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Capítulo I - Parte 2 – Luta pelos estudos, independência e carreira

Apesar dos conflitos, mudei-me para a capital, para a casa de uma tia que chamo, com carinho, de “minha segunda mãe”, mas o Técnico em Bioquímica custava mais do que meu pai podia pagar. Por esse motivo, cursei o Ensino Médio Regular, que chamamos de Formação Humanística no Paraguai, em uma escola privada. Eu e minha prima — com 13 anos na época — cuidávamos da casa enquanto minha tia trabalhava, e à tarde íamos ao colégio.

No início, eu sentia muitas saudades de casa. Não existia celular e telefone fixo era caro, por isso, quando queria falar com meus pais, usava orelhão. No entanto, com o passar do tempo, eu me acostumei com a distância e conquistei minha independência.

No primeiro ano, meu pai conseguiu bancar meus estudos, mas, no segundo, disse que não seria mais possível porque ainda precisava criar seus outros filhos. Minha única opção foi pedir transferência para um colégio público, estudar à noite e trabalhar de manhã. Conquistei uma vaga de ajudante no Palácio da Justiça, onde minha tia trabalhava e, durante a tarde, eu aproveitava o tempo livre para estudar.

Ao finalizar o Ensino Médio, meu sonho era ingressar em uma faculdade federal de bioquímica, mas, diferentemente do Brasil, mesmo sendo pública, era preciso pagar uma mensalidade de 200 mil Guaranis, um valor alto para a década de 90. Mais uma vez, meu pai disse que não pagaria. No entanto, eu me matriculei no curso preparatório, que acontecia durante um semestre, o qual também era pago — no Paraguai, só é permitido fazer o exame de ingresso na faculdade se você estiver matriculado no curso preparatório da instituição. Isso gerou uma briga entre mim e meu pai e nos trouxe um distanciamento por quase sete anos.

— Você já tem 18 anos — ele me disse. — Daqui em diante você precisa se manter sozinha.

Escondida do meu pai, minha mãe me ajudou a pagar as mensalidades, porém, não passei no exame de ingresso e o caminho que me restou foi trabalhar de vendedora em uma loja de bijuterias, dentro de um dos shoppings de Assunção. A empresa proibia os funcionários de estudarem, mas eu não permitiria que destruíssem meu sonho. Sem que soubessem, eu me matriculei em um curso para me tornar secretária executiva.

Como uma jovem ativa que se comunicava bem, um cliente me ofereceu um emprego de secretária em sua empresa seis meses depois, mesmo antes de eu concluir meu curso. Com 19 anos, aceitei a proposta, aluguei um quartinho e fui morar sozinha. Anos mais tarde, banquei meu curso superior, formei-me em Comércio Exterior no Paraguai. No Brasil fiz Administração de Empresas, pós em Engenharia de Planejamento - Gestão de Riscos e, enquanto escrevo este livro, estou cursando pós em Compliance e Direito Empresarial.

Apesar dos altos e baixos presenciados no relacionamento dos meus pais, eu me sentia segura dentro de casa, por isso sempre fui muito sonhadora: queria construir uma família, ter filhos e uma casa que fosse nossa. Não sonhava com uma grande festa de casamento, mas em ser mãe. Eu dizia que, se não estivesse casada até os 30 anos, buscaria alguém para ser ao menos o pai do meu filho. Aos 26 anos, quando conheci meu ex-marido, que aqui vou chamar pelo nome fictício de Gabriel, ele também não almejava um casamento luxuoso, mas formar uma família e construir um relacionamento estável.

Dois anos mais novo que eu, nós nos conhecemos no Orkut, popular rede social entre jovens nos anos 2000. Ele me adicionou porque tínhamos um amigo em comum, paraguaio, que fazia faculdade de Engenharia no Brasil.

— Cinco pessoas pediram para me adicionar no Orkut, um colombiano, um paraguaio e três brasileiros — contei ao meu amigo, Carlos, também de nome fictício. — Você sabe que não gosto de adicionar quem não conheço, mas todos são seus amigos também.

— Pode aceitar, eles estudam comigo — explicou. — Inclusive, quero apresentar você para eles.

Meses depois, vi que Gabriel estava online e decidi falar com ele para me distrair nas redes sociais. No entanto, nossa conversa fluiu de forma tão interessante que começamos a nos falar todos os dias, e a ficar cada vez mais conectados. Nós nos apaixonamos.

Eu buscava um homem que me fizesse rir, e foi justamente o que me atraiu no Gabriel. Simpático e de bom-humor, ele me passava leveza o tempo todo, era sensível, romântico e tinha 1,96m de altura que chamava atenção onde passava.

— Não conte nada para o Carlos — me pediu —, não quero que ele saiba que falo com você.

O pedido soou estranho, mas guardei segredo, apesar da culpa, pois Carlos e eu nos conhecíamos desde a adolescência. Mesmo depois que ele se mudou para o Brasil, não perdemos contato ou afrouxamos os laços de amizade que realmente eram muito fortes. Conversávamos por horas ao telefo

ne, ele me contava sobre a rotina no exterior, a nova namorada e os estudos.

Quando Gabriel decidiu me visitar no Paraguai para nos conhecermos pessoalmente, vi que era o momento de contar ao Carlos. Para minha surpresa, meu amigo ficou muito bravo comigo e se afastou por quase dois anos, sem me deixar entender o motivo daquele sentimento.

Por outro lado, meu relacionamento com Gabriel só se fortalecia. Durante um ano e meio, nós nos encontramos todos os meses, alternando viagens entre Brasil e Paraguai. Em janeiro de 2009, durante minhas férias de 20 dias no Rio de Janeiro (RJ), após ele ter passado um mês no meu país, ele me propôs casamento, um pedido que gritava “ou a gente se casa, ou a gente termina”, porque a distância era um desafio doloroso para nós dois.

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