Capítulo 01

"Ana"

— Eu não vou me casar!

No auge dos meus vinte anos, essa era a última coisa que eu imaginava ouvir. Meses após a morte do meu pai, o inventário finalmente havia ficado pronto. O mundo já sabia da nossa falência, mas o que eu não esperava descobrir era que ele vinha negociando um acordo que envolvia um casamento.

— Você não é obrigada, Ana. Isso foi um acordo absurdo do seu pai, feito antes de ele morrer — explicou Ademar Castillo. — Eu não concordo com isso, mas queria falar com você porque Diego ainda está interessado na proposta, e é capaz de o advogado dele te procurar.

Incapaz de ficar parada, me levantei da cadeira e comecei a andar de um lado para o outro, sem acreditar no que meu pai tinha feito. Como ele teve coragem de negociar com a minha vida daquela forma, pelas minhas costas?

— Não posso aceitar uma coisa dessas. O que vai acontecer sem esse acordo maluco que o meu pai fez?

Castillo era o advogado da família havia anos, antes mesmo de eu nascer. Pelo olhar grave dele, percebi que a situação era crítica.

— Como eu expliquei, a Figueira está falida. Seu pai usou tudo o que tinha para tentar salvar a empresa, mas não adiantou. O que sobrou está em vias de ser bloqueado pela Justiça; são muitos processos. Quando terminamos o inventário, descobrimos que as contas estão zeradas.

Peguei a papelada, chocada, mas, lá no fundo, não totalmente surpresa. Antes de morrer, meu pai vinha apresentando um comportamento estranho — mais estranho que o normal. Mas eu estava preocupada com outras coisas e não tinha como decifrar o que estava acontecendo, já que ele não falava comigo. Então, um dia, ele simplesmente morreu. Um infarto fulminante no escritório, dentro da sala envidraçada que um dia foi o símbolo do poder dos Figueira.

E agora eu descobria que não tínhamos mais nada.

— Seu pai já tinha vendido tudo antes de morrer, as casas, os carros. Sobrou só a casa onde você mora, mas o valor não cobre o rombo — continuou Castillo. — A empresa já fechou, e as dívidas só acumulam.

— Como ele deixou chegar a esse ponto?

A pergunta não tinha resposta. Eu via aquilo nos papéis, nas notícias que vazaram depois da morte do meu pai. O império dele tinha afundado ano após ano, até chegar ao fundo do poço. O problema é que eu precisava de dinheiro. Muito dinheiro. 

— Eu sinto muito, Ana. — Olhei para doutor Castillo. Eu o conhecia desde sempre, indo e vindo com papéis nos jantares da nossa casa, na época em que minha mãe ainda era viva.

— Eu vou dar um jeito — respondi, engolindo em seco. — Não posso aceitar isso. Não existe mais nenhum comprador? Qualquer outra pessoa?

— Diego é o único interessado. Foi o único que aceitou os termos do seu pai.

— Quanto ainda tem na conta para pagar a mensalidade do hospital? — Perguntei, vasculhando os papéis em busca de alguma conta que ainda tivesse dinheiro. Minha única preocupação era essa. Desde a morte do meu pai, Castillo acompanhava os pagamentos do hospital.

— Era o único dinheiro que restava, e só deu para pagar até este mês. A mensalidade limpou a conta.

Senti o pânico se arrastar pelo meu peito. Castillo me mostrou os papéis de todas as contas bancárias. O que havia ali não dava para comprar nem o almoço do dia seguinte. Olhei para os números, perdida, tentando encontrar uma saída.

— Eu vou dar um jeito — repeti, deixando os papéis sobre a mesa antes de sair do escritório.

Senti meu corpo tremer, as pernas tão bambas que mal pareciam me sustentar. Subi na minha moto e pilotei até o hospital no automático, o vento batendo no capacete sem conseguir esfriar a queimação de pânico no meu peito. Eu daria um jeito. Tinha que dar. Não podia me sujeitar àquilo.

Entrei no estacionamento, deixando a minha moto o mais longe possível de qualquer olhar curioso. Respirei fundo, forçando o ar a entrar nos pulmões uma, duas vezes. Limpei qualquer rastro de desespero do rosto; Caleb não podia sonhar com o que estava acontecendo.

Entrar ali ainda me dava um frio na barriga, mesmo que, nos últimos meses, eu tivesse passado mais tempo naqueles corredores do que na minha própria casa. Eu já conhecia o lugar como a palma da mão: o cheiro de antisséptico impregnado nas paredes, as enfermeiras, os médicos. Podia andar até o quarto dele de olhos fechados.

Caminhei decidida pelo corredor até a ala de internação de longa permanência. Quando empurrei a porta do quarto, Caleb dormia. A acompanhante que contratamos me deu um sorriso compassivo, levantando-se da cadeira ao lado da cama.

— Ele está descansando um pouco — ela sussurrou, ajeitando a bolsa no ombro. — Vou aproveitar para tomar um café.

— Claro, pode ir. Obrigada.

Sentei-me na poltrona estofada e fiquei apenas olhando para o meu irmão. Eu conhecia o barulho da fibrose cística desde pequena, a tosse de Caleb sempre foi a trilha sonora da nossa casa. Mas, havia pouco mais de um ano, o som mudou.

Ficou pesado, úmido, assustador. Uma infecção diminuiu a capacidade dos pulmões, e o pâncreas dele parou de funcionar direito. Ele perdeu dez quilos em um sopro, e os médicos disseram que o home care já não dava mais conta. Ele precisava de uma estrutura hospitalar.

Agora éramos apenas nós dois no mundo. Olhei em volta: era um quarto confortável, quase o quarto de um menino de dezesseis anos. O videogame que comprei, os livros empilhados na cabeceira, os pôsteres colados na parede para disfarçar o ambiente hospitalar.

Ali ele era bem cuidado, monitorado vinte e quatro horas por dia. Mas aquilo custava uma fortuna por mês.

Eu não ligava de gastar toda a herança pagando o melhor para o meu irmão, mas agora descobria que nem existia herança para receber.

— É esquisito você ficar aí em silêncio, parecendo uma assombração — a voz fraca de Caleb quebrou o ritmo constante do monitor cardíaco.

— Você estava dormindo — brinquei, tentando manter o tom leve.

— Só descansando os olhos. — Ele se virou na cama e me deu um sorriso.

Aquele sorriso me destruiu por dentro. Uma transferência para outro hospital, naquele estado, seria uma sentença de risco. Ele estava estável, confortável, confiava na equipe médica. Eu não podia arrancar isso dele. Tinha que dar um jeito de conseguir o dinheiro. Precisava existir outra forma de pagar o tratamento dele que não envolvesse me vender.

Caleb se ajeitou nos travesseiros, pegou o controle remoto e ligou a televisão pendurada na parede.

— Como você está se sentindo hoje? — perguntei, segurando a mão dele.

— Bem. Hoje é um dia bom, o médico passou aqui mais cedo, e os exames estão estáveis.

Na TV, um programa de finanças começou a exibir uma reportagem sobre empresas de tecnologia de sucesso. Então, como uma perseguição cruel do destino, o rosto de Diego Martins preencheu a tela. O novo milionário do momento. Senti meu estômago revirar violentamente, um gosto amargo subindo pela garganta ao ouvir o tom confiante da voz dele na entrevista.

— Esse cara é muito foda... — Caleb comentou, os olhos brilhando fixos na tela.

— Como é? — Minha voz quase falhou.

— Ele é muito inteligente. Se eu pudesse voltar a estudar, queria fazer a mesma coisa que ele. O cara é tipo um gênio da tecnologia. Criou um sistema do zero, comprou três concorrentes só este ano...

Meu irmão continuou falando, empolgado, enquanto a imagem dele permanecia na televisão: o homem que tinha negociado casar comigo sem que eu soubesse. Minha mente travou. Não consegui articular uma única palavra. Era um pesadelo absurdo: meu irmão admirava o cara que tinha aceitado me comprar.

Engoli o nó na garganta e passei o resto da tarde ali, fingindo normalidade. Mas eu ainda precisava conversar com o médico sobre o estado do Caleb e sobre a parte financeira, tentar conseguir algum acordo, desconto, qualquer coisa.

Mas horas de conversa não resolveram nada.

— Eu sinto muito, Ana — o médico disse, tocando meu ombro.

Era a frase que eu mais ouvia ultimamente, e a que menos resolvia os meus problemas.

— Se a situação financeira da família está difícil, você pode transferir o seu irmão para o hospital universitário da rede pública. Ele vai continuar o tratamento lá.

— Não faça nada ainda — interrompi, com a voz firme por fora, mas despedaçada por dentro. — Eu vou dar um jeito. Ainda temos mais um mês.

O médico me olhou com uma pena evidente. Todo mundo sabia da falência dos Figueira; o colapso do nosso império tinha virado notícia de jornal.

Decidi não dormir no hospital. Precisava ir para casa, pensar, encontrar uma solução. Caleb era a minha única família no mundo; nenhuma decisão era mais importante do que meu irmão.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP