Assédio

Assim que saí da UTI e atravessei os corredores do hospital, minha mente parecia pesada demais para prestar atenção ao que acontecia ao redor.

Foi por isso que, distraída, acabei esbarrando em alguém logo após virar um dos corredores.

O impacto foi leve, mas suficiente para me fazer erguer o olhar. E bastou aquele breve instante para que todo o resto parecesse desaparecer.

O homem diante de mim era absurdamente bonito.

Não era um pensamento que eu queria ter, muito menos naquele momento. Ainda assim, surgiu como um reflexo involuntário.

Havia algo nos traços dele, na postura segura, na forma elegante como se movia… uma presença naturalmente marcante que chamava atenção de um jeito difícil de ignorar.

Os cabelos escuros estavam levemente desalinhados, como se ele tivesse passado as mãos por eles vezes demais nas últimas horas. A camisa social dobrada até os antebraços e a expressão tensa tirava parte da formalidade impecável que, ainda assim, parecia natural nele.

— Desculpe — disse ele, em uma voz baixa e firme.

Mas não sustentou meu olhar por mais de um segundo.

Então simplesmente seguiu em frente.

Ele passou direto por mim, sem hesitar, como se aquele esbarrão tivesse sido apenas um detalhe irrelevante.

Ainda um pouco atordoada, acompanhei com o olhar a forma como ele se afastava em direção à recepção.

Pisquei algumas vezes, tentando me recompor.

Porque, naquele momento, a última coisa de que eu precisava era me distrair com alguém que eu nem conhecia.

Ao colocar os pés novamente na calçada, fui cercada outra vez pelos jornalistas. Eles surgiram de todos os lados, como se estivessem esperando exatamente pelo instante em que eu sairia do hospital.

As perguntas vinham rápidas, invasivas, sobrepostas umas às outras, formando um ruído caótico que mal me dava espaço para respirar.

— Sra. Helena, uma declaração, por favor…

— Como está sua filha?

— Ela está viva?

— Já sabe o que causou o acidente?

As perguntas não cessavam, mesmo diante do meu estado evidente.

Parei por alguns segundos.

Senti a dor transbordar até se transformar em raiva.

Eu entendia o trabalho deles.

Durante anos convivi com a imprensa e aprendi a lidar com a exposição constante. Mas, naquele momento, eu não era apenas a esposa de Frederick Vaughn ou uma médica conhecida.

Era uma mãe vendo a filha lutar pela própria vida.

— O estado da minha filha é crítico — declarei, tentando controlar a voz embargada. — Tudo o que peço agora é respeito pela nossa dor. Deem-nos espaço para respirar… em vez de nos cercarem como urubus sobre carniça.

O silêncio que veio em seguida durou apenas alguns segundos, mas foi suficiente.

Olhei diretamente para eles antes de me afastar.

E, enquanto caminhava para longe das câmeras e dos flashes, uma única pergunta começou a martelar dentro da minha cabeça.

Eduarda realmente havia sofrido apenas um acidente?

Ou alguém tinha provocado aquilo de alguma forma?

Fiz check-in no hotel mais próximo.

Quando entrei na suíte, desabei na cama, deixando as lágrimas correrem livres pelo rosto.

A imagem de Eduarda ligada àqueles aparelhos não saía da minha cabeça. Era difícil demais acreditar que tudo aquilo era real.

Depois de permitir a mim mesma aquele momento de desabafo, fui para o banho, tentando recuperar ao menos um vestígio de compostura.

A água quente não lavava o peso que eu carregava, mas ajudava a manter minha mente minimamente organizada.

Eu precisava estruturar meus próximos passos — e o primeiro seria entrar em contato com o policial que havia me passado as informações iniciais sobre o acidente.

A dúvida continuava me corroendo: o que teria causado o capotamento?

Eu precisava entender. Saber se tinha sido um acidente, um descuido… ou algo muito pior — algo provocado.

Lembrei-me de que o policial Francesco havia me orientado a procurá-lo assim que chegasse a Milão. E, apenas depois de ver minha filha, fiz exatamente isso.

Peguei o celular e liguei para ele.

Fui informada de que deveria comparecer à sede da Polícia de Milão, responsável pela investigação do caso.

Meu coração disparou diante da possibilidade de finalmente obter respostas. Mas nada me preparou para o que viria a seguir, antes mesmo de a ligação terminar.

Preciso informá-la de que o marido de sua filha entrou em contato — disse ele, com a voz grave.

Aquilo me desestabilizou.

Fiquei completamente surpresa.

Marido?

Eduarda nunca havia mencionado estar em um relacionamento sério, muito menos que fosse casada.

Quem seria esse homem?

E por que ela jamais me contou sobre ele?

O choque se misturou à preocupação. Não bastasse minha filha estar à beira da morte, agora havia um segredo desconhecido que poderia ser decisivo para entender o que havia acontecido.

Enquanto o carro avançava pelas ruas de Milão, não pude deixar de lembrar das vezes em que Eduarda falava com entusiasmo sobre aquela cidade.

Para ela, Milão era deslumbrante — quase mágica.

Para mim, naquele momento, não passava de um cenário frio e indiferente. Cada minuto me arrastava mais fundo em um labirinto de dúvidas que eu precisava desvendar antes que tudo aquilo me engolisse por completo.

Assim que cheguei ao prédio da polícia, fui conduzida a uma sala discreta.

Poucos minutos depois, um homem de meia-idade entrou, cumprimentou-me e se apresentou como detetive Francesco, responsável pela investigação do caso.

Ele se sentou à minha frente e começou a relatar o que já haviam descoberto.

— Sua filha parecia estar fugindo de alguém — disse ele.

Havia indícios de que um carro suspeito a seguia, mas ainda não tinham conseguido identificar a placa completa — apenas parte da numeração.

— Segundo o marido dela — disse Francesco, observando-me com atenção, como se tentasse medir minha reação —, ela vinha sendo assediada pela mídia por causa do escândalo envolvendo o nome do seu marido.

Por um instante, senti o chão desaparecer sob meus pés.

Mantive a postura, mas meu coração disparou.

Ergui o olhar para ele, tentando absorver cada palavra sem deixar que o desespero tomasse conta.

— De fato… houve o escândalo — respondi, com esforço para manter a voz firme. — Mas ela não comentou que estava sendo assediada. Moro nos Estados Unidos, e como o senhor provavelmente sabe, o pai dela é Frederick Vaughn.

Não precisei acrescentar mais nada.

O nome por si só já explicava tudo.

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