Mundo ficciónIniciar sesiónEra impossível esquecer aquele beijo. A lembrança ficava voltando a minha memória o
tempo inteiro. Eu podia sentir o cheiro dela que era como um convite. Um veneno dourado que mistura doçura com ferocidade, deixando quem a prova preso entre o desejo de conquistá-la e o medo de ser devorado. O gosto do beijo misturado ao perfume era como cerejas negras embebidas em conhaque - doce, amargo, intoxicante. Mesmo depois que cheguei em casa aquele cheiro não se dissipou. Estava nas minhas roupas, nas minhas mãos, na minha memória. Selvagem. Perigoso. Impossível de esquecer. Tudo que eu não preciso é de complicação na minha vida. Não quero um relacionamento. Nem tenho tempo pra isso. Mesmo assim, tenho ido ao bar todos os dias. Ária é sinônimo de confusão, disso eu tenho certeza. Mesmo assim, fiquei preocupado com o comportamento daquele ex-marido dela. Mais uma vez, estou aqui, sentado no bar esperando para vê-la. A gente não se falou mais desde aquele dia. Ela me vê, me cumprimenta do balcão. Eu sempre sento em uma mesa nos fundos, bem afastado do balcão onde ela fica. É mais seguro assim. Hoje é sexta-feira e o bar está lotado. Tem uma banda de rock tocando e percebo que o número de seguranças é o mesmo de um dia em que o movimento é normal. Isso não é nada prudente. Ela está ocupada servindo bebidas junto com o bartender, mesmo assim, de vez em quando nossos olhares se cruzam. A festa de noivado de Gabriele Sofia é amanhã. Decidimos que seria melhor fechar o bar só para a festa e estou me convencendo de que depois disso, vou sossegar minha cabeça e seguir com a minha vida. A banda faz um intervalo e eu agradeço por isso. Não que eu não goste de rock, eles até que não são ruins, eu só não gosto de tanto barulho. Eu deveria ir embora, mas por algum motivo, permaneço. O uísque do meu copo termina e eu faço sinal para que o garçom traga outro, geralmente eu fico o tempo de uma dose apenas, mas hoje é diferente. Ária era uma contradição ambulante, cabelos negros como asas de corvo, cortados em camadas desalinhadas que caíam pelos ombros e emolduravam um rosto de traços afiados, olhos amendoados de um verde quase dourado como folhas de outono sob o sol e lábios carnudos que raramente se curvavam em sorrisos fáceis. Usava um vestido solto no corpo, verde-esmeralda, simples, mas elegante, que contrastava com botas de couro. Seu colar de prata de uma lira pendurada no pescoço, era a única joia que se permitia a si mesma. E essa contradição tentadora estava vindo em minha direção trazendo outra dose de uísque. Parece que ela gosta de botas, no dia que nos conhecemos ela também usava botas. A minha imaginação logo começa a trabalhar imaginando- a só com seu acessório preferido e nada mais, caminhando em minha direção em um ambiente mais íntimo do que esse. Ela coloca o copo na minha frente, me entrega um guardanapo e se acomoda na cadeira à minha frente, cruzando as pernas e fazendo meu coração acelerar. “Você tem vindo aqui todos os dias. Ainda é pelo trabalho de inspeção?” Ela me pergunta provocativa. “Aqui é um bar. Eu venho beber.” Respondo sem querer parecer afetado com a presença dela. “Por quê? Minha presença te incomoda?” “Não. Só fiquei pensando… Fred, aquele beijo… não foi nada de mais. Foi só pra irritar o meu ex.” “Claro. Foi pura atuação. Uma atuação perfeita, eu diria, cheia de sensações… Eu entendi. Não se preocupe, Ária. Não estou procurando um relacionamento.” “Então, me diz o que você está procurando, Fred.” Ela cruzou os braços. “Como disse antes, eu só venho beber.” Ergui meu copo na direção dela e bebi um gole. “Você deveria pensar em colocar mais seguranças aqui no dia de eventos como esse.” Ela riu do meu comentário. “Você por acaso contou pro Gabriel sobre o que aconteceu aqui?” “Não. Eu deveria?” “Não. Ele vai ficar preocupado à toa. Se isso pudesse ficar só entre nós, eu agradeceria.” Fiquei imaginando o real motivo dela querer fazer disso um segredo. O Gabriel deve saber de toda a situação que eu não nem deveria estar pensando em me envolver. “Como acabou casada com um cara daqueles?” Perguntei. Ela pareceu incomodada com o assunto. “Erro de juventude. Talvez, rebeldia. Me casei cedo demais. Estava cega, apaixonada. Talvez carente. Esse é o resumo. “Você pediu a ordem de restrição?” Só do jeito que ela me olhou eu pude adivinhar que não. Respirei fundo e bebi todo o resto do conteúdo do meu copo. “Você ainda sente alguma coisa por esse homem?” Ela levantou uma sobrancelha sem responder minha pergunta. Puxei meu cartão pra pagar minha conta. Precisava me afastar daquela situação. “É por conta da casa.” Ela disse quase em um sussurro. “Obrigado. Eu já vou. Boa noite, Ária!” Guardei meu cartão e me levantei, assim que passei por ela, que continuava sentada no mesmo lugar, ela segurou meu pulso. Me surpreendi com o toque. Olhei na direção dela e encontrei seus olhos verdes, que pareciam estar escurecidos. “Não sinto mais nada. Pelo menos nada de positivo. Também não sinto ódio. Mas ele se tornou uma figura indigesta pra mim. O divórcio foi difícil. Ele fez ser bem difícil e desgastante. Por isso…” Ela soltou meu pulso e se levantou sem tirar seus olhos dos meus. “Entendi.” Peguei meu celular no bolso, desbloqueei e entreguei pra ela. Seus olhos baixaram até o aparelho. “Coloque seu número aqui.” Ela pegou o celular, salvou seu número e me devolveu. Escrevi uma mensagem e enviei para que ela pudesse identificar o meu número. “Se ele aparecer novamente, me ligue.” Nós estávamos tão próximos que eu podia facilmente alcançar seus lábios. Por um momento, isso não saía da minha cabeça enquanto eu encarava aqueles lábios vermelhos. Mas ela não era qualquer mulher. Ela não era uma mulher para uma noite só e eu não queria um relacionamento. Nem sei se sou capaz de ter um relacionamento novamente. Com grande esforço consegui escapar de seu campo gravitacional e me retirei sem olhar para trás. Enquanto caminhava para fora do bar, eu tinha certeza de que ela continuava me olhando. Podia sentir sua força me atraindo de volta pra ela. Meu apartamento era como uma cápsula de silêncio na madrugada. E podia ouvir o leve zumbido do ar condicionado em minha solidão profunda. Aquele silêncio não ajudava em nada a acalmar o turbilhão na minha mente que me mantinha acordado. Eu caminhava de um canto a outro do quarto, as mãos enterradas nos cabelos desgrenhados, na tentativa de arrancar a imagem dela dali. Ela havia se tornado um constante incômodo em meus pensamentos. Da mesma forma que havia se tornado a personagem principal do meu mais novo esporte favorito praticado debaixo do chuveiro, que certamente me causaria calos na mão. A lua cheia derramava uma luz prateada pela janela, desenhando sombras alongadas no chão. Parei diante da vidraça, com os olhos fixos no céu estrelado. “Ela é como um pulsar”, murmurei pra mim mesmo, minha voz rouca de insônia. “Um daqueles corpos celestes que emitem uma radiação letal, mas você não consegue deixar de olhar.” Ária não é só uma mulher bonita, é um fenômeno cósmico. Toda vez que a gente se encontra eu sinto essa atração como uma força física. Uma gravidade que distorce o ar ao redor, fazendo o tempo desacelerar enquanto meus músculos tensionam, como se meu corpo pudesse prever, antes da razão, que está diante de algo perigoso. “Pulsares giram rápido demais.” Me ouvi dizer, lembrando de um documentário que assisti recentemente. “Eles são restos de estrelas mortas. Densos. Imprevisíveis. Destroem qualquer coisa que se aproxime.” Eu já estava enlouquecendo a ponto de falar sozinho. Me joguei na cama e fechei os olhos, me forçando a dormir, mesmo sabendo que isso nunca funcionava. O sorriso dela me veio à mente. Irônico, sempre meio torto , como se guardasse um segredo que eu nunca decifraria. “Não é uma boa ideia, Frederico!” Disse em voz alta para me ancorar à realidade. Eu sei como isso termina. Ela vai me consumir e não sobrará nada além de poeira estelar. Mas meu corpo não me ouve, minha mente desdenha de mim, me trazendo as lembranças e todas as sensações daquele beijo. “Porra! Essa mulher me enfeitiçou? Por que diabos não consigo parar de pensar nela?” O celular se iluminou na cabeceira da cama. Era uma mensagem dela. Talvez, só agora ela tenha lido a minha mensagem. Naquele momento, sem pensar racionalmente, como sempre acontece quando ela está por perto, escrevi que ela poderia me chamar a qualquer momento por qualquer motivo ou motivo algum. Meu dedo hesitou sobre o ícone do aplicativo. “Só queria testar. Escrevo sem motivo algum, mesmo sabendo que, provavelmente, você está dormindo.” Aquilo parecia mais um feitiço do que uma mensagem inocente. Havia uma intenção. Não responda! Eu gritava mentalmente pra mim mesmo. Ela acha que estou dormindo, não espera nenhuma resposta. Mas é um teste. “Puta merda!” Xinguei baixinho. Meus dedos se moveram sozinhos, traidores. “Estou aqui.” Escrevi. Duas palavras apenas. Bastaram para confirmar o quanto eu estava fodido. “Fred, seu idiota!” Resmunguei imaginando Ária em seu quarto, deitada em sua cama, tão acordada quanto eu. Um pulsar em repouso, inconsciente do caos que gerava. No instante que o sono finalmente me tomava, admiti pra mim mesmo em um sussurro quase inaudível: “Já estou em queda livre.






