Capítulo 2
Dolores colocou o casaco sobre os ombros e se deitou no banco do jardim. Já era final de outono, e as noites começavam a ficar mais frias, com a temperatura caindo drasticamente. O vento gelado passava por ela, fazendo com que seu corpo se encolhesse. Dolores apertou o casaco contra si, tentando se proteger do frio.

Sempre que eles discutiam, Caio a punia dessa forma. Ele dizia que era para ajudá-la a aprender uma lição, mas Dolores sabia que era apenas mais uma forma de humilhá-la.

Naquele momento, entretanto, o coração de Dolores estava completamente apático. Ela se perguntava por que havia se agarrado por tanto tempo a uma relação que só lhe trazia dor.

O sono começou a tomá-la, e os olhos dela estavam quase se fechando quando sentiu uma mão quente deslizar por dentro da sua roupa. Dolores acordou com um sobressalto e encarou os olhos de Caio, cheios de desejo.

O hálito quente de Caio roçou em seu rosto, mas, ao contrário de outros tempos, ela sentiu uma calma estranha.

Se fosse antes, Dolores teria correspondido àquela aproximação com entusiasmo, tentando agradar Caio de todas as formas possíveis. Mas naquela noite, algo dentro dela rejeitava aquele toque.

Caio percebeu a mudança em Dolores e franziu levemente as sobrancelhas:

— O que foi?

Dolores afastou a mão dele com um gesto frio e respondeu de forma vaga:

— Não estou me sentindo muito bem.

Ela parecia abatida, como se estivesse magoada, e aquilo irritou profundamente Caio.

— Você ainda está de birra por causa da Sarah? Já te expliquei que eu e ela somos apenas amigos! Para de ser tão infantil!

Sem paciência para ouvir mais desculpas, Dolores fechou os olhos e escolheu ignorá-lo.

A atitude dela foi um choque para Caio. Ele não conseguia acreditar que Dolores estava realmente o desafiando. Sua raiva explodiu:

— Você é ingrata mesmo! A Sarah tem razão! Eu fui bom demais com você! Agora está aí, me tratando com cara feia? Vamos ver se eu ainda vou querer olhar para você de novo!

Com um estrondo, Caio bateu a porta com força ao sair.

Dolores abriu os olhos lentamente. Se fosse antes, ela teria ficado desesperada, baixado a cabeça e implorado o perdão dele. Mas agora, Dolores já havia decidido deixar tudo para trás e, por isso, não se importava mais com ele.

Na manhã seguinte, Dolores acordou mais tarde do que de costume. Diferente de outros dias, ela não se levantou para preparar o café da manhã nutritivo e elaborado para Caio e Dulce.

Em vez disso, ela foi até a geladeira e pegou uma caixa de leite, começando a beber com calma, aproveitando o momento de tranquilidade.

O acordo de divórcio já estava assinado. Agora, tudo o que ela precisava fazer era esperar o prazo legal para a validade do documento. A ideia de liberdade a fazia sorrir sem perceber. Dolores nunca imaginou que abrir mão de tudo poderia trazer tanta paz. Pensando nisso, ela percebeu como sua antiga insistência no passado era ridícula.

Enquanto isso, na plataforma X, Sarah havia postado um vídeo de cinco minutos em suas redes sociais, acompanhado de uma legenda.

[Nos momentos em que mais preciso, você sempre está ao meu lado. É tão bom ter alguém especial comigo.]

No vídeo, Caio aparecia usando um avental e cozinhando o café da manhã como um verdadeiro chefe de família. O sorriso no rosto dele era radiante.

“Eu nunca vi o Caio desse jeito. Ele sempre reclamou do cheiro de fumaça na cozinha e nunca fez sequer uma refeição para mim. E agora lá está ele, na casa da Sarah, feliz da vida, preparando o café da manhã.” Pensou Dolores.

Dolores apenas deu uma olhada rápida no vídeo antes de jogar o celular no sofá. Não importava se Caio havia feito aquilo para provocá-la, para puni-la pelo que aconteceu na noite anterior ou porque já não podia mais esperar para ficar com Sarah. Nada daquilo fazia diferença para Dolores.

Se Caio pedisse o divórcio naquele instante, Dolores aceitaria sem hesitar.

Dulce desceu as escadas com passos firmes e, como sempre, ignorou Dolores completamente. Ao chegar à cozinha, Dulce percebeu que a mesa não tinha o café da manhã farto de sempre. Furiosa, ela virou-se para Dolores com uma expressão de descontentamento:

— Você está se fazendo de preguiçosa agora? Vai logo fazer o café! Eu estou com fome!

Dolores olhou para Dulce sem qualquer expressão no rosto. Não havia mais qualquer emoção em seus olhos. Ela sabia que, no coração de Dulce, ela não tinha valor algum. Nem mesmo como uma empregada.

Com esse pensamento, Dolores soltou um sorriso frio. Seus olhos ficaram ainda mais distantes:

— Se está com fome, coma uma maçã. Tem pão também.

Dulce ficou paralisada por um momento. Ela nunca tinha visto Dolores tão indiferente. Uma pequena dúvida passou por sua mente, mas logo foi substituída por seu habitual desprezo.

Com um sorriso malicioso, Dulce começou a planejar uma forma de punir Dolores:

— Essa é a sua obrigação! Você fica de boa vida, sem fazer nada o dia todo. Se não fosse o meu pai te sustentando, você já estaria na rua há muito tempo. Agora vai logo fazer o café, ou eu vou contar tudo para ele!

Dolores a encarou por alguns instantes, sem dizer mais nada e sem a menor intenção de prolongar a conversa.

— Vá procurar a Sarah. Não é ela que você quer como mãe?

Dolores ignorou completamente Dulce e foi para o quarto. Ao abrir o guarda-roupa, ela viu as roupas que Caio lhe dera ao longo dos anos.

Para ser mais precisa, eram roupas dos primeiros anos de casamento. Nos últimos tempos, Caio não havia lhe dado absolutamente nada.

Na verdade, Caio controlava todo o dinheiro que ele ganhava. Ele deixava para Dolores apenas uma parte para as compras de supermercado. E, quando Dolores precisava de dinheiro para qualquer outra coisa, era obrigada a pedir a ele, mas sempre recebia reclamações sobre como ela era “desperdiçadora” e “incapaz de administrar a casa com economia”.

Ao pensar nisso, Dolores deu um sorriso amargo.

Caio gastava dezenas de milhares em presentes para Sarah sem piscar, mas, quando Dolores pediu algumas centenas de reais para comprar um forno novo, ele a acusou de esbanjar dinheiro.

Sem demonstrar qualquer emoção, Dolores começou a organizar as roupas no guarda-roupa. Uma a uma, ela colocou tudo dentro de uma sacola plástica grande, desceu as escadas com a intenção de jogá-las fora.

Ao sair pela porta, Dolores deu de cara com Caio, que acabava de chegar. Ele segurava um buquê de rosas na mão.

Dolores não esboçou nenhuma reação. Sem sequer olhar para ele, ela caminhou em direção à lixeira e jogou a sacola cheia de roupas lá dentro.

A sacola era transparente, e Caio reconheceu imediatamente as roupas que estavam dentro. Eram as roupas que ele havia dado a Dolores nos primeiros anos de casamento.

Assim que Dolores voltou em sua direção, Caio abriu a boca, claramente insatisfeito:

— O que significa isso? Essas roupas foram presentes meus, e você teve a coragem de jogá-las fora! Eu recebi a ligação da Sarah ontem à noite porque ela estava com febre. Foi por isso que eu fui até lá. Você não precisa ficar tão...

Dolores, sem paciência para ouvir mais desculpas, o interrompeu de forma direta:

— Essas roupas já estão pequenas. Eu não uso mais.

O tom de Dolores era frio, e seu olhar transmitia uma indiferença que fez Caio sentir um incômodo estranho no peito.
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