Quando Rafaela finalmente chegou em casa, meia hora depois, Bernardo só então respondeu à mensagem.
[Não precisa. Se foi você que me pediu para assinar, então não deve ser nada que vá me prejudicar.]
Ou seja, ele nem tinha olhado.
Fazia sentido. Naquele momento, ele devia estar ocupado demais indo buscar Natacha, que tinha passado da conta, e não teria como prestar atenção em mais nada, mesmo que os papéis estivessem ali, ao alcance da mão.
Choveu o dia inteiro, e a chuva só deu trégua no fim da tarde do dia seguinte.
Rafaela passou o tempo todo em casa, excluindo em silêncio, de uma plataforma após a outra, tudo o que tinha postado sobre a vida de casada.
Quando terminou de limpar as publicações, saiu da rede social e, logo de cara, viu o novo post de Natacha. Era um mosaico com nove fotos.
As imagens tinham sido tiradas em um iate. Em todas elas, o enquadramento parecia pensado nos mínimos detalhes, sempre deixando à mostra a mão longa e elegante de um homem.
Rafaela sabia que era Bernardo. Também sabia que Natacha tinha feito aquilo de propósito. Mas, naquele momento, já não se importava mais com esse tipo de provocação.
Ela desligou o celular, levantou-se e foi para a cozinha preparar uma salada para o jantar. Tinha acabado de deixar a refeição pronta quando Bernardo apareceu de surpresa.
Ao ver o bolo que ele trazia na mão, Rafaela ficou parada por um instante antes de perguntar:
— Você não gosta de doce. Por que comprou um bolo de repente?
Bernardo se aproximou, olhou para o jantar simples sobre a mesa e franziu levemente a testa.
— Hoje é seu aniversário. Você esqueceu? — Disse ele. — E por que vai comer só isso?
Rafaela ficou sem reação.
Os pais dela se separaram quando ela tinha quatro ou cinco anos e a deixaram aos cuidados da avó. Quando chegou aos quinze, dezesseis, a avó faleceu, e desde então ninguém mais cuidou dela. Com o tempo, ela também deixou de comemorar aniversário.
Só que, nos três anos de casamento, Bernardo sempre se lembrava da data. Por mais ocupado que estivesse, dava um jeito de voltar para passar aquele dia com ela.
Quando Rafaela viajava e voltava para casa, ele se preocupava com a segurança dela e fazia questão de buscá-la no aeroporto. Quando havia tempestade, sabendo que ela tinha medo, puxava-a para os braços com toda a calma do mundo.
Rafaela achou, por muito tempo, que esse cuidado espontâneo, esses gestos de atenção e carinho, já eram uma forma de amor.
Até o primeiro aniversário de casamento.
Naquele dia, Bernardo cancelou o jantar à luz de velas, que já estava reservado, dizendo que tinha um problema na empresa.
Ela ficou arrasada, e então Renata pediu que fosse até um bar levar um casaco. Foi lá que, por acaso, Rafaela deu de cara com Natacha.
Natacha estava completamente bêbada e agarrada ao homem que, em tese, deveria estar fazendo hora extra na empresa. Ela não soltava Bernardo de jeito nenhum.
Com o rosto fechado, ele a puxou para longe, irritado.
— Natacha, para com essa merda e me solta! — Ele disparou. — O que você pensa que eu sou? Um brinquedo que você joga fora quando quer e pega de volta quando bem entende?
Natacha nem parecia ouvir. Teimosa, usou aquelas mesmas mãos que ele tinha afastado para abraçar a cintura dele de novo.
E de novo. E mais uma vez. Como se nunca fosse se cansar.
No fim, Bernardo cedeu.
Ele ficou ali, imóvel, baixou os olhos para encará-la com um amor contido que já não conseguia esconder, e a voz saiu num tom de rendição:
— Natacha, o que é que eu faço com você?
Naquele instante, a sacola que Rafaela segurava escorregou da mão e caiu no chão.
Uma sequência de lembranças atravessou sua cabeça.
As mãos entrelaçadas com força enquanto atravessavam a multidão. O guarda-chuva inclinado para protegê-la da chuva. O rapaz ajoelhado, ainda vestido com a beca da formatura, fazendo um pedido de casamento.
Cada cena era uma prova do fato de que Bernardo sempre amava Natacha.
E Rafaela tinha visto tudo com os próprios olhos. Por isso, não havia como negar.
Nem os três anos de casamento, nem o fato de ter se tornado esposa dele, nem os poucos momentos de atenção que um dia pensou ter recebido conseguiam mudar essa verdade.
Porque, no fim das contas, aquilo de bom que Bernardo dava a ela nunca tinha sido de fato dela.
Era apenas o espaço deixado por Natacha enquanto ela estava fora de cena.
Rafaela se agarrou a esses pequenos gestos e achou que aquilo bastava, como se tivesse recebido tudo.
Mas a verdade era outra. Ela nunca teve Bernardo. Nem por um segundo.
Por isso, ao olhar para o número 24 no topo do bolo, Rafaela não sentiu absolutamente nada.
Apenas baixou levemente a cabeça, com educação, e agradeceu:
— Obrigada.
Bernardo acendeu as velas e deu um sorriso suave.
— Rafaela, nós somos casados. Não precisa dizer "obrigada" desse jeito, como se houvesse distância entre nós. — Disse ele. — Faz um pedido.
Ela assentiu. Ia se levantar, mas, naquele exato momento, o celular de Bernardo tocou.
Ao notar o leve tremor no olhar dele, Rafaela já adivinhou quem estava ligando e tornou a se sentar.
E, como ela imaginava, um minuto depois a chamada terminou, e Bernardo foi embora.
O som do carro se afastando aos poucos do lado de fora arrancou dela um sorriso amargo.
A luz do quarto estava apagada. Só a chama das velas tremulava, projetando na parede a sombra solitária do seu corpo.
Rafaela juntou as mãos e fez o pedido dos seus vinte e quatro anos:
— Neste novo ano, Rafaela não vai mais gostar de Bernardo.