Mundo de ficçãoIniciar sessãoYuki
Passei o dia inteiro me preparando para o encontro. Fiz skincare, pintei as unhas, maquiei-me com delicadeza, perfumei a pele e enfeitei meus cabelos com tranças. Escolhi um vestido de azul pálido, delicado, pensado com mais cuidado do que eu gostaria de admitir. Queria estar perfeita para Peter.
Mas foi tudo em vão.
Esperei por ele a noite inteira. E ele não apareceu.
As lágrimas começaram a cair, silenciosas, até que não consegui mais contê-las.
— Yuki, o que aconteceu? Por que está chorando?
— Eu ia sair com o Peter... seria nosso segundo encontro. Mas ele não veio.
— Segundo encontro? Quando foi o primeiro? E por que estava saindo com ele? Vocês mal se conhecem.
— Eu sei que você não gosta dele, mas eu gosto. Quero conhecê-lo melhor. Só não sei o que aconteceu. Será que devo procurá-lo?
— Não é que eu não goste dele, eu nem o conheço. Não sei quais são as intenções dele, nem se ele é uma boa pessoa. Se ele for homem, que venha até você se explicar.
— Talvez você tenha razão...
— Você está linda demais para um simples macarrão com queijo. Vamos sair. Pizzaria, que tal?
— Não estou no clima. Vai você. Sai um pouco, aproveita.
— E você?
— Vou ficar bem. Tenho livros, café... e seu macarrão com queijo. Eu estou bem.
— Então tá. Vou convidar a Beatriz. Qualquer coisa, me liga.
Quando ela sai, encho a banheira com água quente. Adiciono algumas gotas de essência de lavanda, acendo uma vela e apago a luz. Mergulho na água, deixando apenas a cabeça para fora. O vapor sobe, acariciando meu rosto. Coloco um filme no celular e tento me desligar do mundo.
Preciso lavar minha mente.
Apagar a noite. Voltar a respirar....
Já faz uma semana desde que Peter desapareceu. Nenhuma mensagem. Nenhuma explicação.
No fundo, eu sabia. Sabia que ele não queria mais me ver.
Devo ter feito algo que ele não gostou. Talvez tenha percebido que eu não valia a pena. Que perder seu precioso tempo comigo seria um erro.— Yuki, quer que eu vá falar com ele?
— Não, Will. Deixa isso pra lá.
— Como assim deixar pra lá? Vai deixar esse idiota agir como se estivesse tudo bem fazer isso com você?
— Willian... ele não fez nada. Nós não éramos nada. Apenas vizinhos... conhecidos. Saímos uma vez, só isso. Esquece isso, por favor.
Minha voz sai firme, mas por dentro estou desmoronando. Irritada. Triste. Insegura.
Se algo tivesse acontecido de verdade, ele teria vindo me procurar… certo?Ou talvez não. Talvez tenha sido só mais uma brincadeira pra ele. Um erro.
Foi humilhante o bastante ser deixada esperando. Não quero ouvir desculpas vazias.
— Tá bom... Só porque você pediu. Mas eu o vi hoje, de bicicleta. Pensei que viesse até aqui. Ele passou pedalando rápido, como se fugisse.
— Deixa isso pra lá, Will. Não vale a pena. Ele não me deve explicações.
Mas a verdade é outra.
Eu sinto falta dele.E ao mesmo tempo... eu o odeio.
Essa ausência me machuca mais do que deveria.Foi então que percebi.
Estou apaixonada. Queria estar com ele. Mas tudo em mim está confuso.Sentimentos misturados, como folhas levadas pelo vento.
Mais tarde naquele mesmo dia...
— Vamos experimentar pelo menos uns dez vestidos, mesmo que não compremos nenhum! — disse Ayumi animada, me puxando pela mão.
O shopping estava movimentado, mas não ao ponto de ser sufocante. Era sábado à tarde, e a luz dourada do sol atravessava as claraboias de vidro, iluminando os corredores.
Sorri de canto, tentando acompanhar a energia da minha amiga.
— Eu vim só para te acompanhar, você sabe disso, né?
— Sei, mas você precisa se distrair, sair um pouco de casa. E essa luz está linda em você — disse Ayumi, apertando meu braço com carinho.
Entramos em uma loja de roupas vintage. Ayumi se apaixonou por um blazer amarelo pastel e uma saia plissada que combinava perfeitamente com sua personalidade vibrante. Eu experimentei um vestido azul-escuro com delicados detalhes florais, que lembravam o céu carregado dos dias de chuva.
— Você ficou linda. Devia levar — disse ela, ajeitando uma mecha do meu cabelo que caía sobre meus olhos.
— Só fiquei com cara de alguém que fingiu dormir bem.
— Você está se saindo melhor do que imagina, sabia? E eu sei que você não quer falar sobre isso, então não vou forçar. Só… se cuida, tá?
Assenti e sorri, discreta. Mas, no fundo, aquele gesto de cuidado era tudo o que eu precisava naquele momento.
Depois de rodar mais algumas lojas, nos sentamos em uma cafeteria com aroma de baunilha e pão recém-assado. Pedi um chocolate quente com chantilly; Ayumi escolheu um cappuccino e uma fatia generosa de torta de morango.
— Preciso te trazer aqui mais vezes. É o seu lugar. Chocolate, livros e silêncio. Tudo o que você ama.
— E você — digo, baixinho.
Ayumi sorriu, tocando minha mão sobre a mesa.
— Sempre.
— Está pronta para a volta às aulas?
— Com certeza. Ver todo mundo, colocar o papo em dia. E você?
— Não muito… Ainda preciso montar o diário de férias. Não tenho muito para escrever.
— Claro! Você só quis ficar com os livros, não foi a nenhum lugar que te chamei.
— Prefiro ficar em casa. E esse mês o Will me trouxe mais livros do que da última vez. Estou no penúltimo. E hoje saí com você, então já tenho algo para escrever.
— Você não tem jeito.
…
A chuva voltou a cair com constância, como se o céu compartilhasse da minha apatia. As aulas também voltaram: corredores lotados, professores com vozes ecoando como ruído distante e cadernos ainda em branco. Era uma ótima distração para esquecer o que houve.
Passei em uma cafeteria antes da escola. Comprei um café grande e forte, alguns pãezinhos recheados de frango com catupiry e segui para a aula. Ao entrar na sala, percebi que estava vazia. Sentei-me e apoiei a cabeça sobre a mesa.
De repente, minha amiga chegou gritando.
— Yuki, você veio! Quero te apresentar meu amigo, ele está na nossa turma!
Quando levantei a cabeça, o vi em pé à minha frente, com Ayumi agarrada ao seu braço. Era Peter. Ele me olhou espantado, depois olhou para Ayumi.
— Nós nos conhecemos. Somos vizinhos — disse ele, com um olhar desconfiado.
— Oi, Peter. Oi, Ayumi… Vocês poderiam me dar licença?
Saí da sala o mais rápido que pude. Ele veio atrás de mim.
Tentei interrompê-lo várias vezes. Não queria ouvir explicações. Não queria que ele pensasse que eu havia ficado esperando por ele todo aquele tempo. Olhei ao redor e percebi que algumas pessoas nos observavam. Evitei seu olhar e segui até o banheiro, onde me tranquei e chorei. Os hormônios definitivamente não ajudavam.
Voltei para a sala caminhando devagar. Já havia perdido a primeira aula. Encontrei Carlos parado na porta.
— Yuki, podemos conversar?
— Claro. Aconteceu alguma coisa? Ayumi está bem? — achei estranho; Carlos quase não falava comigo.
— Não é nada grave. Vamos para aquela sala.
Assim que entramos, ele perguntou:
— O que aconteceu entre você e o Peter?
— Nada demais. Foi bobagem.
— Eu sei que não sou seu amigo, mas percebi que você não está bem. Se não quiser falar comigo, fale com a minha irmã. Vocês são melhores amigas, mas nessas férias você quase não falou com ela.
— Eu sei. Estou passando por muita coisa e não quero envolvê-la.
Peter apareceu de repente, e Carlos nos deixou sozinhos. Ele tentou se explicar. Eu disse que não precisava. Tentei me afastar, mas ele se aproximou mais.
Quando suas mãos tocaram minha cintura, meu corpo não recuou. Meu coração acelerou. Eu sabia que não devia… mas queria. Havia saudade, desejo e confusão demais em mim para fingir indiferença.
Ele se inclinou, e por um segundo deixei acontecer.
Então alguém nos interrompeu.
Era Will.
Ele puxou Peter com força e o acertou com um soco. Fiquei paralisada. Eles começaram a discutir, e eu os interrompi. O estresse, a exposição e a tensão foram demais para mim. As pessoas no corredor nos observavam. Era humilhante.
— Willian, o que você está fazendo aqui na escola?
— Ainda bem que eu cheguei. Você ia deixá-lo te beijar. Como pôde fazer isso?
— Eu não ia deixar ele fazer nada — menti. — E não foi isso que eu perguntei. O que você está fazendo aqui? Por que está tão irritado?
Ele suspirou, os olhos marejados.
— Tenho notícias para você.
— Então diga logo. Você está me assustando.
— Nossos pais voltaram. E vão ficar hospedados na nossa casa.
Meu mundo parou.
— Isso é mentira. Will, isso não pode ser possível. Diz que é brincadeira.
— Yuki, me escuta. Eu sei que é difícil, mas eles são nossos pais…
— Difícil? Como você pôde permitir isso? Eu não vou voltar para casa. Não ficarei perto deles de forma alguma.
As lágrimas não paravam de cair.
— Eles chegam hoje. Você precisa conversar com eles. Por favor.
— Nunca. Não acredito que você deixou isso acontecer.
— Você acha que foi fácil para mim? A sua dor é a minha dor.
— Não. Você pode até se sentir mal, mas sua dor nunca será igual à minha.
Saí chorando e me tranquei novamente no banheiro, onde fiquei até o sinal tocar. Eu sabia que tinha magoado o Will. Me arrependia. Ele só queria me proteger.
Antes de voltar para a sala, encarei meu reflexo no espelho. Meus olhos estavam vermelhos, e nem a maquiagem conseguia esconder o que eu sentia.
Quando entrei na sala, todos me olharam. Abaixei a cabeça e fui para o meu lugar. Sentei-me em silêncio, tentando desaparecer.
...
No intervalo, peguei meu almoço e me sentei em uma mesa vazia. Não tinha disposição para conversar com Ayumi nem com mais ninguém. O barulho do refeitório parecia distante, abafado, como se eu estivesse debaixo d’água.
Peter apareceu pouco depois. Bastou vê-lo para tudo desabar.
As lágrimas vieram sem aviso, quentes, incontroláveis. Não consegui dizer uma palavra sequer. Ele não perguntou nada. Apenas me puxou com cuidado e me levou até a ala de teatro.
Sentamo-nos no palco vazio. As cortinas fechadas deixavam o ambiente em penumbra. O cheiro de poeira e madeira antiga me deu uma estranha sensação de segurança. Eu o abracei com força, como se meu corpo soubesse que precisava daquilo para não se partir.
Chorar era a única coisa que aliviava a pressão no peito.
Respirei fundo várias vezes antes de conseguir falar. Quando comecei, as palavras saíam quebradas, como se cada uma precisasse ser arrancada de dentro de mim.
— Meus pais… — engoli em seco — eles sempre foram frios comigo. Sempre. Me deixavam de lado.
Peter não disse nada. Apenas apertou minha mão.
As imagens começaram a voltar sozinhas.
…
— Um dia, eles disseram que íamos viajar — continuei. — Arrumaram tudo em caixas. Mandaram eu e o Will entrar no carro. Um caminhão apareceu… lembro do uniforme do homem. Minha mãe conversou com ele por um tempo. Meu pai chamou, disse que estávamos atrasados. Ela entrou no carro apressada. E nós fomos.
Minha voz falhou.
— Chegamos a um lugar grande. Tinha crianças. Portões altos. Duas mulheres com roupas longas… freiras. Disseram que estavam nos esperando.
Fechei os olhos.
— Minha mãe pediu para o Will ficar no carro com o meu pai. Disse que ia entrar comigo. Pegou minhas malas. Disse que era rápido.
Uma pausa. Meu peito ardia.
— Eu fui brincar. Tinha um parquinho. Quando voltei… ela não estava mais lá.
Senti o corpo tremer.
— Procurei. Gritei. Chorei. Uma mulher me segurou pelo braço. Disse que agora cuidaria de mim. Que minha família tinha ido embora. Que tinha me abandonado.
Minha respiração ficou curta.
— Ela disse que aquele lugar era minha casa agora. E que, se eu não aceitasse… haveria consequências.
As palavras seguintes saíram quase em sussurro.
— E houve.
Abri os olhos. Peter chorava em silêncio.
— O orfanato era um inferno. Portões enferrujados. Comida estragada. Castigos. Marcas que eu ainda tenho. Dormíamos no chão, umas abraçadas às outras, tentando não congelar.
Respirei fundo, tentando não me afogar na lembrança.
— Passei cinco anos lá. Até o dia em que meu irmão apareceu. Ele não sabia de nada. Nunca soube. Ele chorou… disse que sentiu minha falta.
O silêncio caiu pesado entre nós.
— E agora… — minha voz quase não saiu — eles querem voltar. Como se nada tivesse acontecido.
Peter me puxou para um abraço apertado.
— Você não está sozinha — ele disse. — Nunca mais.
Aquela frase me desmontou.
Beijei seu rosto, perto demais da boca. Quase um pedido. Quase uma confissão. Eu queria beijá-lo. Queria me sentir viva, segura, fora daquele passado.
Mas o sinal tocou.
Nos recompusemos e voltamos para a sala. Não consegui prestar atenção em nada. Escrevi sem sentido no caderno. Pensamentos altos demais, confusos demais. Peter. Meus pais. Medo.
…
O caminho de volta para casa parecia longo demais. Cada passo pesava. O frio da tarde se infiltrava pela manga do casaco, mas era por dentro que eu tremia.
Quando passei em frente à casa de Ayumi, parei. Fiquei alguns segundos encarando o portão, como se precisasse de permissão para fugir. Mudei o trajeto sem pensar duas vezes e toquei a campainha.
Ela abriu quase imediatamente.
— Yuki? — franziu a testa. — O que você está fazendo aqui a essa hora?
— Eu… posso entrar? — minha voz saiu baixa demais.
Ayumi não perguntou mais nada. Apenas abriu espaço e me puxou para dentro.
Assim que a porta se fechou, minhas pernas cederam. Sentei no sofá e levei as mãos ao rosto. O choro veio de novo, descontrolado, sufocante.
— Ei, ei… — ela se sentou ao meu lado, passando o braço pelos meus ombros. — Respira comigo. Olha pra mim. O que aconteceu?
— Eles… — engasguei — eles voltaram.
Ela ficou imóvel por um segundo.
— Quem voltou?
— Meus pais.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Como assim “voltaram”, Yuki? — perguntou devagar. — Voltaram de onde?
— Da vida. — soltei uma risada sem humor. — Resolveram existir de novo.
Ayumi me encarou, indignada.
— Isso é sério? Depois de tudo?
Assenti.
— Will deixou. Eles vão ficar em casa. Hoje. Já chegaram.
Ela levou a mão à boca.
— Meu Deus… Yuki…
— Eu não consigo — disse, sentindo o ar faltar. — Só de pensar em vê-los… o cheiro, a voz… parece que eu tenho cinco anos de novo.
— Você não precisa ir agora — ela disse rápido. — Fica aqui comigo. A gente dá um jeito.
Balancei a cabeça.
— Eu preciso ir. Se eu fugir agora, vai ser pior depois. Mas eu tô com medo, Ayumi. Medo de surtar. Medo de perder o controle.
Ela segurou meu rosto com as duas mãos.
— Olha pra mim. Você não é mais aquela criança. Você sobreviveu. E não importa o que aconteça hoje, eu tô aqui. Sempre. Entendeu?
As lágrimas escorreram sem resistência.
— Eu também briguei com o Peter hoje… — confessei. — E agora tudo parece demais.
— Vocês brigaram? — ela suspirou. — Yuki, você está carregando coisa demais sozinha.
— Eu sei… — minha voz falhou. — Mas não sei como dividir.
Ela me abraçou forte.
— Quando isso tudo passar, você vai me contar tudo. Promete?
— Prometo.
Respirei fundo, me recompus o quanto pude e me levantei.
— Obrigada por me ouvir.
— Qualquer coisa, me liga. Mesmo de madrugada.
— Tá.
Saí dali sentindo o peito ainda apertado, mas um pouco menos vazio.
A casa estava iluminada quando cheguei. Luz demais para um dia que já me sufocava. Antes mesmo de abrir o portão, vi Will parado na varanda, inquieto, como se esperasse uma tempestade.
— Yuki… — ele disse ao me ver, a voz baixa. — Eles já chegaram.
Assenti, sem força para responder. Meus pés avançaram sozinhos.
A porta se abriu, e o cheiro veio antes de qualquer rosto.
Alfazema.
O mesmo perfume de sempre. Limpo demais. Doce demais. Antigo demais.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. O estômago se contraiu, a garganta fechou. Por um segundo, não era mais eu ali. Era a criança que aprendia a ficar em silêncio para não incomodar.
— Yuki! — a voz da minha mãe soou animada, quase eufórica. — Você chegou!
Ela se levantou rápido demais, atravessou a sala e me envolveu num abraço que não pedi. O cheiro da alfazema ficou ainda mais forte, grudando na minha pele, na minha roupa, na memória.
Fiquei rígida. Braços soltos ao lado do corpo. Nenhum gesto de retribuição.
— Você cresceu tanto… — ela disse, como se isso fosse prova de presença.
Meu pai se aproximou em seguida, a mão pousando no meu ombro com uma intimidade que não existia.
— Sentimos sua falta, filha.
Não respondi. Olhei para Will, que desviou o olhar, impotente.
O jantar foi uma sequência de ruídos sem sentido. Talheres batendo, cadeiras arrastando, risadas forçadas. Tudo parecia encenado, como se estivéssemos representando uma família que nunca fomos.
— E a escola? — minha mãe perguntou, sorrindo demais. — Gostou?
— Foi normal. — respondi, encarando o prato.
— Você sempre gostou de estudar — ela continuou, como se soubesse de algo. — Sempre tão quietinha…
Quietinha.
Engoli a resposta junto com a comida, que parecia não descer.
Então ela pousou o talher com cuidado exagerado.
— Temos uma novidade — anunciou, os olhos brilhando. — Seu pai e eu decidimos ficar. Queremos… recomeçar.
Meu peito apertou.
— E tem mais — ela respirou fundo, teatral. — Estou grávida. É uma menina.
O som desapareceu.
O ar sumiu.
Uma irmã.
Algo dentro de mim se partiu.
— Não. — minha voz saiu mais alta do que eu esperava. — Não.
A cadeira arrastou quando me levantei de repente. Meu prato escorregou das mãos e se quebrou no chão, o barulho seco ecoando pela sala.
— Você não pode simplesmente voltar… — as palavras se atropelaram — como se nada tivesse acontecido!
— Yuki, calma — meu pai tentou se aproximar.
— Não encosta em mim! — gritei, sentindo o corpo inteiro tremer.
As lágrimas vieram quentes, misturadas com raiva, medo, abandono.
Corri.
Saí antes que alguém pudesse dizer meu nome de novo.
O cheiro de alfazema ainda estava em mim quando bati na porta da casa do Peter. Minhas mãos tremiam tanto que quase não consegui bater direito.
Quando ele abriu, não expliquei. Não pedi. Apenas me joguei em seus braços.
Ele me segurou na hora, firme, como se soubesse exatamente o que fazer.
— Ei… — disse baixo. — Você está segura agora.
Afundei o rosto em seu peito e chorei tudo o que tinha guardado.
Ali, longe daquele cheiro, daquele passado…







