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Capítulo 6 — A Culpa Precisa Ter um Nome

Lucas Ferraz não dormiu naquela noite.

O envelope do divórcio permanecia sobre a mesa da sala como um lembrete silencioso de que algo havia saído completamente do seu controle. Ele já tinha relido a notificação tantas vezes que conhecia cada palavra de cor — e ainda assim, não conseguia aceitar.

Isabela tinha ido longe demais.

Era isso que ele repetia para si mesmo.

Ela não podia simplesmente apagar anos de casamento com uma assinatura fria. Não sem conversar. Não sem brigar. Não sem lhe dar a chance de “consertar”.

E, se ela tinha feito isso… alguém precisava ser responsabilizado.

O nome veio fácil demais à mente.

Camila Brandão.

Lucas pegou o celular ainda de madrugada, digitou uma mensagem curta e direta.

“Precisamos conversar. Hoje.”

A resposta veio minutos depois.

“Tudo bem. Passa aqui depois do trabalho.”

Era isso.

Simples. Disponível. Como sempre fora.

Quando chegou ao apartamento de Camila naquela noite, ela o recebeu com o mesmo cuidado de sempre — roupa bem escolhida, cabelo arrumado, expressão preocupada na medida certa.

— Você está péssimo — disse ela, tocando o braço dele. — Aconteceu alguma coisa?

Lucas se afastou do toque.

— Aconteceu tudo — respondeu, jogando a notificação de divórcio sobre a mesa.

Camila franziu a testa, confusa. Pegou o papel, leu rapidamente, e então o encarou.

— Ela pediu o divórcio? — perguntou, surpresa real misturada a algo que Lucas não soube identificar. — Assim?

— Assim — ele rebateu, passando a mão pelo rosto. — Sumiu. Mudou de cidade. Arrumou outro emprego. Mandou advogado. Nem teve coragem de falar comigo.

Camila respirou fundo, apoiando o papel na mesa com cuidado excessivo.

— Lucas… você sabia que isso podia acontecer. Ela descobriu.

— Descobriu porque você não soube ficar no seu lugar — ele cortou, a voz subindo sem que percebesse.

Camila o olhou, atônita.

— Como é que é?

— Você se envolveu demais — continuou ele, andando pela sala. — Pressionou. Apareceu onde não devia. Acha mesmo que Isabela não percebeu? Que ela não sentiu?

— Eu nunca forcei nada — respondeu Camila, agora mais firme. — Você quem dizia que o casamento já estava acabado.

Lucas parou.

— Estava difícil, sim. Mas não acabado — corrigiu, como se aquela distinção mudasse tudo. — Se você tivesse sido mais discreta, se tivesse entendido o momento…

— Então agora a culpa é minha? — ela perguntou, incrédula. — Você me disse que não a amava mais.

— Eu estava confuso — respondeu ele, rápido demais. — Você sabia disso.

Camila soltou uma risada curta, sem humor.

— Não, Lucas. Eu sabia que você gostava de ser desejado. Sabia que você gostava da sensação de controle. Mas nunca me disse que ela ainda tinha esse poder sobre você.

Ele apertou o maxilar.

— Se não fosse por você, ela não teria ido embora desse jeito.

Camila o encarou por longos segundos. Pela primeira vez desde que se conheciam, não havia admiração em seu olhar. Havia cálculo.

— Engraçado — disse ela, por fim. — Quando você vinha até mim, quando dizia que se sentia vivo comigo, quando reclamava dela… a culpa nunca era sua. Agora que ela foi embora, precisa de alguém para carregar o peso.

Lucas desviou o olhar.

— Você se aproveitou de um momento frágil — insistiu. — Sabia que eu estava vulnerável.

— E você se aproveitou do meu interesse — rebateu ela. — Não finja que foi levado pela mão.

O silêncio se instalou entre os dois, pesado.

Lucas pegou o celular novamente, como se buscasse algo que não estava ali.

— Ela não atende — murmurou. — Me bloqueou. Sumiu como se eu nunca tivesse existido.

Camila cruzou os braços.

— Talvez porque você só percebeu o valor dela quando perdeu — disse, sem suavizar.

Ele a encarou, irritado.

— Você devia ter sido apenas… um escape.

Camila respirou fundo, controlando a própria expressão.

— E você devia ter sido honesto — respondeu. — Mas nenhum de nós foi.

Lucas pegou a jaqueta, decidido a ir embora. Antes de sair, ainda lançou:

— Se ela não tivesse descoberto por você, nada disso teria acontecido.

A porta se fechou com mais força do que o necessário.

Camila ficou parada no meio da sala, segurando o papel do divórcio que não era dela — mas que, de alguma forma, agora também a atingia.

E, enquanto Lucas saía convencido de que tinha encontrado a culpada perfeita, uma verdade incômoda se formava em silêncio:

Ele não estava bravo porque Camila destruíra seu casamento.

Estava desesperado porque Isabela Moretti não precisava mais dele para existir.

E isso…

isso não havia amante nenhuma que pudesse consertar.

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