CAPÍTULO 2
Christian ficou paralisado, sem acreditar.

Eu soltei uma risada de deboche, passei por ele e fui até o motorista do carro preto, que ainda xingava sem parar.

— O dinheiro da indenização, eu transfiro para você mais tarde.

Christian cerrava os punhos com força, com os olhos vermelhos.

Eu me surpreendi, e logo entendi.

— Ah, eu não usei o dinheiro da família Saraiva, eu usei o que eu mesma ganhei...

— Helô!

Ele me interrompeu, no limite.

Só que eu vi, no rosto dele, um traço de mágoa.

— Você é a única filha da família Saraiva. Mesmo que eu tivesse que te dar a família inteira, eu não ia dizer uma palavra!

Eu achei ridículo, encarei os olhos dele.

— É mesmo?

O corpo dele tremeu, como se só então tivesse percebido.

Agora, a herdeira oficial da família Saraiva era Sara.

E eu, a verdadeira filha da família Saraiva, não passava de uma delirante cheia de má fama.

Eu ri sem freio, mas as lágrimas caíram.

Antes, eu vivia grudada no meu segundo irmão, e ele me levava até para as gravações.

Agora, ele só me olhava com frieza e mandava eu ceder em tudo para a Sara.

Christian me puxou de volta para o carro, com a cabeça baixa.

— Quando a Sara ganhar esse prêmio de Física, a gente anuncia que você é a herdeira da família Saraiva... Tudo o que aconteceu antes, foi só um mal-entendido...

Eu não tive paciência para responder e virei o rosto para a janela.

A paisagem do lado de fora recuava, sumia num instante.

Antes de eu atravessar para este mundo, eu era órfã.

Num exame de rotina, descobriram câncer nos ossos.

Eu estava deitada no hospital e desmaiei por causa da dor.

Quando eu abri os olhos de novo, o sistema tinha me mandado para este mundo, e eu tinha virado uma criança de seis anos.

Na minha cabeça, uma voz falou: "Quando o índice de conquista com os irmãos Saraiva e com o protagonista Enzo Xavier chegar a 80%, e você se casar com o Enzo, você ganha 100 milhões de reais e volta para o mundo real."

Depois veio um chiado confuso, a ponto de eu achar que tinha imaginado.

Mas poder viver de novo e ganhar um corpo saudável não era ruim.

O carro seguia estável, e Christian segurava meu pulso com força.

A ponta dos dedos dele roçou de leve o dorso da minha mão, do jeito que ele fazia quando me acalmava nas noites em que eu não conseguia dormir.

Como órfã, eu já tinha sido viciada nesse tipo de preferência.

Eu até pensei em desistir da missão e ficar.

Só que, quando Sara, a órfã que eu havia levado para casa, apareceu, toda a doçura virou exclusiva dela.

Eu passei de manha e birra para desespero e histeria.

E, no fim, eu só ouvi uma frase.

— Para de fazer cena. Olha o estado em que você está.

O carro parou no portão da família Saraiva. Eu soltei o pulso dele e desci.

Christian me chamou, sem acreditar.

— Helô, eu me machuquei. Foi por você...

Eu interrompi, sem expressão:

— Se machucou, vai ao médico. Para que me dizer?

Eu empurrei o portão da família Saraiva e entrei.

A primeira coisa que eu vi foi Sara no sofá, cercada por todos, como se fosse o centro do mundo.

Felipe estava com uma expressão séria e fria quando deu um soco no ombro de Enzo.

— A Sara ficou três dias sem comer direito, sem dormir direito, por sua causa. Que tipo de cuidado é esse?

Sara correu para impedir.

— Felipe, Ivan, eu estou bem. Foi tudo um mal-entendido. A gente conversou, e ficou tudo resolvido.

Eu fiquei na porta, assistindo a esse amor de irmãos.

"Hospedeira, detectei queda no seu nível de dopamina..."

O sistema falou, a voz mecânica pareceu um pouco mais baixa.

"Então, hospedeira, você agora está triste?"
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