— Neste mundo, ninguém é indispensável a ninguém. Meus pais não estão bem de saúde, e eu preciso voltar para minha cidade natal para conhecer alguém para casar. Já que o presidente Samuel aprovou o pedido, vou fazer a transição do trabalho conforme o processo. Daqui a um mês, vou embora. Obrigada pela ajuda.
Depois de desligar, Giovana voltou a arrumar suas coisas.
Ela morava naquela mansão havia três anos. Não tinha muitos pertences, mas também não eram poucos. Tirando o essencial, ela decidiu jogar fora todo o resto.
Ao ver o quarto ficando vazio pouco a pouco, ela se perdeu em pensamentos por um instante. Inúmeras lembranças vieram à tona.
Oito anos atrás, Giovana Alves, uma garota humilde de uma cidade pequena, foi admitida na Universidade H. Lá, tornou-se grande amiga de Thaís Cunha, a jovem herdeira de uma família poderosa da capital.
As duas, apesar de terem origens muito diferentes, se deram surpreendentemente bem. Assistiam às aulas juntas, comiam juntas, faziam compras juntas, passavam todos os dias grudadas uma na outra.
Aos poucos, Giovana foi se aproximando do círculo social de Thaís.
Quando conheceu sua família, acabou se apaixonando pelo irmão dela, Samuel. No entanto, guardou esse sentimento no fundo do coração, sem contar a ninguém.
Após se formar, Thaís foi estudar no exterior.
Giovana permaneceu na capital e enviou currículos até se tornar secretária de Samuel, apenas para poder vê-lo com frequência.
Até que, certa vez, aconteceu um acidente: Samuel foi drogado.
Giovana estava prestes a ligar para o hospital quando ele, incapaz de se controlar, a pressionou contra a parede, cobrindo-a de beijos intensos.
Depois de uma noite de paixão, ela acordou e o viu sentado diante da janela. Seu rosto de traços marcantes estava envolto em uma nuvem de fumaça que se espalhava no ar, calmo e solitário.
Ao perceber o movimento, ele se virou e fez apenas uma pergunta:
— Você gosta de mim?
Giovana instintivamente quis negar, mas ele continuou falando, com a expressão indiferente:
— Toda vez que me vê, você fica corada. Lembra de todas as minhas preferências e restrições. Assim que se formou, veio trabalhar como minha secretária. Não me diga que tudo isso é coincidência.
Cada uma das suas palavras, ditas com clareza, a deixou completamente corada. Sem saber se de vergonha ou culpa.
Num silêncio mortal, ele de repente lhe entregou um cartão.
— O que aconteceu ontem foi um acidente. Eu gosto de outra pessoa. Não posso corresponder aos seus sentimentos, e também não posso te assumir. A Thaís me disse que a sua família é humilde. O dinheiro nesse cartão é suficiente para você viver sem preocupações pelo resto da vida. Esqueça tudo o que aconteceu.
Giovana ficou sem reação. Só então lembrou que, na noite anterior, ele havia chamado repetidamente um nome.
Carolina. Carolina Ribeiro.
Pelas palavras de Thaís, Carolina era o primeiro amor inesquecível de Samuel. Ele a amava a ponto de, mesmo depois do término e dela ter ido para o exterior, onde rumores sobre vários namorados surgiam sem parar, ainda insistir em esperar pelo retorno dela.
Giovana se lembrou de algo que Thaís disse certa vez, enquanto se queixava:
— A nossa família é fria e insensível, mas meu irmão virou um romântico incurável. Espera há tantos anos e ainda diz que, sem ela, qualquer outra seria apenas uma substituta, e ele não quer se contentar com isso.
Ela se identificou com aquelas palavras. Pensando nisso, reuniu coragem e chamou Samuel, que já estava saindo.
— Eu não quero dinheiro. Só quero que me dê uma chance. Sr. Samuel, por favor, tente ficar comigo. Se ela não voltar... ou se ela voltar e você ainda não a tiver superado, eu vou embora por conta própria.
Diante daqueles olhos cheios de amor, Samuel ficou em silêncio por alguns segundos.
— Como quiser. — Ele disse e foi embora.
Desde então, durante o dia, Giovana era sua secretária e, à noite, sua amante.
No escritório, no carro, diante das janelas panorâmicas da mansão, incontáveis rastros de intimidade ficaram para trás.
Quatro anos se passaram e ninguém sabia da relação entre eles, o que ela aceitou de bom grado.
Até alguns dias atrás, no aniversário dele.
Giovana preparou muitas surpresas, querendo comemorar ao seu lado. Mas a noite virou madrugada, e ela não viu nem a sombra dele, só uma postagem no Instagram:
[O melhor presente de aniversário é recuperar o que foi perdido]
Samuel, que nunca postava nada, publicou uma foto beijando Carolina sob o céu repleto de fogos de artifício.
Ao ver a foto, o sangue desapareceu do rosto de Giovana. Seu peito apertou.
Agarrando-se à sua última esperança, ela ligou para ele.
Quem atendeu foi Carolina.
Depois de vários "alôs" sem resposta, ela finalmente chamou Samuel:
— Samuel, quem é essa Giovana? Está te ligando, mas não fala nada.
— Alguém sem importância. Não precisa se preocupar. Volte a dormir. — A voz grave e suave dele veio no viva-voz.
Naquele momento, Giovana soube que era hora de sair de cena. Ela arrumou suas coisas e decidiu ir embora.
Na porta, esbarrou em Samuel.
Como dormiam juntos todas as noites, ela vivia na mansão dele por conveniência. Agora, ela não podia mais ficar.
Ao vê-la carregando suas coisas, ele franziu levemente a testa, mas não a deteve.
— Já encontrou um lugar para ficar?
— Sim, o mesmo apartamento de antes. Combinei com o proprietário de alugar por um mês.
— Um mês? Por quê? — Samuel franziu levemente a testa.
Ela estava prestes a explicar, mas ele parecia desinteressado.
— Eu te dou uma carona. — Disse em voz grave.
Ela quis recusar, mas ele insistiu.
— Está nevando muito, e já é tarde. Se acontecer algo com você, a Thaís vai ficar triste.
Ela não teve escolha e entrou no carro.
Eles já haviam compartilhado momentos íntimos naquele carro inúmeras vezes. Agora, ela mal o reconhecia. A decoração com bonecos fofos, capas estampadas da Hello Kitty, lanches espalhados por toda parte...
Era difícil imaginar que alguém frio e disciplinado como ele decoraria o carro dessa forma.
— A Carolina gosta dessas coisas. — Percebendo o olhar dela, ele explicou.
Giovana entendeu o significado por trás daquelas palavras.
Após um longo silêncio, ela respondeu em voz baixa:
— Você finalmente a conquistou de volta. Sr. Samuel, fico feliz por você.
Ele não esperava aquilo. Seus olhos escureceram, mas não disse nada.
No meio do caminho, Carolina ligou, dizendo que queria fazer um boneco de neve com ele.
Ele parou o carro, querendo ir imediatamente, mas hesitou ao olhar para Giovana.
Ela percebeu o que o preocupava e abriu a porta do carro.
— Sr. Samuel, vou pegar um táxi.
Ele concordou e saiu para ajudá-la a carregar as coisas.
Sua mão escorregou e uma das caixas caiu.
Sob a luz do poste, ele se abaixou e viu tudo espalhado pelo chão. E seu corpo enrijeceu por um instante. Cartas de amor com o nome dele que nunca foram enviadas, fotos tiradas às escondidas, objetos que ele havia descartado descuidadamente e ela havia guardado.
— Desculpe. — O coração de Giovana disparou e ela rapidamente recolheu tudo.
Ele não disse nada, entrou sozinho no carro e partiu.
Giovana esperou sozinha na neve por muito tempo, mas nenhum táxi apareceu.
Ela tentou voltar para casa a pé, mas foi atingida por uma moto. Instantaneamente, um corte longo se abriu em sua perna, o sangue escorreu por toda parte e tingiu a neve.
Observando o motorista que a atropelou fugir, ela se dobrou de tanta dor. Permaneceu deitada na neve por um bom tempo, sem conseguir se recuperar.
Depois que a dor diminuiu, ela caminhou mancando por quatro horas, até finalmente chegar ao apartamento alugado.
Após tratar do ferimento, ela checou o celular e viu uma mensagem que Samuel havia enviado depois de ter ido embora:
[Daqui para frente, não se apegue tanto a alguém. Existem muitos homens por aí. Não se prenda a mim]
Giovana encarou aquela mensagem por muito, muito tempo.
Ao amanhecer, ela acendeu uma fogueira do lado de fora e queimou a caixa de coisas.
E o amor ardente que queimava dentro dela há oito anos, sem nunca se apagar, também se transformou em cinzas junto com tudo aquilo.
Samuel, farei como deseja.