Mundo de ficçãoIniciar sessãoMeu dia está uma loucura, maior que o normal.
Mesmo sem plantão na delegacia, ajudar a Sophia com a inauguração da Nova Era está sendo bem corrido e cansativo. Fora que aqui tem muito do que desprezo... Muita bebida, muitas pessoas que ficarão bêbadas, sem pudores ou inibições, o que sempre resulta, consequentemente, em confusão. Muita confusão! Entendam: não é chatice da minha parte, mas, como delegada e ex-policial militar, vi por anos os resultados dessa combinação. Ou seja, presenciei a verdadeira receita para o caos e muito trabalho para mim e minha equipe. Além disso, vivi na pele o quão destruidor o uso de álcool em excesso e a perda de inibição podem ser para uma pessoa e até mesmo para famílias inteiras. Mas, mesmo odiando tudo isso e o que representam, eu sou uma boa amiga — na verdade, sou uma amiga maravilhosa — e estou aqui, apoiando e carregando caixas e mais caixas de bebida. Tudo para que esta noite, esta inauguração, seja memorável. A Sophia trabalhou muito para isso; ela merece minha ajuda. Somos amigas desde a infância, quando ela e a Betina me defenderam de algumas crianças na escola. Eu era a aluna nova, esquisita e quieta, tinha acabado de perder minha mãe, estava completamente à deriva e me sentindo sozinha. Naquele dia, quando me protegeram, elas me salvaram de várias formas e se tornaram minhas irmãs. Eu faria qualquer coisa pelas duas, e a prova é justamente euzinha agora, carregando caixas gigantescas de bebida no meu dia de folga. — Tochinha! — Estou empilhando a milionésima caixa quando escuto a Sophia me gritar, enquanto entra no depósito de bebidas da boate. Ela e a Tina me chamam assim desde o primeiro dia, tudo porque, quando nos conhecemos, eu estava no auge da minha pré-adolescência — aquela fase ingrata de transição em que tudo o que somos se resume à palavra "esquisita". Eu era extremamente magra, usava aparelho dentário e, vamos combinar, ser ruiva não contribuiu em nada para que elas desistissem do apelido. Segundo elas, eu realmente parecia uma tocha olímpica: fininha e sempre pegando fogo... Elas me amam. — Tô aqui, Barbie! Quero deixar claro que te odeio mais a cada caixa que carrego. Seu saldo está quase negativo, gatinha — respondo alto para que ela me encontre, e funciona, já que a baixinha vem na minha direção. — Você me ama, esse meu saldo positivo com você é eterno, não se iluda — responde sorrindo para mim. Ela está feliz de verdade e eu amo vê-la assim. Quem vê essa carinha angelical mal sabe a maluca cheia de garras afiadas, supercompetente e decidida que a Sophia é. Limpo minhas mãos suadas no jeans velho que estou usando e fico encarando minha amiga, esperando o golpe. Porque ela não me engana — não quando usa esse sorriso de quem vai aprontar comigo. — Larga essas caixas! Os rapazes vão terminar isso, porque a gente tem outro compromisso — ela praticamente cantarola a última parte, e eu já antecipo o desespero, porque Sophia animada é sinônimo de Ailim ferrada. Levanto a sobrancelha e continuo a encarando, desconfiada. Tenho medo do que vem pela frente e, por isso, adio o inevitável, evitando perguntar o que ela quer dizer, torcendo internamente para não ser nada estapafúrdio. Vendo que não vou perguntar, ela muda a cara de expectativa para uma bufada baixa e um bico digno de registro, antes de continuar: — Calma, garota! Amigaaaa... Aff! Esse negócio de delegada está te deixando ainda mais desconfiada e bem assustadora. Confia em mim, eu hein. — Ela franze o narizinho pequeno. — A Betina ligou e está nos esperando no salão. Hoje é dia de ficarmos ainda mais maravilhosas para a inauguração. Vendo minha cara de "não, por favor", ela amplia o beicinho, irritada, levanta o queixo pequeno, aperta os olhos em sinal de advertência, coloca as mãos na cintura e continua: — Sem protestos, Ailim! Quero vocês deslumbrantes hoje ao meu lado. Tudo tem que ser perfeito e vocês são a minha família. Colabora e faz sua amiga maravilinda feliz! Ela nem espera uma resposta e sai me puxando pela mão. A nanica é forte. Dito isso, vamos esclarecer alguns pontos: eu sou vaidosa, gosto de estar bonita e bem-arrumada, mas tudo do meu jeito, sem exageros. A questão é que, quando Sophia, Betina e tio Carlos se unem para atormentar minha existência, eu me sinto uma verdadeira boneca de cera: supermaquiada, megaproduzida, hiperdecotada... Eu deixo de me sentir eu mesma. Eles me tiram totalmente da minha zona de conforto, o que me irrita, pois eu não só gosto, mas preciso estar no controle SEMPRE. Não estar no controle me assusta, me põe na defensiva. Eu programo tudo; toda a minha vida é planejada e estruturada, incluindo meu visual, porque preciso ter certeza de quem eu sou. Enquanto sou arrastada, respiro fundo, tentando controlar meu humor, que já foi pras cucunhas. Conto até dez enquanto olho para a Sophia com carinha de determinada. Mentalizo que hoje é o dia especial dela e que eu não tenho o direito de arruinar isso. Tenho certeza de que o dia de hoje renderá inúmeras sessões com o meu psicólogo — ele agradece, inclusive. Derrotada, suspiro alto para deixar claro que estou desconfortável, mas não consigo negar nada para ela. Não hoje. Aff... Eu raramente consigo negar algo para as duas, e elas sabem e se aproveitam disso. Intimidade e amor são fodas! — Tá bom, eu vou, mas sem exageros! Quero sair de lá sendo eu, e não uma versão artificial de mim, ok? Mal termino de falar, ela larga minha mão e se vira em um pulo digno de um bebê canguru bem ágil. Logo sou escalada, agarrada e beijada por uma Sophia muito contente, que dá gritinhos estridentes de felicidade, arrancando gargalhadas sinceras de mim. — Vamos logo, então! Não vejo a hora de ver você e a Tina lindas, produzidas e com os modelitos perfeitos que escolhi para vocês — ela me larga, pisca e sai em disparada rumo ao estacionamento da Nova Era. Aff... Eu estou muito lascada mesmo. Saio correndo atrás dela, desesperada. — Nanica... Meu "mo-de-li-to"? — Falo pausadamente, fazendo aspas com os dedos para ela entender, enquanto tento alcançá-la. As perninhas da criatura são curtas, mas a bichinha parece o Papa-Léguas de tão ligeirinha quando quer fugir da gente. — Sophia... Me diz que dessa vez esse look vai ter tecido suficiente, sim...? Pelo amor de Deus, não me venha com nada nem remotamente parecido com aquele último, que mal servia em uma criança de dez anos! Eu não tenho mais essa idade nem estrutura corporal... Por favor, eu nunca te pedi nada, Barbie! — Junto as mãos implorando por misericórdia, mesmo sem acreditar no bom coração da vaca que chamo de amiga. Ela me dispensa com as mãos, sem nem se virar na minha direção, enquanto destrava e entra no carro. — Relaxa, amiga, você vai ficar linda. Quando foi que te decepcionei? — Antes que eu a responda, ela intervém: — Não responda, engraçadinha... Só confia em mim! Agora entra logo, porque temos horário! E assim, com um enorme sorriso naquela cara deslavada, ela me arrasta rumo ao salão do meu tio, para o início da minha tortura. Que Deus me proteja e que os jogos comecem!






