Dolores sabia que Sarah estava dizendo aquelas coisas de propósito, tentando provocá-la. No entanto, seu rosto permaneceu sem grandes alterações de emoção.
— Eu já decidi abrir mão de tudo. Não vou disputar nada com você. — Disse Dolores.
Sarah respondeu com sarcasmo:
— Ah, por favor, se você quisesse ir embora, já teria feito isso há muito tempo. Mas ficou até agora, se humilhando, só por causa do dinheiro. Aliás, o que achou das rosas que pedi para o Caio te entregar da última vez? O cheiro não era maravilhoso?
Assim que Sarah terminou de falar, o rosto de Dolores mudou. Sua expressão ficou séria e carregada de complexidade. Até Sarah sabia que ela tinha alergia severa a pólen, mas Caio não fazia ideia disso. Ele foi usado como uma marionete e sequer percebeu.
Isso a fez entender ainda mais claramente: Dolores nunca teve um lugar verdadeiro no coração de Caio.
Logo, Caio apareceu trazendo Dulce pela mão. Ele olhou para Dolores com uma expressão séria:
— Dulce é só uma criança e não entende as coisas. Já conversei com ela. Vamos deixar isso para trás. Daqui a pouco sairemos para o cruzeiro, como uma família.
Ao ouvir isso, Sarah rapidamente tirou da bolsa dois ingressos para um show:
— Caio, olha só! É da banda que a gente amava na época da faculdade. Hoje é o último show de despedida deles.
Caio ficou paralisado. Por um momento, ele hesitou, e visivelmente dividido. Em qualquer outro momento, ele teria escolhido Sarah sem pensar duas vezes. Teria aceitado o convite dela de imediato. Mas ele sentia que havia algo diferente em Dolores ultimamente, algo que ele não conseguia compreender completamente. Foi por isso que ele decidiu convidá-la para o passeio no cruzeiro, como uma tentativa de reparar as coisas.
Se ele escolhesse Sarah mais uma vez, ele temia que Dolores não suportasse o golpe.
Embora ele estivesse convencido de que Dolores o amava de maneira quase obsessiva e nunca teria coragem de deixá-lo, a inquietação dentro dele não desaparecia.
Então, Caio insistiu com a voz firme:
— Desculpe, mas eu não gosto mais dessa banda. Além disso, já prometi à Dolores que iríamos ao cruzeiro.
Sem esperar pela resposta de Sarah, Caio se virou e foi para o quarto trocar de roupa.
Sarah não esperava por isso. Sempre que ela fazia um pedido, Caio atendia sem questionar. Mas agora, ele havia recusado por causa daquela feia.
O rosto de Sarah se contorceu de raiva enquanto ela encarava Dolores com ódio:
— Sua desgraçada, o que você fez para ele?
Dolores não estava interessada em prolongar aquela discussão inútil. Ela não queria gastar energia com algo tão vazio.
Mas o silêncio de Dolores só fez Sarah acreditar que ela estava sendo provocada de propósito. Fora de si, Sarah pegou o enorme buquê de rosas que estava sobre a mesa e começou a atacar Dolores com ele, golpeando sua cabeça com força, uma vez após a outra.
Dolores começou a inalar grandes quantidades de pólen. Sua alergia piorou rapidamente, fazendo seu rosto ficar vermelho e sua respiração cada vez mais difícil.
Sarah, com um sorriso de triunfo, declarou:
— Vamos ver o que o Caio vai fazer agora!
Depois de dizer isso, Sarah caiu no chão, segurando o próprio estômago e começando a gemer de dor.
Quando Caio saiu do quarto, encontrou uma cena que o deixou paralisado. No chão, estavam as duas mulheres. Dolores, com o rosto vermelho e lutando para respirar, e Sarah, se contorcendo e gemendo enquanto segurava o abdômen.
Ele olhou para ambas, claramente nervoso, sem saber o que fazer ou quem ajudar primeiro.
Dolores sabia que sua situação era crítica. Se não fosse levada ao hospital imediatamente, ela poderia morrer. Sem pensar duas vezes, ela pediu com urgência:
— Caio, me leva para o hospital agora! Eu não vou aguentar muito tempo assim.
Depois de um momento de hesitação, Caio assentiu com a cabeça e se aproximou para ajudá-la. No entanto, Sarah segurou sua perna e gritou:
— Caio, minha barriga está doendo muito! Parece que tem alguém me esfaqueando por dentro! Eu não aguento mais!
Dulce correu para o lado de Sarah, agachando-se ao seu lado. Apontando para Dolores, começou a gritar:
— Papai! É culpa dessa feia! Ela fez isso de propósito para irritar a tia Sarah, e agora a tia Sarah ficou doente! Ela só quer te provocar para ver quem você vai escolher! Está fingindo! Vamos logo levar a tia Sarah para o hospital!
O rosto de Caio ficou cada vez mais sombrio. Ele lançou um olhar furioso para Dolores e disse:
— Você chegou ao ponto de perder toda a vergonha. Você não é nem gente!
Sem se importar com Dolores, ele pegou Sarah nos braços e saiu de casa sem olhar para trás.
O coração de Dolores se encheu de desespero. Como ela ainda podia ter a mínima esperança de que Caio a ajudaria? Que absurdo.
Com dificuldade, ela estendeu a mão até alcançar o celular que estava no sofá e ligou para Clara. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela desmaiou.
Quando Dolores abriu os olhos novamente, estava deitada em uma cama de hospital.
Clara estava ao lado dela, olhando para Dolores com uma expressão de frustração e raiva:
— Você está tentando se matar? Se eu tivesse demorado mais um pouco, você já estaria morta!
Dolores permaneceu em silêncio, sem dizer nada. Desta vez, ela não ficou muito tempo no hospital. No mesmo dia em que o divórcio foi oficializado, Dolores pediu alta e foi embora.
Assim como antes, Caio não se importou com o que acontecia com ela.
Ao voltar para casa, Dolores encontrou o chão coberto de pétalas de flores secas. Para ela, aquilo era o reflexo perfeito de seu casamento fracassado: algo que havia chegado ao fim, sem vida.
Dolores arrumou suas malas em silêncio. Depois de ter tudo pronto, ela deixou o acordo do divórcio bem no centro da mesa. Ela pegou suas poucas coisas e saiu sem olhar para trás.
Aquele lugar onde ela havia passado tantos anos de sua vida não era um lar. Era uma prisão. Sair dali significava ser como um pássaro que finalmente escapava da gaiola, pronto para voar livremente.
Dolores já tinha sua passagem de avião comprada. Foi direto para o aeroporto.
Enquanto ela aguardava o voo, seu celular começou a tocar. Era Caio ligando. Ela não atendeu. Apenas desligou o aparelho.
A partir daquele momento, o mundo era vasto, e eles eram estranhos vivendo em direções opostas.