Eu franzi a testa e falei com calma:
— Uma coisa suja. Eu não posso simplesmente não querer mais?
O peito do Ivan subiu e desceu com força, e nos olhos dele havia dor e fúria.
Ele levantou o pé e pisou naquele amuleto de proteção, esmagou com força, e riu com desprezo:
— Heloísa, você foi mimada até ficar sem coração! Você é uma ingrata, uma cobra criada!
— Não é à toa que o Enzo preferiu a Sara a você. Você...
— Ivan! — Felipe interrompeu, com um tom pesado.
Ivan, com os olhos vermelhos, me encarou por um longo tempo.
Ele queria achar no meu rosto nem que fosse um traço de tristeza ou arrependimento.
Mas o que ele viu foi só a minha expressão, parada, como água morta.
Ivan tremia de raiva, e um rosnado contido escapou da garganta dele:
— Heloísa! Esse amuleto de proteção é do Enzo, ele só te emprestou. Com que direito você joga isso fora?!
Por dentro, eu estava estranhamente em paz, e respondi, sem alterar a voz:
— Eu pago outro para ela.
A minha calma irritou Ivan de vez. Ele apontou para mim e berrou:
— Para de bancar a sonsa! Então agora você vai buscar um amuleto novo! Mil degraus de escada. Faltou um, não vale!
Felipe ia falar para impedir, mas Ivan parou com um olhar.
Era óbvio que ele também achava que aquilo era uma boa chance de me dobrar.
Meu ferimento da faca não era tão grave assim, e eles tinham certeza de que tudo aquilo tinha sido só encenação para chamar atenção.
Quando a gente chegou ao templo na montanha, fora da cidade, começou a chover.
Os mil degraus estavam lavados pela chuva, frios e escorregadios, e eu caí de joelhos, reta.
A ferida ficou encharcada na água, e uma dor aguda se espalhou pelo meu corpo inteiro.
Só que eu agia como se não sentisse nada, e repetia para mim mesma, uma vez após a outra.
Era a última vez. Eu estava só devolvendo isso ao Ivan.
Eu nem sabia quanto tempo tinha passado quando, enfim, eu consegui um amuleto novo.
Eu estava encharcada, e minha cabeça já começava a pesar, queimando de febre.
Quando eu empurrei o portão da família Saraiva, eu dei de cara com uma comemoração animada.
Sara estava cercada por todos, segurando o troféu do prêmio de Física, sorrindo como se fosse a coisa mais feliz do mundo.
E a minha presença quebrou aquele clima na hora.
Felipe foi o primeiro a franzir a testa e me repreender:
— Heloísa! Olha para você. Cadê a postura de herdeira da família Saraiva?
Os olhares de todo mundo caíram sobre mim ao mesmo tempo, com desprezo, com impaciência, e sem um pingo de preocupação.
Eu ignorei e fui direto até a Sara. Eu coloquei o amuleto na mão dela.
Sara recuou, surpresa, mas um brilho de satisfação passou pelos olhos dela:
— Helô, não faz isso... Eu não quis dizer que eu te culpo...
Eu não tive paciência para olhar para aquela cara fingida e me virei para sair.
Atrás de mim, vieram as broncas do Felipe e do Ivan.
Eu fiz de conta que não ouvi e entrei no meu quarto, tranquei a porta.
Eu abri a gaveta, peguei a lâmina que já tinha deixado pronta, e cortei meu pulso sem hesitar.
No instante em que o sangue começou a jorrar, eu senti uma leveza que eu nunca tinha sentido.
Do lado de fora, veio a batida do Christian na porta:
— Helô, abre. Eu preciso falar com você.
Eu já estava sem forças, mal conseguia abrir a boca.
A voz impaciente do Ivan apareceu:
— Deixa ela. Ela está de novo fazendo cena e bancando a coitada. Vocês mimam e ela fica cada vez pior!
Christian, no fim, não insistiu.
Os passos foram se afastando, devagar.
Eu finalmente fechei os olhos como eu queria, e a minha alma subiu, leve, leve.
Quando ela já estava no ar, a porta foi arrebentada com força.
Felipe entrou, com o rosto fechado, e atrás dele vieram Christian e Ivan.
— Heloísa, você de novo...
A frase morreu no meio.
O vermelho espalhado pelo chão entrou no olhar deles.