Mundo de ficçãoIniciar sessão
O som dos aplausos ecoava pelo salão luxuoso como uma sentença. Helena Duarte estava parada no centro do maior evento empresarial do ano, usando o vestido azul-marinho que ela mesma havia escolhido para aquela noite especial. O tecido envolvia seu corpo com elegância, o vestido era simples e sofisticado, exatamente como Lorenzo gostava, ou pelo menos como ela acreditava que ele gostava.
O teto do salão era coberto por lustres de cristal, o champanhe corria livremente e as maiores famílias da elite estavam ali, era a noite da fusão bilionária do Grupo Bianchi com investidores internacionais. A noite que marcaria o auge da carreira de Lorenzo e também deveria marcar o anúncio oficial do noivado deles. Helena apertou discretamente a pequena caixa de veludo dentro da bolsa. O anel que ele lhe dera dois anos antes brilhava sob a luz dos lustres, mas naquela noite ele prometera algo maior. Algo definitivo. — Está nervosa? - perguntou Clara, sua melhor amiga, enquanto segurava sua mão. Helena sorriu. — Não. Estou feliz. Era verdade, ela estava feliz. Depois de cinco anos ao lado de Lorenzo Bianchi, enfrentando o desprezo velado da família dele, as críticas da imprensa e os cochichos de que ela era apenas “a garota simples que deu sorte”, finalmente teria seu lugar reconhecido. Ela não era rica, não vinha de uma família influente, trabalhava desde os dezessete anos. Conheceu Lorenzo quando era assistente administrativa em uma das empresas do grupo. Ele se interessou, ela resistiu, ele insistiu e acabaram se apaixonando, ou era o que ela acreditava. O mestre de cerimônias anunciou o nome dele. — Senhoras e senhores, com vocês… Lorenzo Bianchi. O salão silenciou. Helena sentiu o coração bater mais forte. Ele surgiu impecável em seu terno preto sob medida, os cabelos perfeitamente alinhados, a postura firme de quem sempre soube que o mundo lhe pertencia. Os olhos escuros varreram o ambiente… e passaram por ela. Sem parar. Helena percebeu o pequeno detalhe e sentiu um pequeno frio na espinha. Ele subiu ao palco e iniciou o discurso sobre crescimento, expansão internacional, legado familiar. Sua voz era firme e segura. Ele nasceu para aquilo. Helena sorria, orgulhosa, até que ele disse: — Esta noite também marca um novo começo na minha vida pessoal. Os convidados murmuraram. O coração dela acelerou. Era agora. Ela ajeitou a postura, sentindo o olhar curioso de algumas mulheres da alta sociedade que sempre a mediram como se fosse inadequada para aquele ambiente. — Ao meu lado, estará alguém que representa honra, tradição e a união de duas famílias poderosas. Helena piscou. União de duas famílias? O sorriso dela vacilou. Lorenzo estendeu a mão… mas não em direção a ela. Uma mulher loira, elegante, usando um vestido dourado exuberante, levantou-se da mesa principal e caminhou até o palco sob aplausos. Isabella Conti, filha do maior investidor do grupo. O ar desapareceu dos pulmões de Helena. "Não." "Não." "Isso não está acontecendo." Isabella parou ao lado de Lorenzo, que segurou sua mão com naturalidade, intimidade, segurança. — Tenho o prazer de anunciar meu noivado com Isabella Conti. O salão explodiu em aplausos. Helena não ouviu mais nada, o som ficou distante, como se estivesse submersa. Ela sentiu o sangue gelar, as mãos tremerem, o corpo inteiro perder o equilíbrio. Clara segurou seu braço. — Helena… eu não sabia… eu juro… Helena soltou o braço dela lentamente. "Cinco anos." "Cinco anos." Ele ainda estava discursando sobre alianças estratégicas, futuro e tradição. Isabella sorria como uma rainha coroada. E então ele olhou para Helena. Por um segundo, um único segundo e desviou o olhar, como se ela fosse invisível, como se nunca tivesse existido. A humilhação foi pública, cruel e calculada. Helena sentiu todos os olhares do salão se voltarem para ela, alguns com pena, outros com satisfação. “Eu sabia.” “Era óbvio.” “Ela nunca foi suficiente.” As vozes não eram reais, mas ecoavam dentro dela, sem perceber como, suas pernas começaram a se mover. Ela atravessou o salão sob o som de aplausos que celebravam o próprio funeral emocional dela. Quando chegou à saída, ouviu passos atrás dela. — Helena! A voz de Lorenzo. Ela parou, mas não era por amor, era por dignidade. Ele segurou seu braço. — Precisamos conversar. Ela riu, uma risada baixa e trêmula. — Conversar? — Eu ia te explicar. — Explicar o quê? Que cinco anos foram apenas… estratégia? O maxilar dele se contraiu. — Você sabe como funciona o mundo em que eu vivo. — Não — ela sussurrou. — Eu achei que sabia quem você era. Os olhos dele endureceram. — Não torne isso mais difícil do que precisa ser. Ela sentiu algo quebrar dentro dela. — Difícil? Lorenzo… eu dediquei minha vida a você. — Eu nunca prometi casamento imediato. Ela ficou em silêncio, sabia que era mentira, ele prometeu. Ele prometeu mil vezes. Ela respirou fundo. — Você me usou? Ele não respondeu e o silêncio foi a resposta mais cruel. Helena sentiu a náusea subir repentinamente e uma tontura forte a fez levar a mão ao estômago. "Estômago." Ela congelou. Duas semanas de atraso. O exame positivo escondido na gaveta do banheiro, o segredo que ela planejava contar naquela noite. "O filho." O filho dele. Ela ergueu os olhos para Lorenzo, ele estava impaciente, frio e distante. "Não, ele não merecia saber. Ainda não. Talvez nunca." Ela ajeitou a postura e algo dentro dela morreu. — Parabéns pelo noivado, senhor Bianchi. Ele estreitou os olhos. — Não faça drama. Ela sentiu o último fio de amor se transformar em algo diferente, algo mais escuro. — Você não faz ideia do que é drama. E foi embora, sem olhar para trás. Horas depois, sozinha no apartamento que dividiam, Helena caminhava como um fantasma. As fotos deles ainda estavam nas paredes, as viagens, os sorrisos, as promessas. Ela abriu a gaveta do banheiro e pegou o exame. "Positivo." As lágrimas vieram, mas não como antes. Não eram lágrimas de fragilidade, eram de luto. Ela encostou a mão na própria barriga. — Eu prometo… — sussurrou. — Eu prometo que ninguém nunca vai nos humilhar assim de novo. Pegou o celular, abriu as redes sociais, a notícia já estava em todos os portais. “O noivado que une dois impérios.” E, em um canto da matéria, uma frase discreta: “Fontes afirmam que o relacionamento anterior de Lorenzo Bianchi não passava de uma fase.” "Uma fase." "Cinco anos resumidos a uma fase." Helena desligou o celular, foi até o quarto, abriu o closet e começou a arrumar as malas, cada peça guardada era a confirmação do fim.






