Mundo de ficçãoIniciar sessãoO restante do dia foi dedicado a nós, bem ao estilo "Clube da Luluzinha", sendo o tio Carlos o presidente interino da irmandade das Luluzetes — ou, como ele diz, das Carlizetes.
Eu amo meu tio e serei eternamente grata por tudo o que ele fez e ainda faz por mim. Fui criada por ele desde os meus dez anos; foi o único parente que me quis depois que minha mãe foi tirada de mim da pior forma possível. Eu era uma bomba prestes a explodir e ele me dedicou todo o seu amor — por mais maluco que fosse —, carinho e cuidado. O salão de beleza do tio Carlos é um dos mais famosos e disputados pelas mulheres da região, localizado a poucas quadras da Nova Era e a quinze minutos da delegacia pela qual sou responsável. Quando Sophia e eu chegamos ao salão Requinte, a gangue já está reunida à nossa espera, mesmo com o salão a todo vapor. Meu tio está impecável, como sempre: lindo, estiloso e elegante com sua calça ajustada marsala e uma camisa de botões preta dobrada nos punhos. Betina foi direto do hospital onde trabalha desde a formatura e, mesmo depois de um plantão de mais de doze horas seguidas na emergência, estava animada e com cara de quem pretendia aprontar todas e mais algumas esta noite. Quando me viu, tio Carlos nem me deu tempo e veio esbravejando até mim, com o dedo apontado, completamente esbaforido: — Ailim! Por que não respondeu às minhas mensagens? — Com um suspiro e cara de desespero, ele continua, colocando a mão no peito como se sentisse dor: — Quer me matar do coração, garota? Depois que me matar, não venha chorar no meu túmulo. Garota ingrata! — Finaliza empinando o nariz e me dando as costas em um giro dramático. Eu já cheguei levando bronca. Devido à mágoa e apreensão na voz do meu tio, fiquei imediatamente preocupada, já que, ao conferir meu celular, me dou conta de que ele me mandou pelo menos umas vinte mensagens. Nem me dei ao trabalho de lê-las. — Desculpe, tio. Estava ajudando a Sophia na Nova Era, não vi as mensagens. Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem? — perguntei enquanto abria a conversa para conferir o que ele queria e me antecipar. Tio Carlos me dispensou com a mão, fazendo cara de desdém e me olhando de lado antes de responder, com a voz calma desta vez: — Que nada, querida. Só queria saber se vocês estavam vindo, para garantir que minhas meninas seriam as rainhas absolutas e magnânimas da noite. O mundo precisa ver a minha arte, aceite! — Finaliza sorrindo, como se não tivesse acabado de me dar uma bronca gratuita. Olho indignada para o tio Carlos: — Vou mandar seu currículo pro SBT! As novelas mexicanas estão perdendo um ótimo ator — e olha que nome de astro latino o senhor já tem! — Agora quem bufa sou eu, batendo o pé direito no chão em uma birrinha calculada. — Depois ainda diz que é você quem vai morrer do coração, né?! — Aponto para o sem-vergonha de forma acusatória. Todos em volta gargalham da nossa interação levemente dramática — e olha que nem somos gregos. Depois do episódio da bronca sem fundamento, saí cumprimentando todo mundo no salão. Eu cresci ali com eles, que viraram, de alguma forma, minha família. Afinal, todo mundo cuidou de mim pelo menos um pouco; alguns me viram crescer e sei que todos adoram meu tio — e isso, para mim, é definitivamente o mais importante. Ele é importante. Lá o tratamento foi completo: pé, mão, sobrancelha, cabelo, maquiagem, massagem nos pés... Saí revigorada. Acho que estava precisando desses cuidados. Já estava escurecendo quando nos despedimos de todos e optamos por pegar alguns hambúrgueres antes de ir para o nosso prédio, ver os tais "modelitos" e finalizar a produção para irmos juntas para a boate. Nós três moramos no mesmo prédio, num bairro vizinho ao do salão. Decidimos, alguns anos atrás, comprar os apartamentos ainda na planta e faz pouco mais de um ano que nos mudamos. Amo tê-las sempre pertinho, ainda mais com nossos horários malucos de trabalho. Como os bairros são vizinhos, o deslocamento é bem rápido. Já devidamente alimentadas e de banho tomado, é hora de respirar fundo, pedir ajuda para todos os santos e deuses e finalmente averiguar as roupas que Sophia escolheu para a gente. Ela sai do closet com algumas sacolas de uma das nossas lojas favoritas, feliz demais para a minha sanidade mental. — Não faz essa cara, Tochinha — ela fecha a cara para mim ao ver meu desespero. — Você nem abriu as sacolas ainda e já está com cara de quem vai vomitar — estende as sacolas para mim, praticamente enfiando-as no meu peito com o cenho franzido, ação que não se repete quando entrega as sacolas para a Tina, já que para ela é oferecido um sorriso grande e brilhante. Chatas! — Amiga, ainda não aprendeu que a nossa delegata morre de medo de ficar sexy demais e ganhar alguns fãs levemente embriagados?! — Tina intervém, sem perder a oportunidade de me alfinetar. Fazendo cara de indignada, respondo de prontidão, me metendo na interação das duas: — Não fode, Tina! Primeiro: eu gosto de me sentir sexy, sim, mas quero estar coberta o suficiente para poder respirar, dançar e simplesmente poder andar — coisas que alguns looks de vocês não permitem. Segundo: eu realmente não quero fãs, muito menos fãs bêbados e inúteis. Enquanto respondo à minha amiga, aproveito para matar minha curiosidade. Com medo do que irei encontrar nas sacolas, vou abrindo-as lentamente para finalmente conhecer o conteúdo. Nesse meio-tempo, Betina já está dando gritinhos de alegria enquanto sacode um vestido nude todo em paetê. — Eu ameeeeeiiii... Obrigada! Você é definitivamente minha amiga preferida! Sophia, sorrindo, me olha de canto enquanto responde: — Eu sou demais mesmo! Pelo menos você reconhece meu valor, Tininha cabritinha. Rimos com o apelido. Quanto à questão da "amiga preferida", sei que é zoeira. Nós três nos amamos igualmente, não há mais ou menos entre nós. Sempre fazemos esses comentários para irritar uma à outra, mas, no final, não há segredos nem preteridas. E só por isso — e pelo medo iminente do que serei obrigada a usar hoje, porque não se iludam: eu gostando ou não da roupa, irei usá-la —, engulo o seco. Eu sou a que tem porte de armas aqui, mas também sou a que menos assusta nós três. Além do mais, já disse que não consigo falar "não" para as infelizes que chamo de amigas. Tomo coragem e olho para o conteúdo das sacolas nas minhas mãos, rezando aos céus por piedade. Encontro um vestido preto de couro, de mangas longas e com um profundo decote nas costas, onde correntes finas e pretas ligam as laterais, o que dá um charme muito especial à peça. O vestido é curto para os meus padrões, mas é lindo e se molda perfeitamente ao meu corpo. É... Preciso admitir: eu estava errada. Desta vez, a Sophia arrasou. Eu amei. Queria pelo menos mais três dedos de tecido, mas nada que deixe o vestido menos maravilhoso e confortável. Encontro também uma sandália pink de saltos finos, com delicadas fitas que se prendem aos tornozelos formando um laço estruturado e charmoso. Simplesmente maravilhosa, não há como negar. Nos trocamos e, depois de prontas, avalio minhas amigas com calma... Minha nossa, elas não estão menos do que maravilhosas! Sophia usa uma saia lápis branca, justa e de cintura alta, um top roxo de alças finas com um laço enorme no busto e sandálias superaltas e douradas. Os cabelos loiros na altura da cintura estão ondulados e soltos, e a franja de lado destaca seu rosto pequeno em formato de coração, marcado pelos doces olhos castanhos. Ou seja: ela está no seu melhor estilo Barbie, lindíssima. Já Betina, com sua pele negra, fica perfeita no vestido nude de paetês, supercurto, do jeitinho que a demônia gosta. Os cabelos cacheados e volumosos emolduram o rosto forte de mulher decidida; os lábios cheios estão ainda mais destacados por seu famoso batom vermelho. Tina é aquele tipo de mulher que transpira sensualidade, se veste para matar, inteligente, confiante e dona de si. É... Meus amigos, não tem para ninguém! A nossa médica arrasa demais, e ela sabe disso! Para completar, a criatura está com um scarpin preto de sola vermelha. PERFEITA que fala, né?! Homens, preparem-se, porque a Tina está armada e não tem medo de usar sua artilharia contra nenhum de vocês. Ela é a nossa atiradora de elite e só vai para campo quando quer ganhar a partida. Tenho muito orgulho das minhas meninas; elas são verdadeiras forças da natureza e eu as amo demais. Enquanto avaliamos a produção uma da outra, o celular da Sophia toca e a baixinha sai correndo para atender. Pela musiquinha melosa do toque — "Anjo", do Armandinho —, só pode ser o Thiago, namorado dela. Vi o cara umas duas vezes, mas Sophia parece estar bem apaixonada, e se ela está feliz, nós estamos felizes também. Claro que, sendo delegada, levantei a ficha toda do cara, e ele só foi previamente aprovado porque o histórico dele estava limpo. Qual é?! Eu preciso proteger minhas meninas. — Oi, Panda! — Ela atende a ligação empolgada. Eu e Tina nos olhamos sem entender esse papo de "Panda". Que porra é essa?, perguntamos uma para a outra sem emitir som. — Já estamos saindo, a gente se encontra lá, ok? — Ela pausa um pouco enquanto olha para um ponto fixo, com cara de quem está sonhando. — Claro, os nomes de vocês já estão na lista VIP, é só informar na portaria. — Ela suspira e se senta no sofá toda derretida enquanto escuta o que ele diz. — Obrigada, significa tudo para mim. Até mais, já estou morrendo de saudades. Ela desliga e fica com o celular apertado contra o peito, na altura do coração. Os olhos da nossa bichinha estão marejados. Sophia é a romântica do trio e tenham certeza de que esses suspiros e esse olhar vidrado e perdido significam que, em sua cabecinha, ela já está planejando o casamento, a cerimônia, o vestido, o nome dos filhos, a quantidade de cachorros, onde vão morar e por aí vai. Tenho certeza de que até a foto de família de margarina ela consegue visualizar. — Panda???? — perguntamos juntas, enquanto seguramos a risada. Sophia morde o lábio inferior, balança os ombros como quem diz "danem-se" e explica: — Pandas são fofos, bonitos, adoram abraçar e todo mundo quer um. O Thi é o meu Panda. Ok, não deu para segurar a gargalhada. Eu e Tina nos rendemos a ela sem dó nem piedade, enquanto nossa amiga fica vermelha e sai pisando duro pelo apartamento. Ela é tão fofinha, parece um pinscher irritado. — Vamos logo, antes que eu jogue as duas pela janela! — esbraveja para a gente, enquanto nos curvamos em gargalhadas que se propagam pelo apartamento todo.






