Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcordei com a sensação incômoda de estar sendo observada.
A luz fraca da manhã entrava pelas frestas da cortina, tingindo o quarto em tons de cinza. Levei alguns segundos para me lembrar de onde estava. Quando me virei devagar, engoli em seco. Dante estava sentado na poltrona a poucos metros da cama. Ele usava apenas uma calça de alfaiataria preta e uma camisa branca entreaberta, revelando a pele morena e as tatuagens que desciam pelo seu peito. Ele segurava uma xícara de café fumegante, me encarando com uma intensidade que fez meu sangue esquentar. — Você dorme como se não estivesse no ninho do diabo — ele disse, a voz rouca pelo sono recente. Ajeitei o lençol contra o peito, sentando-me na cama. — Eu estava exausta. E você deixou bem claro que a casa está cercada de guardas, então não é como se eu tivesse para onde ir. Dante deu um gole no café, sem tirar os olhos de mim. — Inteligente. Uma qualidade rara no seu pai. — Não fale do meu pai — sibilei, a raiva despertando instantaneamente. — Ele me vendeu. Eu sei o que ele é. Mas você... você gosta disso, não gosta? De ter o destino das pessoas na palma da sua mão. Dante colocou a xícara sobre a mesa lateral e se levantou. Ele caminhou até o meu lado da cama, descalço, seus passos silenciosos como os de um predador. Ele se inclinou sobre mim, apoiando as mãos no colchão, uma de cada lado do meu corpo, me prendendo ali. — Eu não gosto do poder, Chloe. Eu preciso dele — ele sussurrou, o rosto a centímetros do meu. O cheiro de café misturado ao seu perfume importado era quase intoxicante. — Se eu não for o mais forte neste jogo, pessoas que dependem de mim morrem. Incluindo você. — Eu não dependo de você! — Depende, sim — ele corrigiu, a voz caindo para uma oitava ainda mais baixa. — Se você sair por aqueles portões hoje, os Moretti te pegam em dez minutos. E eles não vão te dar um quarto com cama king-size ou roupas limpas. Eles vão usar você para me atrair e, depois, vão te descartar. Ele ergueu uma das mãos e, com as costas dos dedos, acariciou a linha da minha mandíbula. O toque era quente, um contraste direto com a frieza das suas palavras. Meu corpo traidor arrepiou por inteiro, e eu odiei a mim mesma por isso. — Por que você se importa? — perguntei, a voz saindo quase como um sussurro. — Para você, eu sou só uma dívida. Dante parou o movimento dos dedos na minha bochecha. Por uma fração de segundo, vi uma sombra de algo humano em seus olhos azuis — uma dor antiga ou uma dúvida que ele rapidamente escondeu. — Porque você olhou nos meus olhos e não implorou — ele respondeu, a voz carregada de algo sombrio. — Todo mundo implora, Chloe. Você me desafiou. E agora eu quero ver até onde vai o seu fogo antes de apagar. Antes que eu pudesse responder, três batidas rápidas e urgentes na porta do quarto cortaram o ar. Dante se afastou de mim imediatamente, voltando à sua postura ereta e fria num piscar de olhos. — Entre — ele ordenou. Matteo, o seu braço direito, entrou com o rosto pálido e o olhar tenso. Ele nem olhou na minha direção, focando apenas no seu chefe. — Don Rossi, temos um problema na fronteira sul — Matteo disse, baixo. — A família Moretti enviou um "presente" de aviso. E eles deixaram claro que sabem que a filha de Marco Galli está aqui. O clima no quarto mudou no mesmo instante. A atmosfera sensual deu lugar a um perigo iminente e gelado. Dante se virou para mim. O olhar dele já não era mais o do homem que tocava meu rosto há poucos segundos; era o do chefe da máfia prestes a ir para a guerra. — Vista-se — ele me ordenou, a voz como aço. — A partir de agora, você não sai do meu lado. Nem para respirar.






