível, enquanto inalava seu perfume, uma fragrância com uma aura de poder inabalável, confiança que beira arrogância e o luxo de quem não pede licença. Uma explosão fria e cortante, densa quase palpável com uma projeção que ocupa espaço como um manto invisível de autoridade. Um cheiro daqueles que deixa um rastro que persiste mesmo após a saída do portador, como um aviso silencioso de que ele está sempre dois passos à frente. Ou talvez eu só esteja lendo livros demais de romance. “Boa tarde.” Concedeu após uma pausa intencional. “Agora posso ver os sistemas?” Quase rosnei. Quase. Em vez disso, apontei para o corredor estreito atrás do balcão. Gabriel era meu melhor amigo e era por ele que ela deixaria a irritação de lado. “A sala técnica é lá. Mas me avise antes de mexer em qualquer coisa. Vamos abrir em breve e não quero ter que lidar com nenhum problema.” Fred acenou com a cabeça, já se movendo em direção ao corredor. Parou um instante ao passar pelo piano onde meu avô agora dedilhava As Time Goes By. O velho homem inclinou o copo de uísque em sua direção, um sorriso enigmático nos lábios. Fred hesitou. Um micro gesto que eu quase perdi, então seguiu em frente, desaparecendo na penumbra. Enquanto isso, do lado de fora, a chuva começava a cair, batendo nas janelas como dedos impacientes. Voltei ao banco, abri o laptop e tentei focar na tradução. “Seu coração era um inverno interminável…” escrevi, mas as palavras pareciam vazias. Olhei para o corredor escuro, onde a silhueta de Fred se movia como uma sombra disciplinada. Arrogante. Calculista. Insuportável. Mas por que minhas mãos tremiam levemente ao digitar? Meu avô terminou a música e levantou-se, arrastando a cadeira com um ruído áspero, passou por mim e pousou uma mão em meu ombro. “Cuidado, minha netinha!” Sussurrou o cheiro de uísque, envolvendo-me como um abraço familiar. “Tempestades sempre começam com um só raio.” E antes que eu pudesse responder, ele saiu deixando para trás o eco de suas palavras e o silêncio pesado que precede a queda de um trovão. No corredor, Fred examinava os fios elétricos com dedos ágeis, e olhos atentos a cada detalhe. A movimentação no de arrumação continuava, faltava menos de quarenta minutos para abrirmos e resolvi encerrar meu trabalho de tradução . Pedi que um dos garçons guardasse meu laptop no meu escritório e continuei observando os movimentos do arrogante visitante perdido em seu trabalho investigativo. Assim que ele sair vou ligar pra Gabriel para saber o motivo de tanta preocupação. A porta rangeu mais uma vez, permitindo que outra figura irritante entrasse no local. “Ária, você não fez o depósito que eu pedi. Eu te falei que era urgente.” Tiago se aproximou falando com indignação. Fechei meus olhos e respirei fundo. “Não me lembro de ter concordado em fazer depósito algum na sua conta. Até onde eu sei, Tiago, eu não te devo absolutamente nada.” “Tá de brincadeira, Ária? Eu vou te pagar. Já te falei que vou te pagar. Eu preciso muito desse dinheiro. Posso perder meu negócio se você não fizer esse depósito pra mim.” “Tiago, acabou. Essa fonte secou. Não. Entenda isso.” Ele se aproximou mais e colocou a mão sobre meu ombro. “Deixa eu te explicar uma coisa…” Ele foi interrompido pela chegada de Fred, que o encarava com uma expressão séria. De repente o bar estava silencioso e não havia mais movimento algum, todos os olhos estavam concentrados em nós. Percebi que mais dois homens que eu desconhecia, vestidos de terno e gravata, também se aproximaram em silêncio. “Senhor, preciso que retire sua mão dela e se afaste devagar.” Fred disse em tom baixo, porém autoritário. Tiago retirou sua mão do meu ombro, mas não se afastou. “Posso saber quem é você?” Tiago perguntou com um sorriso cínico na cara. Fred deu mais dois passos em nossa direção, e seu movimento foi repetido pelos dois homens desconhecidos. “Eu sou a pessoa que vai te tirar à força daqui se o senhor não se afastar e sair por conta própria.” Tiago riu novamente e passou a mão pelo rosto. “Eu sou marido dela.” “Ex. Ex-marido. Acho melhor você ir embora em paz, Tiago. Se você retornar, vou fazer uma queixa pra polícia e pedir uma ordem de restrição.” Ele ficou em silêncio por um tempo. Seus olhos corriam de mim para Fred. “Tá trepando com ele, Ária? É isso? Ele é seu novo brinquedinho?” “Como disse antes, Tiago, não te devo nada, muito menos satisfação sobre com quem eu trepo. Mas eu não vou mentir pra você.” Levantei do banco e cheguei mais pertinho de Fred, envolvi seu rosto em minhas mãos e o beijei nos lábios. Senti o corpo dele endurecer, talvez pela surpresa, mas logo ele correspondeu o beijo e enlaçou minha cintura me puxando mais pra perto. Eu havia pensado, se é que eu pensei em alguma coisa, em um beijo rápido, um roçar de lábios, um golpe de cena. Mas quando a língua dele roçou na minha, involuntária e suave, algo dentro de mim estremeceu como um cristal antigo atingido por uma nota aguda. Aquele perfume dele me invadindo, seus braços apertando o abraço como uma necessidade de proximidade… Meu cérebro gritava que aquilo era um erro, que ele era um estranho, mas meu corpo traidor, registrava cada detalhe: o calor da palma dele nas minhas costas, o gemido rouco que escapou de sua garganta, o gosto de hortelã e perigo. O corpo dele me mostrando seu nítido desejo… Finalmente consigo me afastar. Sinto meus lábios inchados e percebo que meu batom havia se transferido para os lábios dele como uma tatuagem mal feita. Não percebi mais a presença de Tiago, ele havia ido embora. Fred me encarava, seus olhos escurecidos como nuvens antes da tempestade. Ele passou o polegar sobre a própria boca, apagando os vestígios do beijo, um pouco ofegante e totalmente silencioso. Eu sabia que precisava dizer alguma coisa, mas não sabia exatamente o que. “Me desculpe. Eu só queria que ele se afastasse.” Ele continuava a me encarar em silêncio. Seus olhos se desgrudaram dos meus por um momento para dispensar os homens que o acompanhavam, o que o fez sem dizer nada. “Você não tem segurança aqui?” Ele voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido. “Eles já deveriam ter chegado. Sempre ficam dois seguranças aqui e dois na entrada. Devem estar atrasados por causa da chuva. Não se preocupe.” Ele olhou em volta mais uma vez como se precisasse de tempo para se acalmar. “Olha, Fred. Obrigada pela ajuda. Eu vou ficar bem.” “Não espere a próxima vez. Peça uma ordem de restrição. Se precisar de ajuda com isso, me ligue.” Ele tirou um cartão de visitas do bolso e me entregou. “Vou deixar meu pessoal aqui até os seus seguranças chegarem.” Eu ia dizer que não precisava e mais alguma coisa que se perdeu na minha mente antes mesmo de chegar a minha boca, mas ele simplesmente foi embora me deixando com cara de boba e com as palavras, que eu nem sabia que queria dizer, engasgadas.






