####CAPÍTULO 03

O CONTRATO

OTTO

Enquanto eu observava meu reflexo no espelho, a porta do banheiro se abriu discretamente, anunciando a chegada de Dona Dora.

— Savannah?

— Ela apareceu atrás de mim, com uma expressão que misturava urgência e curiosidade. — Estava à sua procura.

Lentamente, virei-me e cruzei os braços em um gesto defensivo.

— Estou apenas tentando organizar meus pensamentos. Imagine!

— Entrei em uma reunião como tradutora e saí noiva do meu patrão.

Fui ao banheiro para rever mentalmente o momento em que perdi a razão.

— A risada habitual de Dona Dora não veio; sua seriedade apenas intensificou a agitação em meu estômago.

— O doutor Prescott está te chamando no escritório dele.

Fechei os olhos por um instante e murmurei um "graças a Deus".

— Ele certamente vai pedir desculpas.

Avise-o que vou tomar uma água e já estarei lá.

Dora assentiu e saiu em silêncio, criando um vazio perturbador, mais profundo que qualquer piada, retornei a encarar meu reflexo.

— Savannah, em breve estarei livre. Vamos ouvir o pedido de desculpas e voltar à nossa vida invisível.

Suspirei fundo, como se estivesse prestes a mergulhar.

— Caminhei até o escritório do senhor Prescott com a dignidade que consegui reunir, considerando minha inesperada promoção à noiva internacional.

Cada passo no corredor parecia ecoar mais alto que o normal, como se o prédio estivesse ciente de minha nova condição civil.

Bati na porta.

— Entre.

A sala dele era exatamente como imaginei que a vida de um bilionário deveria ser: silenciosa, organizada de forma quase clínica, com uma vista deslumbrante da cidade e um aroma sutil de algo extremamente caro.

— Sente-se, senhorita — ele disse, indicando a cadeira à frente da mesa. Sentei-me ereta, como se isso pudesse compensar minha falta de controle sobre a vida.

Ele me observou atentamente por alguns instantes, avaliando-me como uma nova aquisição.

— Savannah, de que?

Pisquei, esperando que ele continuasse.

— Como um homem pode apresentar alguém como sua noiva a um investidor internacional e nem mesmo saber seu sobrenome?

— Di Pietro — respondi, mantendo o olhar dele.

Ele inclinou a cabeça ligeiramente. — Italiano?

— Tenho também o sobrenome do meu pai, americano, mas prefiro o da minha mãe.

Ele assentiu, parecendo catalogar informações para um futuro relatório.

— Precisamos fechar um acordo.

— A frase soou como a porta de um carro se fechando.

— Primeiro, quero pedir desculpas pelo constrangimento na reunião; fui impulsivo.

Uma risada curta e incrédula escapou de mim.

— Impulsivo?

O senhor me promoveu de assistente a noiva oficial diante de um investidor internacional. Isso definitivamente ultrapassa qualquer limite de impulsividade.

— Ele ignorou minha ironia, como se fosse um detalhe sem importância.

— Infelizmente, teremos que prosseguir com isso. O ar na sala se tornou mais pesado.

— O senhor tem uma namorada; por que não revelou isso ao senhor Khalil?

Ele apoiou as mãos sobre a mesa, dedos entrelaçados.

— Eu tenho alguém com quem me relaciono — mas não posso me casar com ela.

— Por que não?!

— Porque é inapropriada; nossas famílias não aceitariam e temos um relacionamento aberto.

Inclinei a cabeça, avaliando-o da mesma forma que ele me avaliava.

— Interesses... Então, ela não é adequada para o matrimônio, mas sim para outras intimidades?

Ele quase sorriu, mas se conteve.

— Você é direta, gosto disso!

— Sou prática.

Como pode se casar comigo sem me conhecer?

Ele respondeu sem hesitar.

— Justamente por isso te chamei aqui.

Respirei fundo, sentindo meu coração acelerar com indignação contida.

— Quer conhecer um pouco da minha vida?

Então vamos lá! vou descrever a minha vida, e deixei que as palavras fluísse, firmes como quem já contou sua história muitas vezes, mas nunca a alguém como ele.

— Sou órfã há um ano. Tranquei a faculdade para enterrar meus pais.

Meu pai era professor universitário, matemático e físico; minha mãe, professora de ensino médio.

— Vendi a casa da nossa família para custear o velório e ajudar outras famílias afetadas pelo acidente.

Tenho um irmão de onze anos que depende de mim. Quando meus pais faleceram, ele tinha apenas dez. — Trabalho aqui todos os dias para que ele não caia nas mãos de parentes que poderiam destruir a infância dele, se meus pais não estão aqui eu estou.

Minha voz falhou enquanto recordava esses eventos; a memória sempre trazia uma dor intensa.

— Hoje descobri que estou noiva de um homem que nem sabe meu nome.

Ele me encarou por um tempo, e algo em seu olhar mudou; a frieza deu lugar à compreensão. De repente, ele começou a rir.

— Não era uma risada de deboche, mas de surpresa.

— O senhor está rindo de mim?

Ele levantou as mãos, ainda sorrindo.

— Não, estou rindo porque você é espontânea, e isso é raro por aqui, e você é única.

Cruzei os braços, sentindo orgulho de mim.

— Minha maquiagem está borrada? — perguntei.

— Não!

— E minha boca está suja?

— Também não.

— Então, é bom que não esteja rindo de mim, porque não sou palhaça.

O sorriso dele se suavizou.

— Quero fazer uma proposta formal.

Já não sabia se deveria rir, pedir demissão ou começar a rezar.

— Seis meses de casamento, até que tudo se consolide com o sheik Khalil, meu maior investidor.

Casamos, permanecemos juntos por seis meses e depois nos divorciamos, vou custear os estudos do seu irmão até a faculdade. — Além disso, vou estabelecer um fundo fiduciário para você recomeçar.

— E quanto seria esse fundo?

Ele respondeu sem hesitação.

— Cinco milhões de dólares... Por um breve instante, imaginei meu irmão estudando na melhor universidade, vivendo em um apartamento confortável, com segurança e tranquilidade.

— Contudo, uma sensação de desconforto me invadiu. — Não preciso de cinco milhões.

Ele parou, atônito.

— O que disse? Qualquer pessoa aceitaria esse dinheiro!

— Não sou qualquer pessoa.

Apenas garanta a faculdade do meu irmão até o final e me assegure que não perderei meu emprego após o divórcio.

— Se não puder me manter aqui, me transfira para outra empresa do grupo e custeie minha faculdade; faltam apenas seis meses para eu concluir.

Ele me estudou com um olhar que refletia uma reavaliação de riscos.

— Você recusou cinco milhões?

— Não estou à venda!

O silêncio entre nós mudou de tom; não era mais um acordo empresarial, mas algo pessoal.

— Impressionante — ele murmurou. —Mas não, é coerente.

Ele se recostou na cadeira, como se tivesse acabado de fechar mais um contrato — mas agora comigo.

— Fechado então! — Vou mandar os advogados prepararem o contrato.

—O casamento será em três meses, e o sheik retornará nesse período para consolidar o acordo. Ele até ofereceu o hotel dele em Dubai para nossa lua de mel.

Respirei profundamente e avisei.

— Na nossa lua de mel, meu irmão vai junto.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Como assim?

— Nosso casamento é estratégico, e não haverá intimidade.

Exijo fidelidade enquanto estivermos casados, mas meu irmão é permanente, e dele não abro mão.

Ele me observou por alguns instantes, avaliando se isso era uma exigência ou um princípio.

— Tudo bem, fechado, e foi nesse momento que percebi que minha vida normal havia chegado ao fim.

— E de algum jeito absurdo, havia acabado de negociar meu próprio casamento com a frieza de um contrato empresarial.

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