Máscaras e Espinhos

O vestido preto de veludo que Elena ajustou no meu corpo parecia uma armadura disfarçada de alta-costura. Tinha um fenda profunda na perna e ombros estruturados. As diamantes no meu pescoço eram pesados — um lembrete constante de quem tinha pago por eles.

Quando desci a escadaria do salão do hotel luxuoso no centro de Milão, a conversa no ambiente diminuiu perceptivelmente.

Dante me esperava no pé da escada. Ele vestia um smoking perfeitamente cortado, com a postura de um rei prestes a reivindicar seu território. Quando estendeu a mão para mim, a firmeza de seus dedos aquecendo os meus me deu uma estranha âncora no meio daquele mar de predadores de terno e vestido de gala.

— Lembre-se do combinado — ele sussurrou perto do meu ouvido enquanto me puxava suavemente para o seu lado. — Você me ama. Você me deseja. E, acima de tudo, você tem medo do que eu faria com qualquer um que olhe para você da forma errada.

— Eu não preciso fingir a parte do medo — respondi em um tom audível apenas para ele, mantendo um sorriso elegante nos lábios.

— Ótimo. Use isso.

Entramos no salão principal sob o olhar atento de dezenas de membros do submundo italiano. Dante me guiava com a mão espalmada na minha lombar, um gesto possessivo que enviava arrepios por toda a minha coluna. Ele apresentava empresários, políticos corruptos e parceiros de negócios como se fôssemos o casal perfeito.

Até que a música mudou. E a multidão se abriu.

Um homem de cabelos grisalhos e cicatriz profunda na bochecha caminhou na nossa direção, segurando um copo de uísque. Era Mateo Moretti — o chefe da família rival.

— Don Rossi — disse Moretti, a voz rouca e venenosa. — Não achei que viria depois do... incidente na fronteira.

— Um pequeno imprevisto com insetos, Moretti. Nada que me faça perder uma festa — Dante respondeu com uma calma gélida, sem mover um único músculo do rosto.

Os olhos de Moretti se voltaram para mim, me analisando da cabeça aos pés com um desgosto mal disfarçado.

— Então essa é a famosa garota Galli? A dívida do velho Marco. É uma joia bonita, Rossi... mas dizem por aí que joias roubadas trazem má sorte.

Senti o braço de Dante tensionar instantaneamente sob o meu toque. A atmosfera ao nosso redor caiu para zero grau.

— Apenas se você tentar tirá-la de mim, Mateo — Dante falou, a voz tão baixa e perigosa que fez os guardas de Moretti darem um passo involuntário para trás. — Porque se tocar em uma única linha do vestido dela, eu não destruo apenas o seu negócio. Eu apago o seu sobrenome do mapa.

Moretti encarou Dante por longos segundos antes de dar um sorriso cínico e dar um gole na bebida.

— Veremos quanto tempo essa proteção dura, Capo.

Quando Moretti se afastou, Dante me puxou delicadamente em direção à pista de dança, ignorando os olhares curiosos. Uma valsa lenta começou a tocar. Ele colocou a mão na minha cintura e segurou minha mão livre, nos movendo pelo salão com uma graça surpreendente.

— Você quase perdeu o controle lá — murmurei, olhando nos olhos azuis dele, que pareciam uma tempestade prestes a desabar.

— Ele ameaçou você na minha frente — Dante disse, aproximando nosso corpo até não haver espaço entre nós. — Ninguém me ameaça no meu território.

— Você estava me protegendo... ou protegendo seu orgulho?

Dante parou de dançar por uma fração de segundo. Seus dedos apertaram um pouco mais a minha cintura, e a intensidade no olhar dele fez minha respiração trancar.

— A linha entre os dois está ficando perigosamente turva, Chloe.

Antes que eu pudesse absorver o impacto daquela confissão, um garçom se aproximou com uma bandeja, oferecendo duas taças de champanhe. Dante pegou uma e me entregou, pegando a outra para si.

— Um brinde à nossa aliança — ele disse, erguendo a taça.

Eu toquei a minha taça na dele. Mas quando levei o vidro aos lábios, notei um detalhe mínimo: o garçom que nos servira não usava o mesmo broche na lapela que o restante da equipe do hotel.

Meus olhos se arregalaram. Olhei para o copo de Dante, que já estava a milímetros de sua boca.

— Dante, não bebe! — gritei, batendo na mão dele e derrubando a taça no chão de mármore.

O vidro se despedaçou e o líquido espumou esquisitamente sobre o piso. No mesmo segundo, o garçom sacou uma arma de sob o avental.

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