Yago Castilho

Passei o resto do dia em casa. Reli alguns relatórios de vendas, compra de insumos e desempenho de mercado no território nacional. As nossas vendas estão estáveis; nos últimos dez anos, os resultados são basicamente os mesmos, com pequenas variações sazonais quase irrisórias. Neste caso específico, em que queremos expandir e crescer, estabilidade não é um bom indicador. Não faz o menor sentido essa estagnação: estamos parados no tempo enquanto nossos concorrentes expandem e ganham mercado.

Mando mensagem para minha secretária, Dona Solange, convocando uma reunião para o primeiro horário de segunda-feira com toda a equipe comercial. Precisamos melhorar esses resultados e, para isso, mudanças são necessárias. Entender o que está sendo feito, como e por quê, são fatores fundamentais nesse processo. A equipe atuante conhece o mercado, os clientes, os concorrentes e o trabalho em si; ou seja, são o melhor caminho para entendermos o nosso cenário e agir de forma enérgica e eficaz nas mudanças. Minha equipe sempre tem voz ativa em todo processo de transformação. Eu trabalho com colaboração, não sou um ditador — e isso agrada a alguns e irrita a outros. Fora isso, mesmo sendo CEO, ainda não tenho a palavra final dentro da empresa, e por isso todo projeto precisa ser feito com calma e cuidado, pois depende do aval do conselho. Uma merda!

Já são quase vinte e uma horas quando decido que chega de trabalho. Tomo um banho prolongado para relaxar meus músculos e limpar o dia de merda que tive. Nu, caminho para a cozinha e como a lasanha maravilhosa que a Maria, minha cozinheira, deixou para mim no forno. Só depois de muito bem alimentado vou me trocar para ir à tal inauguração — que espero não ser um desperdício do meu tempo.

Combinei com o Thiago e com o Rafael às vinte e três horas na Nova Era. Decidi pegar um Uber porque hoje quero beber todas. Já na boate, observo do lado de fora a fila que está quilométrica. Nem ferrando vou entrar nela. Eu sou Yago Castilho, porra! Não tenho tempo para filas. Pego meu celular do bolso traseiro da calça e mando uma mensagem para o Thiago. Ele é namorado da dona, deve ter um jeito mais rápido de entrar no lugar. Sim, amigos são para isso, e eu não tenho nenhuma vergonha de dar algumas carteiradas por aí.

Yago: Cheguei!

No mesmo minuto vem a resposta:

Castrado: Aow, princesu... Seu nome tá na lista, é só falar pro segurança, um gigantesco que deve estar na porta.

Castrado: Já tô aqui dentro, área VIP do segundo ambiente.

Castrado: Vem, neném!

Idiota! Pelo menos não vou precisar enfrentar a fila. Argh... Deus me livre! Sem chance. Se fosse o caso, eu iria para outro lugar.

Vou até o tal segurança que está na porta. O cara é enorme, parece um armário embutido daqueles que você precisa de uma escadinha para alcançar os pontos mais altos — e olha que eu sou grande, tenho 1,92 m, mas mesmo assim o tamanho do cara me assustou. Com cara de mau-humorado, o projeto de Hagrid me mede de cima a baixo.

— Boa noite. Estou na lista, Yago Castilho. — Tento ser simpático, mas não sei se funciona, já que, sem me dirigir uma única palavra, ele consulta algo no tablet que está em suas mãos. Balança a cabeça, abre caminho e indica que minha entrada está liberada. Será que ele é mudo? Passo por ele e sigo pelo caminho indicado.

O lugar é grande. Na entrada há uma espécie de guarda-volumes onde um rapaz e uma moça muito bem-arrumados e sorridentes guardam casacos, capacetes e outros pertences dos clientes. Sigo por um corredor largo, com paredes espelhadas e iluminação baixa. Nele já é possível escutar a música — e a música que toca, com toda certeza, é o bom e velho sertanejo.

No final do corredor está o salão, que é enorme. No centro, é possível ver um bar estilo 360º, todo em preto, dourado, muito vidro e espelhos em todas as direções. Acima do bar, há um palco onde a dupla está tocando para uma plateia bem animada que canta junto com eles. Nas laterais, em um nível mais alto, vejo os camarotes que proporcionam uma visão aberta da pista em volta do bar. Na altura da pista, também nas laterais, existem algumas mesas mais altas onde pessoas bebem e conversam. O teto é um grande espelho; é hipnotizante a visão panorâmica que ele proporciona. O ambiente é moderno e muito elegante. Perto dos camarotes do lado esquerdo, identifico as escadas e um elevador que, ao que tudo indica, levam para o segundo ambiente, onde Thiago disse que iria me esperar.

A proposta do local é bem interessante, propiciando ambientes e estilos distintos para os mais variados públicos. Hoje, no segundo ambiente, haverá a apresentação do DJ Alok, o que sem dúvidas é bem mais o meu estilo do que a galera do chapéu que canta a todo pulmão no primeiro ambiente. Pensando bem, depois de um pouco de álcool na minha corrente sanguínea, topo qualquer música e estilo; posso inclusive descer até o chão se valer o investimento — treino de perna na academia serve para isso.

Quando chego ao segundo ambiente, fico chocado. É sério: já fui a muitas festas e boates, mas nunca vi nada igual. A namorada do Thiago mandou muito bem, preciso admitir. A pista é toda de vidro. Lá de baixo eu não tinha percebido esse detalhe, já que não há visão do ambiente superior, mas daqui a vista que a pista oferece de todo o pavimento inferior é incrível, e isso é bem impactante, devo dizer. Aqui de cima é possível ver absolutamente tudo o que acontece lá embaixo — muito legal e um pouco apavorante. As paredes em volta, de fora a fora do ambiente, são de vidro, o que possibilita ver o lado externo da casa noturna: as ruas movimentadas, a cidade, o céu... Tudo isso sem a interferência dos barulhos que a cidade grande proporciona. Localizo dois bares grandes, um em cada lateral do salão, e em cima deles os camarotes da área VIP, que conta com visão direta do palco onde um DJ já anima o pessoal.

De longe, vejo Thiago com uma loira baixinha. Essa deve ser a Sophia. Os dois namoram há alguns meses e eu ainda não a conheço pessoalmente, mas já fui presenteado com um zilhão de fotos que o capado do meu amigo insiste em exibir por todo lugar: redes sociais, aplicativo de mensagens, escritório, apartamento... Enfim, overdose da loira por todo lado. Vou até eles no camarote e tenho minha passagem liberada pelo segurança. Thiago logo me vê e vem me cumprimentar. Não somos aquele tipo de homem que não se toca; somos amigos há tanto tempo que abraços são bem normais e não somos menos homens por isso.

— Finalmente... Achei que a beldade não ia chegar nunca! — fala enquanto me solta do abraço de urso.

— Não chora, Thiago. Seu macho chegou. Não preciso de declarações de amor públicas, eu já sei que você me ama e que cada segundo longe de mim e do meu corpinho sensual é um martírio — falo com ar de tédio.

A loira dá uma risadinha meio tímida enquanto acompanha nossa conversa fiada. O idiota do meu amigo tem bom gosto: a loira é baixinha, mas é gata demais. Desvio os olhos do Thiago e me concentro nela. Pego sua mão e deposito um beijo no melhor estilo Don Juan — afinal, que amigo seria eu se não desse em cima da namorada dele na mais pura zoação?!

— Muito prazer, princesa. Sou o Yago, o mais gato e modesto do trio. Desculpe a falta de educação do Thiago; ele foi criado por bárbaros que só sabem interagir por meio de computadores e não adquiriu a mínima educação — finalizo com uma piscadinha para ela, enquanto meu amigo bufa ao meu lado e passa um braço possessivo pela cintura da mulher, revirando os olhos.

— Sophia, meu bem, esse insuportável é o Yago. Não fale muito com ele, ele não é digno!

— Oi, Yago, muito prazer. Espero que goste da Nova Era e que você se divirta muito — responde sorridente enquanto me cumprimenta. Ela é superdelicada; jamais pensaria nessa mulher como dona de uma boate.

— Princesa, eu já estou curtindo cada minuto desta noite. Afinal, ter a companhia de uma linda mulher melhora meu humor. Se enjoar do idiota aí, sabe onde me encontrar — falo e pisco para a loirinha.

— Não fode, Yago! Vai procurar uma mulher para você e deixa a minha em paz! — Acho que tirei o Thiago do sério. O idiota sabe que é provocação, mas cai na pilha mesmo assim. Sorte dele que tenho mais o que fazer, e ficar tirando ele do sério hoje não é como quero passar minha noite toda.

Rindo da cara de paspalho do meu amigo ciumento, resolvo analisar o que a noite me reserva. Olho em volta, prestando atenção aos demais, e vejo, no mesmo camarote, uma linda criatura bebendo um drink colorido. Pele negra, vestido claro que deixa pouco para a imaginação. Sou brindado com um cumprimento da beldade e me animo rapidinho. Percebendo a interação à distância, Sophia abre espaço e nos apresenta:

— Ah! Betina, esse é o Yago, amigo do Thiago. Yago, essa é a Tina, uma das minhas melhores amigas. Já, já a Ailim vem para cá também para ficar conosco. — Ela dispara a falar, mas eu me concentro no pedaço de mau caminho à minha frente.

— É um prazer estar em um lugar agradável e rodeado por beldades. Muito prazer, Betina. — É claro que dei ênfase na palavra prazer, porque é exatamente isso que eu quero no final da noite. E talvez já tenha encontrado meu alvo, o que é ótimo, já que assim ficaremos todos entre amigos. Vivaaaa...

Estendi minha mão, cumprimentando-a enquanto a examinava de cima a baixo, já que a beleza negra resolveu me presentear com um grande espetáculo se levantando do sofá no qual estava sentada. Meus amigos, a minha noite acabou de melhorar! A mulher é um avião, daqueles com cara de quem sabe o que quer e como fazer gostoso... Beeemm gostoso. Não perco tempo e logo engatamos uma conversa sobre a boate e nossos trabalhos. Mais uma surpresa: a gostosa é médica, inteligente, tem um ótimo papo e adora flertar tanto quanto eu.

Quase uma hora depois, nosso outro amigo chega. Sério como sempre, nos cumprimenta, pega um uísque e, para variar, permanece calado enquanto analisa tudo atentamente ao seu entorno. Sim, o Rafael é desses. Sinceramente, não sei muito bem como nós três somos amigos — extremamente diferentes um do outro e, ainda assim, temos uma parceria inabalável. Rafael é engenheiro de software, irmão da minha única ex, e ficou do meu lado em um dos piores momentos da minha vida. Ele e o Thiago foram meus escudos, meus apoios, e desde então confio tudo a eles. Só confio neles para falar a real!

Vejo que Betina muda seu foco: ela analisa com muito interesse o Rafael. É, o infeliz do japonês roubou a atenção da beldade. Deve ser curiosidade para comprovar se japa tem mesmo a ferramenta pequena — o que, para meu azar, não é verdade. Oxe, claro que já vi a ferramenta do japa. Somos amigos desde sempre e passamos por aquela fase do "me mostra o seu que eu te mostro o meu", "pega a régua"... Idiotices de adolescentes. Não que tenhamos mudado muito, mas... Vamos ao que importa: eu, como o homem sábio que sou, sei identificar quais batalhas valem a pena lutar e quais estão perdidas. Pela cara da Betina, essa eu perdi. Foda, o japa tá na moda e a mulherada pira nos olhinhos rasgados e na cara de "vou foder sua vida" dele. Saio de campo, peço licença. Já bebi não sei quantas cervejas e preciso urgente de um banheiro; é atrás de um que eu saio.

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