Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOR MAIA
Tive mais uma aula depois daquela ligação.
E depois outra.
Mas honestamente?
Eu não absorvi absolutamente nada do que os professores falaram naquele resto de manhã.
Minha cabeça continuava presa nos mesmos pensamentos.
30 mil reais.
Ameaças.
Maicon desaparecido.
Hannah.
Rafael.
Quando finalmente deu uma e meia da tarde, tivemos outro intervalo antes das três últimas aulas do dia.
Eu e Valéria fomos direto para o refeitório do campus.
O lugar estava lotado.
Cheio de vozes altas, cadeiras arrastando pelo chão e alunos reclamando da comida como se fosse tradição universitária obrigatória.
Pegamos nossos pratos e fomos nos sentar em uma mesa vazia mais ao fundo.
Valéria continuava me observando discretamente desde a ligação.
Ela tinha esse jeito silencioso de perceber as coisas.
Nunca era invasiva.
Nunca me forçava a falar.
Só esperava.
E talvez fosse exatamente por isso que eu acabava contando tudo pra ela no meu próprio tempo.
Com Diana era diferente.
Ela falava sem pensar.
Perguntava sem filtro.
Invadia qualquer silêncio.
Suspirei antes de começar a falar baixo:
— Minha mãe me ligou porque o Maicon se meteu com agiota de novo.
Valéria largou o garfo imediatamente.
E ficou me ouvindo em silêncio enquanto eu explicava tudo por alto.
As ameaças.
O dinheiro.
O desaparecimento dele.
Quando terminei, ela ficou alguns segundos quieta antes de dizer:
— Amiga… os problemas do seu irmão não são sua responsabilidade.
Soltei uma risada fraca.
Cansada.
— Eu sei disso. Mas eu não conseguiria viver comigo mesma se alguma coisa acontecesse com minha mãe ou com as crianças.
Ela parecia querer argumentar.
Mas naquele instante Diana apareceu carregando a bandeja e ocupando espaço antes mesmo de sentar.
— Que cara de enterro é essa de vocês?
Troquei um olhar rápido com Valéria.
— Minha mãe me ligou mais cedo.
Diana deu de ombros enquanto abria um refrigerante.
— O que a tia queria?
— Maicon pegou dinheiro com agiota. Agora estão ameaçando minha mãe porque ele sumiu sem pagar.
Diana fechou os olhos por um segundo e soltou um suspiro nasalado.
— Esse moleque é uma pedra no seu sapato.
Ela me encarou diretamente.
— E o que você vai fazer?
Ela já sabia a resposta.
Nós duas sabíamos.
Porque Diana conhecia meu ponto fraco melhor do que quase qualquer pessoa.
— Não faço ideia — respondi mais baixo. — Eu já faço dois trabalhos por semana e mesmo assim o dinheiro mal dá pro mês inteiro.
Diana inclinou a cabeça levemente.
— Então para de pegar só trabalho leve.
Meu estômago revirou na mesma hora.
— Diana…
— O quê? — ela deu de ombros. — Você sabe que os programas que realmente pagam bem são outros.
Fiquei em silêncio.
Ela apoiou os braços sobre a mesa e perguntou:
— Quanto ele deve?
Engoli em seco.
— Trinta mil.
Valéria quase se engasgou.
— Maia…
— E eu tenho até dia vinte do mês que vem.
Diana assobiou baixo.
— Tá vendo? Você não vai conseguir isso só acompanhando velho rico em jantar beneficente.
A frase me irritou instantaneamente.
— Você sabe que eu não me sinto confortável com isso.
Ela revirou os olhos.
— Você fala como se fosse o fim do mundo. Se pegar os trabalhos certos, consegue isso em um mês fácil. Talvez até mais. Vai parar de contar moedinha no fim do mês.
Aquilo me atingiu mais do que eu gostaria.
Porque parte de mim sabia que ela estava certa.
E eu odiava isso.
Diana nunca teve problema com aquele tipo de trabalho.
Ela dizia:
> “Dou de graça de qualquer jeito. Melhor ganhar dinheiro.”
Mas eu não conseguia pensar assim.
Valéria colocou a mão sobre meu braço devagar.
— Se você não quiser fazer isso, não faz. A gente pensa em outra solução.
Olhei pra ela.
— Que solução?
Ela hesitou.
— Posso tentar pegar um adiantamento no bar… ou algum empréstimo.
Meu peito apertou imediatamente.
Valéria trabalhava à noite como bartender.
Mesmo se me emprestasse o salário inteiro…
Aquilo não faria nem cócegas na dívida do Maicon.
Balancei a cabeça devagar.
— Não quero te colocar nisso. Meus irmãos minha responsabilidade..
Mas a verdade era outra.
Eu simplesmente não fazia ideia de como resolver aquilo.
As últimas aulas passaram arrastadas.
Quando finalmente deu cinco da tarde, Valéria foi direto para o trabalho.
E eu peguei o ônibus pra casa com a cabeça completamente lotada.
As palavras da Diana continuavam ecoando.
Será que eu realmente teria que aceitar ir além?
Eu já tinha tentado algumas vezes quando não via saída.
E odiava.
Odiava cada segundo.
Na maior parte do tempo, meus trabalhos eram apenas companhia.
Eventos.
Jantares.
Festas.
Reuniões de negócios.
Homens ricos gostavam de ter mulheres bonitas ao lado.
E sinceramente?
Aquilo era suportável.
Mas sexo por dinheiro…
Não.
Eu precisava sentir alguma coisa.
Conexão.
Desejo.
Intimidade.
Eu nunca fui fria.
Já tinha namorado antes.
Já tinha amado antes.
Perdi minha virgindade com um garoto da minha cidade e ficamos juntos por quase três anos até ele me trair com a vizinha
Então não era sobre sexo.
Era sobre vazio.
Cheguei em casa exausta.
Joguei a mochila no sofá e fui direto abrir o aplicativo.
As notificações ficavam sempre desativadas.
Eu jamais correria o risco de Hannah ou Rafael pegarem meu celular e verem qualquer coisa relacionada àquilo.
Abri primeiro a aba de propostas.
Tinha algumas novas.
Uma reunião de negócios pagando dois mil, na próxima terça feira.
Outra para acompanhar um empresario em uma festa que pagava três mil reais e era só final do mês.
E uma proposta de presença VIP em uma boate nova que estava inaugurando na quinta-feira.
Mil e duzentos reais.
Suspirei.
Era dinheiro.
Mas ainda parecia tão pouco perto do que eu precisava.
Aceitei a proposta da boate mesmo assim.
Depois abri minhas mensagens.
E imediatamente revirei os olhos.
Cinco mensagens novas dele.
“Por que me bloqueou?”
“Você se acha, né?”
“Eu só queria te tratar como uma mulher de verdade.”
“Mas acho que você está acostumada a ser tratada como lixo.”
“Eu posso te dar muita coisa.”
Fiquei encarando a tela com incredulidade.
Imbecil.
A proposta inicial dele tinha sido apenas um jantar.
Mil e duzentos reais pela noite.
A conversa tinha fluído bem no começo.
Ele insistiu.
Eu precisava de dinheiro.
E acabei aceitando subir até o quarto do hotel.
No final da noite, ele transferiu mais cinco mil reais por algumas horas.
Cinco mil.
Às vezes eu odiava admitir…
Mas Diana talvez tivesse razão.
Os trabalhos mais íntimos eram os que realmente davam dinheiro.
Fechei o aplicativo antes que começasse a pensar demais.
Depois procurei passagens para minha mãe e as crianças virem me visitar naquele fim de semana.
Comprei tudo online e mandei para ela.
A resposta chegou poucos minutos depois.
“Econômica? Vou chegar quebrada aí. Mas tudo bem. Você descobriu como vai resolver o problema do Maicon?”
Fechei os olhos por um instante antes de responder.
“Sim. Vou dar um jeito.”
Não expliquei como.
Nem queria pensar nisso ainda.
Tomei um banho demorado depois.
Fiz um lanche simples.
E quando o céu começou a escurecer, fui até o quintal.
Reguei a horta.
Mexi na terra.
Colhi algumas folhas já maduras.
O cheiro de manjericão fresco se misturava ao ar frio do começo da noite.
Ali…
Naquele pequeno pedaço de terra…
Era o único lugar onde minha cabeça finalmente silenciava.
O único lugar onde eu conseguia esquecer o caos do resto da minha vida.
Pelo menos por alguns minutos.







