— Nunca deixem de proteger uma à outra.
A voz de Darian ecoou forte em meio ao caos.
Mia correu em sua direção.
Ou pelo menos tentou.
As pernas pareciam presas ao chão.
Ela gritava, chamava por ele, mas a distância entre os dois nunca diminuía.
Então viu Sebastian.
A espada atravessando o peito de seu pai.
O sangue tingindo suas roupas.
A vida deixando seus olhos.
— Pai!
Darian cambaleou.
Mesmo à beira da morte, ergueu o olhar até as filhas.
Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios.
Doloroso.
Cheio de amor.
— Nunca deixem de proteger uma à outra.
Seu corpo tombou sobre a grama.
— Não!
Mia despertou com um sobressalto.
Levou a mão ao peito enquanto tentava recuperar o ar.
A respiração vinha descompassada.
O coração batia tão forte que parecia querer escapar pela garganta.
Demorou alguns segundos para perceber onde estava.
O quarto continuava estranho.
Grande.
Silencioso.
Luxuoso.
As paredes claras eram adornadas por delicados entalhes em madeira escura. A luz da manhã atravessava as longas cortinas de linho, iluminando os móveis elegantes, a enorme cama de dossel e os vasos com flores recém-colhidas espalhados pelo ambiente.
Uma estante ocupava parte da parede oposta. Além dela, a varanda revelava os jardins impecavelmente cuidados da Mansão Alfa.
Tudo transmitia conforto.
Segurança.
Uma perfeição quase sufocante.
Ainda assim…
Nada parecia seu.
Já fazia um mês.
Um mês desde o ataque.
Um mês desde a morte de Darian.
Um mês desde que tudo o que conhecia deixara de existir.
Seu olhar voltou a percorrer o aposento.
Desde aquele dia, estava vivendo ali por segurança.
Ninguém permitia que voltasse para Arkhavel.
Não podia mais frequentar as aulas, nem treinar ou caminhar pelos corredores da academia.
Sentia falta das amigas.
Das conversas depois das aulas.
Da rotina que, até pouco tempo atrás, parecia tão comum.
Agora, tudo aquilo fazia parte de uma vida que parecia distante demais.
Fechou os olhos por um instante.
Imediatamente voltou a ver o rosto do pai.
Mas não naquele último momento.
A lembrança mudou.
Era Darian sorrindo durante um treinamento.
— Tenho certeza de que um dia seu lobo aparecerá.
A esperança em sua voz ainda era tão nítida quanto naquele dia.
Ele acreditava, esperava e sonhava com aquele momento.
E ela…
Guardara um segredo dele durante todos aqueles anos.
Não porque quisesse, mas porque havia feito uma promessa.
Maelis lhe pedira que nunca contasse a ninguém o que realmente era.
Nem mesmo a Darian.
E Mia cumprira aquela promessa.
Agora, ele jamais conheceria toda a verdade.
A culpa apertou seu peito mais uma vez.
Talvez nunca deixasse de apertar.
Seu olhar caiu sobre o colar em forma de lua repousado sobre sua pele.
Os dedos tocaram o pingente de maneira quase automática.
Era uma das poucas coisas que ainda a faziam sentir a presença da mãe.
Três batidas suaves interromperam seus pensamentos.
— Mia?
A voz de Elara veio do outro lado da porta.
— Posso entrar?
— Pode.
A porta se abriu devagar.
Elara entrou carregando uma bandeja com o café da manhã.
Seu olhar percorreu a irmã por um instante.
Os vestidos leves e floridos deram lugar a tecidos lisos, sem bordados, sem estampas, em tons escuros e apagados.
Como se até as cores tivessem morrido com Darian.
O sorriso que Elara tentou oferecer morreu antes mesmo de alcançar os olhos.
As duas ainda estavam aprendendo a sobreviver sem o pai.
Ela colocou a bandeja sobre a pequena mesa próxima à janela.
— Você precisa comer.
Mia apenas assentiu.
O silêncio permaneceu entre elas por alguns instantes, até que Elara voltou a quebrá-lo.
— Theron pediu para falar com você depois do café.
Mia ergueu os olhos.
— Como ele está?
— Melhor.
Elara respirou fundo.
— Mas ainda não consegue andar.
Mia baixou o olhar.
Theron havia despertado alguns dias antes.
Foi um alívio para todos.
Mas a recuperação estava longe de terminar.
Sem condições de liderar a alcateia naquele momento, Ian assumiria oficialmente como Rei Alfa.
Naquela tarde, além da cerimônia que marcaria sua ascensão como Rei Alfa, aconteceria também a cerimônia de união.
Elara observou a irmã por mais alguns segundos.
Era difícil aceitar que, mesmo cercada por tantas pessoas, Mia ainda parecesse tão sozinha.
— Vou deixar você tomar o café com calma.
Mia apenas assentiu.
A porta se fechou suavemente.
O silêncio voltou a ocupar o quarto.
Foi então que vozes baixas atravessaram o corredor.
Ela reconheceu uma delas imediatamente.
Era Ian.
A voz grave e firme distribuía ordens curtas aos guardas.
O coração de Mia apertou de forma automática.
Não ouvia aquela voz tão perto desde o ataque.
Permaneceu imóvel.
Por um breve instante, imaginou que ele entraria.
Que talvez finalmente conversassem.
Mas os passos seguiram pelo corredor, cada vez mais distantes, até desaparecerem por completo.
Ela fechou os olhos por um instante.
O casamento.
Só de pensar naquela palavra, seu estômago se revirava.
Dentro de poucas horas, Ian seria oficialmente coroado como Rei Alfa.
E ela estaria diante de todas as alcateias.
Ao lado dele.
Elara havia feito daquelas visitas parte da própria rotina.
Todos os dias atravessava o território para vê-la, atualizando-a sobre tudo o que acontecia fora daqueles muros.
Depois voltava para a casa onde estava morando temporariamente com o professor Aurelin.
Lucca e Kiara, por outro lado, haviam retornado para a casa dos Althea.
Os dois insistiram em permanecer ali.
Mas Mia conhecia o irmão.
Sabia que aquela não era apenas uma promessa feita no calor da dor.
Lucca estava decidido a encontrar Sebastian.
E só descansaria quando o fizesse pagar por tudo o que havia acontecido.
E isso a assustava quase tanto quanto o próprio Sebastian.
Só de imaginar o irmão consumido pela sede de vingança, seu peito apertava.
Ela queria voltar para casa.
Queria atravessar novamente os portões dos Althea.
Percorrer aqueles corredores.
Sentar-se na varanda onde tantas vezes conversara com Darian.
Mas não conseguia.
A simples ideia de cruzar aquela porta fazia seu coração acelerar.
Cada cômodo carregaria a ausência dele.
Cada lembrança seria uma ferida aberta.
Por isso permanecia na Mansão Alfa.
Um lugar que lhe oferecia segurança…
Mas jamais a sensação de pertencimento.
Estava protegida.
E, ao mesmo tempo, incapaz de seguir em frente.
Ela sabia que Ian estava fazendo aquele casamento apenas por obrigação.
Porque era o que se esperava de um Rei Alfa.
Porque as tradições exigiam.
Não porque desejasse aquele casamento.
Desde o dia que a rejeitou, Ian nunca mais a procurara.
Nunca tentara conversar.
Havia entre os dois uma distância impossível de ignorar.
Mia não sabia exatamente o que se passava dentro dele.
Talvez ele a culpasse pelo estado de Theron.
Talvez ainda estivesse consumido pela dor.
Ou talvez simplesmente não conseguisse mais olhar para ela.
Ela já não sabia.
Sabia apenas que, dali a poucas horas, teria de caminhar até o altar ao lado do homem que amava.
E ouvir o homem que amava prometer que passaria a vida inteira ao seu lado…
Mesmo sem amá-la.