Mundo ficciónIniciar sesiónO CONTRATO
OTTO Enquanto eu observava meu reflexo no espelho, a porta do banheiro se abriu discretamente, anunciando a chegada de Dona Dora. — Savannah? — Ela apareceu atrás de mim, com uma expressão que misturava urgência e curiosidade. — Estava à sua procura. Lentamente, virei-me e cruzei os braços em um gesto defensivo. — Estou apenas tentando organizar meus pensamentos. Imagine! — Entrei em uma reunião como tradutora e saí noiva do meu patrão. Fui ao banheiro para rever mentalmente o momento em que perdi a razão. — A risada habitual de Dona Dora não veio; sua seriedade apenas intensificou a agitação em meu estômago. — O doutor Prescott está te chamando no escritório dele. Fechei os olhos por um instante e murmurei um "graças a Deus". — Ele certamente vai pedir desculpas. Avise-o que vou tomar uma água e já estarei lá. Dora assentiu e saiu em silêncio, criando um vazio perturbador, mais profundo que qualquer piada, retornei a encarar meu reflexo. — Savannah, em breve estarei livre. Vamos ouvir o pedido de desculpas e voltar à nossa vida invisível. Suspirei fundo, como se estivesse prestes a mergulhar. — Caminhei até o escritório do senhor Prescott com a dignidade que consegui reunir, considerando minha inesperada promoção à noiva internacional. Cada passo no corredor parecia ecoar mais alto que o normal, como se o prédio estivesse ciente de minha nova condição civil. Bati na porta. — Entre. A sala dele era exatamente como imaginei que a vida de um bilionário deveria ser: silenciosa, organizada de forma quase clínica, com uma vista deslumbrante da cidade e um aroma sutil de algo extremamente caro. — Sente-se, senhorita — ele disse, indicando a cadeira à frente da mesa. Sentei-me ereta, como se isso pudesse compensar minha falta de controle sobre a vida. Ele me observou atentamente por alguns instantes, avaliando-me como uma nova aquisição. — Savannah, de que? Pisquei, esperando que ele continuasse. — Como um homem pode apresentar alguém como sua noiva a um investidor internacional e nem mesmo saber seu sobrenome? — Di Pietro — respondi, mantendo o olhar dele. Ele inclinou a cabeça ligeiramente. — Italiano? — Tenho também o sobrenome do meu pai, americano, mas prefiro o da minha mãe. Ele assentiu, parecendo catalogar informações para um futuro relatório. — Precisamos fechar um acordo. — A frase soou como a porta de um carro se fechando. — Primeiro, quero pedir desculpas pelo constrangimento na reunião; fui impulsivo. Uma risada curta e incrédula escapou de mim. — Impulsivo? O senhor me promoveu de assistente a noiva oficial diante de um investidor internacional. Isso definitivamente ultrapassa qualquer limite de impulsividade. — Ele ignorou minha ironia, como se fosse um detalhe sem importância. — Infelizmente, teremos que prosseguir com isso. O ar na sala se tornou mais pesado. — O senhor tem uma namorada; por que não revelou isso ao senhor Khalil? Ele apoiou as mãos sobre a mesa, dedos entrelaçados. — Eu tenho alguém com quem me relaciono — mas não posso me casar com ela. — Por que não?! — Porque é inapropriada; nossas famílias não aceitariam e temos um relacionamento aberto. Inclinei a cabeça, avaliando-o da mesma forma que ele me avaliava. — Interesses... Então, ela não é adequada para o matrimônio, mas sim para outras intimidades? Ele quase sorriu, mas se conteve. — Você é direta, gosto disso! — Sou prática. Como pode se casar comigo sem me conhecer? Ele respondeu sem hesitar. — Justamente por isso te chamei aqui. Respirei fundo, sentindo meu coração acelerar com indignação contida. — Quer conhecer um pouco da minha vida? Então vamos lá! vou descrever a minha vida, e deixei que as palavras fluísse, firmes como quem já contou sua história muitas vezes, mas nunca a alguém como ele. — Sou órfã há um ano. Tranquei a faculdade para enterrar meus pais. Meu pai era professor universitário, matemático e físico; minha mãe, professora de ensino médio. — Vendi a casa da nossa família para custear o velório e ajudar outras famílias afetadas pelo acidente. Tenho um irmão de onze anos que depende de mim. Quando meus pais faleceram, ele tinha apenas dez. — Trabalho aqui todos os dias para que ele não caia nas mãos de parentes que poderiam destruir a infância dele, se meus pais não estão aqui eu estou. Minha voz falhou enquanto recordava esses eventos; a memória sempre trazia uma dor intensa. — Hoje descobri que estou noiva de um homem que nem sabe meu nome. Ele me encarou por um tempo, e algo em seu olhar mudou; a frieza deu lugar à compreensão. De repente, ele começou a rir. — Não era uma risada de deboche, mas de surpresa. — O senhor está rindo de mim? Ele levantou as mãos, ainda sorrindo. — Não, estou rindo porque você é espontânea, e isso é raro por aqui, e você é única. Cruzei os braços, sentindo orgulho de mim. — Minha maquiagem está borrada? — perguntei. — Não! — E minha boca está suja? — Também não. — Então, é bom que não esteja rindo de mim, porque não sou palhaça. O sorriso dele se suavizou. — Quero fazer uma proposta formal. Já não sabia se deveria rir, pedir demissão ou começar a rezar. — Seis meses de casamento, até que tudo se consolide com o sheik Khalil, meu maior investidor. Casamos, permanecemos juntos por seis meses e depois nos divorciamos, vou custear os estudos do seu irmão até a faculdade. — Além disso, vou estabelecer um fundo fiduciário para você recomeçar. — E quanto seria esse fundo? Ele respondeu sem hesitação. — Cinco milhões de dólares... Por um breve instante, imaginei meu irmão estudando na melhor universidade, vivendo em um apartamento confortável, com segurança e tranquilidade. — Contudo, uma sensação de desconforto me invadiu. — Não preciso de cinco milhões. Ele parou, atônito. — O que disse? Qualquer pessoa aceitaria esse dinheiro! — Não sou qualquer pessoa. Apenas garanta a faculdade do meu irmão até o final e me assegure que não perderei meu emprego após o divórcio. — Se não puder me manter aqui, me transfira para outra empresa do grupo e custeie minha faculdade; faltam apenas seis meses para eu concluir. Ele me estudou com um olhar que refletia uma reavaliação de riscos. — Você recusou cinco milhões? — Não estou à venda! O silêncio entre nós mudou de tom; não era mais um acordo empresarial, mas algo pessoal. — Impressionante — ele murmurou. —Mas não, é coerente. Ele se recostou na cadeira, como se tivesse acabado de fechar mais um contrato — mas agora comigo. — Fechado então! — Vou mandar os advogados prepararem o contrato. —O casamento será em três meses, e o sheik retornará nesse período para consolidar o acordo. Ele até ofereceu o hotel dele em Dubai para nossa lua de mel. Respirei profundamente e avisei. — Na nossa lua de mel, meu irmão vai junto. Ele arqueou uma sobrancelha. — Como assim? — Nosso casamento é estratégico, e não haverá intimidade. Exijo fidelidade enquanto estivermos casados, mas meu irmão é permanente, e dele não abro mão. Ele me observou por alguns instantes, avaliando se isso era uma exigência ou um princípio. — Tudo bem, fechado, e foi nesse momento que percebi que minha vida normal havia chegado ao fim. — E de algum jeito absurdo, havia acabado de negociar meu próprio casamento com a frieza de um contrato empresarial.






