Quando viu Caio e Dulce, Dolores não sentiu nenhuma emoção. Não havia raiva, nem mágoa, apenas indiferença. Afinal, restavam apenas dois dias, e ela sabia que, depois disso, ela provavelmente nunca mais os veria. Que tudo terminasse de forma pacífica.
Essa atitude de Dolores deixou Caio inquieto. Ele sentia uma sensação estranha, um desconforto que ele não conseguia nomear.
No passado, quando Caio e Dulce ficavam fora de casa por dois dias, Dolores ligava dezenas de vezes e enviava centenas de mensagens, implorando para que eles voltassem. Mas, dessa vez, mesmo após dez dias fora, ela não havia sequer tentado entrar em contato.
Caio forçou-se a justificar os sentimentos confusos que o incomodavam:
“Eu só acho que a Dolores deve estar se sentindo muito sozinha em casa. É só pena, nada além disso.”
Caio tinha plena confiança de que Dolores o amava de forma obsessiva, ao ponto de ter perdido completamente o próprio senso de identidade. Era essa certeza que lhe dava coragem para torturá-la emocionalmente vez após vez.
Dessa vez, a volta dele para casa era, na mente de Caio, um ato de generosidade. Ele estava “dando a ela mais uma chance”.
Ao notar a expressão fria no rosto de Dolores, Caio ficou irritado:
— O que significa essa sua atitude? Não está feliz em nos ver de volta?
Dolores não queria perder tempo discutindo. Faltavam apenas dois dias. Não havia motivo para prolongar conversas inúteis ou criar mais conflitos. Sem responder, ela abriu a porta e foi para o jardim.
O comportamento indiferente dela fez o coração de Caio pesar. Ele se sentiu confuso, especialmente ao lembrar de tudo o que haviam passado juntos. Nos momentos mais difíceis de sua vida, havia sido Dolores quem esteve ao seu lado.
Quando Dolores voltou para dentro para beber água, percebeu que algo no ambiente havia mudado. O chão da sala estava coberto de pétalas de flores, e a mesa havia sido preparada para um jantar à luz de velas, claramente para duas pessoas.
Ela olhou para a cena com um misto de ironia e desprezo. Para Dolores, aquilo não significava mais nada. Era tarde demais. Ele montou tudo aquilo para quê?
Franzindo a testa, ela levou a mão ao rosto para cobrir o nariz e a boca.
Caio, vendo o gesto, se aproximou rapidamente, preocupado:
— Está se sentindo mal?
Dolores respondeu com calma:
— Sou alérgica a pólen.
Dolores nunca gostou de flores. Quem adorava rosas era Sarah, não ela.
Caio ficou a um passo de explodir, mas lembrando-se da mudança de comportamento recente de Dolores ele conteve-se.
Aquela nova postura de Dolores o deixava cada vez mais inseguro. Ele sentia que estava perdendo o controle que tinha sobre ela, e isso o deixava inquieto.
Talvez Caio achasse que tinha sido frio demais com Dolores nos últimos tempos. Somando isso à consideração pela história que os dois haviam construído juntos, ele acabou não dizendo as palavras cruéis que estavam em sua mente.
O silêncio inesperado de Caio surpreendeu Dolores. Normalmente, ele não tolerava qualquer tipo de frustração e já estaria gritando.
Quando Dolores ainda estava processando essa mudança, Caio tirou dois ingressos de um passeio noturno em um cruzeiro e os colocou sobre a mesa:
— Nosso aniversário de casamento e seu último aniversário... Eu sei que fiquei te devendo. Quero compensar dessa vez. Vamos nós três, como uma família.
Dolores ficou parada, apenas olhando para ele. Ela não fez qualquer movimento para pegar os ingressos. Em sua mente, começou a questionar:
“Será que minha mudança foi tão evidente que Caio percebeu? É por isso que ele está agindo assim, tentando me agradar? Seja como for, amor tardio é a coisa mais barata que existe. Não tem valor algum.”
De repente, Sarah entrou na casa, segurando uma embalagem do sorvete favorito de Dulce.
Dulce gritou animada e correu para Sarah, agarrando sua mão:
— Obrigada, mamãe! Você é a melhor!
Caio imediatamente franziu o rosto e a advertiu:
— Não chame ninguém de mamãe assim.
Dulce, desobediente como sempre, respondeu com firmeza:
— Eu quero que a tia Sarah seja minha mãe! Não quero aquela feia!
Caio pegou Dulce no colo e subiu as escadas e precisava ensinar Dulce a ter respeito.
Assim que Caio e Dulce saíram, Sarah olhou ao redor e notou a mesa decorada e os ingressos do cruzeiro. Com um sorriso sarcástico, ela se aproximou e disse:
— Continuar se agarrando a ele é perda de tempo. Em breve, vou fazer você enxergar a realidade e ver quem Caio realmente ama!