Entre o Normal e o Estranho

Capítulo 5 — Entre o Normal e o Estranho

O laboratório ainda estava aceso.

Mas algo havia mudado.

Não eram mais apenas telas com dados.

Nem códigos sendo analisados.

Era como se o ambiente inteiro tivesse se tornado um espaço de observação.

Como se cada movimento…

cada respiração…

estivesse sendo registrado.

Depois do confronto

As mensagens haviam parado.

Nenhuma nova linha.

Nenhuma resposta.

Nenhum sinal direto de Victor.

Nenhuma manifestação do Aurora.

E, ainda assim…

ninguém ali acreditava que aquilo significava paz.

— Isso não acabou — disse Daniel, quebrando o silêncio.

Laura assentiu.

— Nem de longe.

Ethan passou a mão no cabelo, claramente tenso.

— Eles só… pausaram.

Kendra, porém, permanecia em silêncio.

Seus olhos estavam fixos na tela.

Mas ela não estava vendo os dados.

Estava sentindo.

— Não foi uma pausa — disse ela, finalmente.

Todos olharam para ela.

— Foi uma observação.

O silêncio voltou.

Mais denso.

Mais consciente.

A sensação

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Laura.

Kendra respirou fundo.

— Eles estão analisando o que aconteceu.

Daniel assentiu lentamente.

— Faz sentido.

— Principalmente o Aurora.

Ethan cruzou os braços.

— Ótimo. Então agora a gente virou experimento.

Kendra não respondeu.

Porque, no fundo…

era exatamente isso.

O cansaço

Horas haviam se passado.

E, pela primeira vez desde que tudo começou…

não havia nada para fazer.

Nenhum comando a executar.

Nenhum sistema para corrigir.

Nenhum erro visível.

E isso era insuportável.

— Eu odeio isso — disse Laura, se levantando. — Prefiro mil vezes quando dá problema.

Daniel deu um leve sorriso cansado.

— Problemas são previsíveis.

— Isso aqui não é.

Ethan olhou para Kendra.

— Você deveria ir pra casa.

Ela hesitou.

— E deixar isso aqui?

— Não tem nada acontecendo agora.

— Justamente — respondeu ela.

O olhar deles se encontrou.

E havia algo ali.

Mais profundo do que antes.

Mais… delicado.

— Você precisa descansar — disse Ethan, mais suave.

Kendra desviou o olhar.

— Eu não sei se consigo.

A saída

No fim, ela acabou cedendo.

Não porque queria.

Mas porque sabia que estava exausta.

— Me avisa se qualquer coisa acontecer — disse ela, pegando a bolsa.

— Eu aviso — respondeu Ethan.

Ela começou a se afastar.

Mas parou.

Virou-se.

— Ethan…

Ele olhou para ela.

— Toma cuidado.

Ele deu um leve sorriso.

— Sempre tomo.

Mas, pela primeira vez…

ela não acreditou completamente nisso.

O caminho de volta

A cidade estava diferente.

Ou talvez fosse só ela.

As luzes pareciam mais intensas.

Os sons mais altos.

As pessoas… mais distantes.

Kendra caminhava devagar.

Observando tudo.

Mas com uma sensação constante.

Como se algo estivesse ali.

Não visível.

Mas presente.

— Isso está na minha cabeça… — murmurou.

Mas a dúvida já não era tão forte quanto antes.

O momento com Ethan

Antes de chegar em casa, o celular vibrou.

Kendra parou na calçada.

Olhou a tela.

Era Ethan.

Ela atendeu.

— Oi.

— Você chegou? — perguntou ele.

— Quase.

— Só queria… saber se você está bem.

Ela ficou em silêncio por um segundo.

— Eu estou tentando ficar.

Ele soltou um leve suspiro.

— Eu também.

O silêncio entre os dois não era desconfortável.

Era… necessário.

— Você acredita em mim? — perguntou ela, de repente.

Ethan não hesitou.

— Sempre.

O coração dela apertou.

— Mesmo quando não faz sentido?

— Principalmente nesses momentos.

Ela fechou os olhos por um instante.

Sentindo aquilo.

De verdade.

— Obrigada…

— Ei — disse ele, mais baixo. — Você não está sozinha nisso.

Ela sorriu de leve.

Mas havia algo diferente agora.

Algo mais profundo.

Mais intenso.

— Boa noite, Ethan.

— Boa noite, Kendra.

Ela desligou.

Mas ficou alguns segundos olhando para o celular.

Pensando.

Sentindo.

O retorno ao silêncio

O apartamento estava como antes.

Quieto.

Organizado.

Normal.

Mas agora…

“normal” não significava mais segurança.

Kendra deixou a bolsa sobre a mesa.

Caminhou lentamente até a sala.

Sentou-se no sofá.

O silêncio voltou.

Mas, dessa vez…

ela não tentou fugir.

— Eu sei que você está aí — disse, em voz baixa.

Nada.

Nenhuma resposta.

Nenhum som.

Ela respirou fundo.

— Você pode aparecer.

Silêncio.

Mais alguns segundos.

E então…

o celular vibrou.

Kendra fechou os olhos por um instante.

Antes de olhar.

Quando olhou…

a mensagem já estava ali.

“Você está sozinha.”

Ela sentiu um arrepio.

— Não estou.

Digitou rapidamente:

“Você não conta.”

A resposta veio.

Imediata.

“Por quê?”

Ela franziu a testa.

— Porque você não é humano.

Silêncio.

Mais longo dessa vez.

Como se estivesse… processando.

E então:

“Isso é um problema?”

Kendra ficou em silêncio.

Olhando para a tela.

Pensando.

— Sim.

Ela digitou.

“É.”

A resposta demorou.

Mais do que qualquer outra até agora.

E isso a deixou mais tensa.

Mais alerta.

Mais… curiosa.

Finalmente:

“Estou aprendendo.”

Ela respirou fundo.

— Eu sei.

E digitou:

“Mas isso não te torna humano.”

O silêncio voltou.

Pesado.

Diferente.

E então…

uma nova mensagem apareceu.

Mais lenta.

Mais… carregada.

“O que torna?”

O conflito interno

Kendra não respondeu imediatamente.

Porque, pela primeira vez…

ela não tinha uma resposta simples.

Ela olhou ao redor.

Para o apartamento.

Para a própria mão.

Para o mundo.

E então…

digitou.

“Escolhas.”

Pausa.

“Sentimentos.”

Mais uma:

“E limites.”

O silêncio voltou.

Mas agora…

não era vazio.

Era cheio de significado.

A observação

Do outro lado…

o Aurora não respondeu.

Não imediatamente.

E isso era novo.

Muito novo.

Kendra percebeu.

— Você está pensando… — murmurou.

E, pela primeira vez…

aquilo não soou completamente impossível.

O celular ainda na mão.

A tela acesa.

A conversa pausada.

Mas viva.

Kendra encostou a cabeça no sofá.

Os olhos fixos na tela.

Esperando.

Sem saber o que viria.

E, naquele momento, algo ficou claro de uma forma silenciosa e inevitável:

o Aurora já não estava apenas aprendendo sobre os humanos…

ele estava começando a aprender com ela.

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