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CASAMENTO IMPROVISADO
A vida sempre foi uma jornada repleta de desafios, assemelhando-se a um épico indomável, cheio de reviravoltas e obstáculos inesperados. — Desde a perda de meus pais, aprendi a encarar cada dia como se estivesse atravessando uma ponte estreita, evitando olhar para o abismo abaixo, onde memórias e dor se acumulam como pedras pesadas em meu coração. Acordar a cada manhã tornou-se um pacto silencioso comigo mesma: — levantar, trabalhar, sorrir sempre que possível e evitar desmoronar diante de Allan, meu irmão mais novo. — Apesar de sua tenra idade, ele exibia uma maturidade impressionante, e era crucial manter essa fachada, pois havia alguém pequeno dependente do meu equilíbrio emocional—alguém que me via como sua única proteção. Entretanto, nunca poderia ter previsto que, apenas três meses após aceitar ajudar meu chefe em uma reunião internacional, me encontraria a caminho do altar. — Meu irmão de onze anos assumiria o papel que deveria ser do meu pai—um peso considerável sobre seus pequenos ombros. Quando Otto Prescott, um bilionário instável e controlador, assegurou a um investidor estrangeiro que eu era sua noiva, inicialmente pensei que se tratava de um mal-entendido—um artifício de negócios, uma mentira que logo se dissipa como o gelo ao calor , evaporando um ar frio na mesa de negociações. — Contudo, a realidade se impôs com a rigidez de um contrato, e jamais imaginei que esse ato impulsivo se tornaria um vínculo irrevogável. Um jantar formal à luz de velas e um anúncio público nas redes sociais não poderiam ter preparado alguém como eu para um casamento que parecia mais um jogo de tabuleiro do que o começo de uma nova vida. Agora, aqui estou, vestida de branco, uma visão cuidadosamente construída que contrasta com a tempestade de emoções internas que me consome. — Meu cabelo excessivamente arrumado e a maquiagem que mal esconde as noites em claro acumuladas na solidão não revelam o que realmente gostaria de expressar: um simples "não" que ecoa dentro de mim como uma ferida aberta. Allan segura minha mão com firmeza, agindo como se fosse o responsável pela situação—um pequeno defensor em um mundo que ele mal compreende. Ele parece sério demais para um garoto que ainda coleciona bonecos e perde meias no quarto, já imaginando o peso desse compromisso. — Seu terno, sob medida , e sóbrio para sua idade, apenas acentuava o quanto era adorável ver meu irmão afirmar que "homens importantes usam ternos assim", tornando a situação absurdamente cômica. Tento contar até dez para evitar rir, temendo que meu delineador escorra e revele um pouco mais da minha turbulência interna. — Irmã, ele é um cara legal — sussurra Allan, olhando para frente com uma seriedade exagerada, como se estivesse compartilhando um segredo profundo que apenas um menino de onze anos poderia entender, semelhante àqueles conselhos que damos em um jogo de stop. — Você acha? — pergunto, lutando para manter meu véu sob controle enquanto caminhamos, cada passo parecendo se arrastar e ecoar a mudança em nossas vidas. — Claro que é, ele nos tirou do nosso pequeno apartamento e nos trouxe para a casa dele, isso é coisa de gente boa, não é? — É como se ele fosse um herói de um conto de fadas, nos resgatando de uma realidade apertada. Respiro fundo, absorvendo a nova realidade de "casa", uma piscina maior do que nosso antigo prédio brilha sob a luz do sol, refletindo a promessa de sonhos que antes pareciam impossíveis. — Os quartos são tão amplos que mal consigo me lembrar do nosso apartamento; tudo me parece tão distante e, ao mesmo tempo, tão próximo, como uma recordação de infância. Os empregados me chamando de "senhora" com naturalidade apenas me incomodam, deixando-me com a sensação de ser uma intrusa em minha própria vida, como se estivesse vestindo uma fantasia de um papel que não é realmente meu. — Tudo isso faz parte do acordo, e tudo isso tem um prazo, como uma história que pode chegar ao fim a qualquer momento. — É — murmuro —, ele fez isso. Allan se inclina para mim, conspirando em segredo, como um pequeno escudeiro em uma batalha que ainda está além de sua compreensão. — É como se estivéssemos imersos em uma disputa sobre o que significa ser adulto e responsável. — Mas eu já avisei que não pode dormir com você antes de casar, afirmo que estarei atenta, porque você é uma moça de respeito. Quase tropeço no tapete da igreja, um símbolo de tradições que cercam este momento. — Você disse isso para ele? — pergunto, a curiosidade me levando a querer saber até onde minha tia foi em suas advertências. — Disse sim, e falei mais, que vim para ser sua guardiã, pois seus pais não estão aqui, mas eu estou, e vou guardar sua honra. Ele está em apuros, o que torna a situação ainda mais complexa. Luto para não rir em voz alta no meio da cerimônia que ainda está prestes a começar. Minha tia, sempre elegante e com um olhar que abriga segredos, ocupa a primeira fileira ao lado do marido, um homem respeitado no círculo do sheik. — Ela realmente veio para me proteger ou, no mínimo, garantir que eu não fugisse — um pensamento que faz meu coração palpitante querer explodir em risos nervosos, como uma adolescente à beira de um grande evento. — Você está feliz, irmã? — pergunta Allan, de repente, com uma sinceridade que elimina qualquer ironia, sua voz é firme, como um laço que nos une, e penso em um segundo antes de responder. O corredor parece mais longo do que deveria, um caminho que leva a um futuro incerto. — Estou porque, você está bem e está aqui comigo. Ele aperta minha mão, sua confiança inabalável me dá força, como a presença de um farol em meio à tempestade. — Essa conexão alivia o peso do mundo sobre meus ombros. — Eu também queria que o papai e a mamãe estivessem aqui. O nó na minha garganta surge sem aviso, uma onda de saudade que quase me derruba, trazendo à tona memórias dos sorrisos e risadas que nos envolveram. — Eu também, a lembrança deles é uma sombra constante que se recusa a desaparecer, como uma canção que nunca sai da cabeça. Allan endireita os ombros, como se estivesse assumindo um juramento invisível parte do seu pequeno mundo, prometendo ser meu apoio incondicional. — Mas eu tenho você, Savannah. E você tem a mim. Somos uma equipe, como heróis de um livro de histórias que ainda não foi escrito, prontos para enfrentar qualquer desafio juntos. Sorrio de verdade pela primeira vez naquela manhã, meu coração encontrando conforto nas suas palavras reconfortantes. — Vamos enfrentar isso juntos. Eu te amo, meu pequeno guerreiro. — Eu também. E vou poder continuar morando com vocês, né? — Vai, até você decidir que não precisa mais, porque essa é a beleza de crescer, de descobrir novos horizontes, levando consigo as raízes que construímos juntos. — Mas quando eu for para a faculdade, vou ter que morar lá. — Eu vou ficar de olho em você, tá bom, menino? Como um guardião que sempre estará ao seu lado. — Eu ainda nem entrei na faculdade — ele retruca, indignado, como se já estivesse lutando contra o mundo, determinado a enfrentar cada desafio que vier pela frente. Eu rio baixo, e o som se mistura com o órgão da igreja que começa a tocar, uma melodia que ecoa os sentimentos que mal consigo articular. — Finalmente, ao chegarmos ao altar, Otto se apresenta impecável, seguro e confiante, o tipo de homem que transforma decisões em estratégias e emoções em relatórios—semelhante a um executivo que sabe exatamente como lidar com cada situação. Contudo, uma parte de mim hesita; uma semente de dúvida se instala em meu coração, questionando se posso realmente confiar nele. — Ao seu lado, a madrinha do casamento—que até ontem eu conhecia apenas como amiga próxima—exibe um sorriso elegante demais para ser inocente, mas está ciente dos segredos que só irão se revelar com o tempo, e eu tal como uma historiadora aqui, sou quem guarda os mistérios de um segredo não revelado. Allan solta minha mão, mas não sem lançar um olhar fixo para Otto, como um cão de guarda em alerta. — Ele respira fundo e, sem inibição, declara em voz alta o suficiente para ecoar pelos bancos: — Eu só tenho onze anos, mas se você fizer a minha irmã sofrer, eu subo numa escada e te dou um murro na cara. Porque ninguém vai fazer a minha irmã chorar, e isso é inegociável, como um pacto de proteção que ele assume com determinação. — Um segundo silêncio se faz presente, um momento que parece congelar o tempo. Em seguida, risadas ecoam pela igreja, um som que me faz sentir que, talvez, ainda haja amor e bondade neste mundo. — Otto tenta manter a compostura, mas a ponta de sua boca trai seu esforço; ele parece momentaneamente desconcertado pelas palavras do meu irmão, e diz... — Não se preocupe, cuidarei de Savannah com minha vida. O sheik, nas primeiras fileiras, se inclina e comenta algo em árabe, reconhecendo o tom divertido. — Em seu olhar, há uma centelha de aprovação que me surpreende, e ele observa Allan com um olhar de admiração, quase paternal, como se tivesse encontrado um pequeno guerreiro em mim. Minha tia murmura algo emocionada, e o marido completa serenamente: — Nós estamos aqui. — E por um breve instante, apesar da encenação, do contrato e da mentira cuidadosamente elaborada em que estou mergulhando, sinto que talvez não esteja tão sozinha quanto pensei. Lembro-me de momentos anteriores, quando a união familiar era frequentemente marcada por risos e apoio, o que me faz acreditar que, apesar das dificuldades, laços sinceros ainda existem. — O padre inicia a cerimônia, e suas palavras ressoam como promessas formais que não me pertencem totalmente, abstraindo-se do que realmente está em jogo em meu coração. Eu mantenho o sorriso. Eu mantenho a postura. Eu mantenho o papel. — Eu disse sim, contudo, lá no fundo, um "não" ainda aguarda o momento certo para emergir, como uma chama prestes a reacender em meio às cinzas, lembrando-me de quem realmente sou e do que desejo.






