Mundo de ficçãoIniciar sessão
Quando a Lua chorar sobre as matilhas,
e o mundo esquecer o poder do amor, nascerá aquela que não pertence a um só sangue. Filha da bruxa e do lobo, forjada não pela guerra, mas pelo amor verdadeiro. A terceira criança, aquela que chamarão de vazia, será a que carrega a Lua em seu espírito. De pelagem branca como a neve da primeira noite, sua força dobrará a dos Alfas, e sua voz poderá acalmar ou destruir reinos. Muitos tentarão usá-la como arma. Muitos temerão o que ela se tornará. Mas somente quando o amor vencer o destino a Loba da Lua despertará. E então as matilhas saberão: a Luna da Profecia retornou. ⸻ — Mia… está tudo bem? — perguntou Kiara, com a voz ainda sonolenta. — Você parecia estar tendo um pesadelo. Mia abriu os olhos devagar. O carro ainda cortava a estrada silenciosa da madrugada. Por alguns segundos, ela ficou parada, tentando afastar os últimos fragmentos do sonho. — Está, sim… — respondeu por fim. — Eu só estava sonhando com a minha mãe… ela estava me contando a lenda outra vez. Kiara virou um pouco o rosto para observá-la. — Você tem sonhado muito com ela ultimamente, não tem? Mia apenas assentiu, olhando pela janela. Do lado de fora, a estrada serpenteava entre montanhas escuras, iluminadas apenas pela lua crescente. Kiara esticou o braço e tocou de leve no ombro da amiga. — Ei… você vai conseguir esconder isso. Eu sei que vai. Mia soltou um pequeno suspiro. — Espero que sim, Kiara. Você sabe o quanto minha mãe sacrificou para que eu conseguisse. A voz dela saiu mais séria do que pretendia. Kiara tentou mudar o clima. — Você estava morrendo de saudades do Vale da Lua. Tenta aproveitar isso pelo menos. Mia forçou um pequeno sorriso. — Vou tentar. Kiara aspirou o ar de repente, como se estivesse sentindo algo distante. — Pois eu já estou sentindo o cheiro da comida da Luna Elowen. Mia riu baixo. — Eu também… — respondeu. — Mas, sabe… vou sentir falta do mundo humano. Ela apoiou a cabeça no encosto. — Aqui nós éramos simplesmente Mia e Kiara. Duas garotas do ensino médio. Kiara deu de ombros. — Você ainda tem uma vantagem. Mia ergueu uma sobrancelha. — Qual? — Para ele… você é apenas Mia. A sem-lua. O sorriso de Mia desapareceu. — Desde que eu consiga manter isso… Ela voltou a ficar tensa. Kiara suspirou. — Eu já disse que sim. Estou aqui para te ajudar. Dessa vez Mia sorriu de verdade. — Eu sei. Não faço ideia do que faria sem você. Houve um pequeno silêncio dentro do carro. Então Mia falou, hesitante: — Mas, Kiara… como está seu coração? Quer dizer… você sabe… Ela procurava as palavras certas para não machucar a amiga. Kiara manteve os olhos na estrada. — Está tudo bem, Mia. Ela deu um pequeno sorriso. — Se a Deusa da Lua quis assim, nós apenas aceitamos. Não era para mim. Ela respirou fundo. — Você sabe que ele nunca ficaria com alguém que não fosse um lobo. Ian valoriza demais as tradições. Mia bufou. — Meu irmão é ridículo. Para ele tudo são tradições. Kiara lançou um olhar irônico. — Talvez você que não leve as tradições a sério o suficiente. Mia riu alto. — Então é assim? — Sim. Essa é você — disse Kiara, rindo também. Por um instante, tudo pareceu leve outra vez. Depois de alguns minutos, Mia falou novamente: — Kiara… obrigada por ter voltado comigo. Kiara sorriu. — O mundo humano sem as suas loucuras não teria a menor graça. Ao longe, as primeiras linhas da floresta começaram a aparecer. Árvores altas e antigas cercavam a estrada como guardiãs silenciosas. Ali ficava o portal para Lunareth. — Em três horas estaremos em casa — disse Mia. — Então deixa eu dirigir agora — respondeu Kiara. — Você já está cansada. Mia não discutiu. Elas pararam rapidamente na lateral da estrada para trocar de lugar. Alguns minutos depois, Kiara já dormia no banco do passageiro. O restante do caminho seguiu silencioso. Sozinha com os próprios pensamentos, Mia levou a mão até o colar que carregava no pescoço. O pingente em forma de lua fria brilhou levemente sob a luz noturna. Ela apertou o objeto entre os dedos. — Eu prometo que vou proteger o segredo, mãe… — murmurou. Cada um dos três filhos da Casa Althea carregava um pingente como aquele. Era impossível não reconhecê-los. Mas Mia sabia que, se alguém descobrisse o que realmente corria em suas veias, aquele símbolo poderia se tornar muito mais do que apenas um sinal de família. Poderia se tornar uma sentença. Quanto mais Mia se aproximava de sua alcateia, mais sentia que pertencia àquele lugar. A estrada já estava cercada pela floresta conhecida do Vale da Lua. O cheiro da terra úmida e das árvores antigas parecia envolvê-la como um abraço. Ela virou-se para Kiara, que já havia despertado no banco ao lado. — Tenho que confessar… senti muita falta disso aqui. Kiara sorriu, observando a paisagem pela janela. — Eu sabia.






