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Capítulo 4 - Killian, o herdeiro de Dublin

Dizem que o primeiro ano é o mais difícil para um herdeiro. Dizem que o sangue ainda quente do pai no túmulo atrai os tubarões. Eles estavam certos. Durante doze meses, tive que ensinar a Dublin que o luto, para um Black, não se faz com lágrimas, mas com pólvora e silêncio.

Meu nome é Killian Black.

Há pouco mais de um ano, eu era apenas o "filho do velho". Hoje, sou o motivo pelo qual meus inimigos verificam embaixo do carro antes de dar a partida. Eu não pedi por este império, mas eu o tomei. Limpei as ruas da Irlanda da imundície que meu pai permitiu que crescesse e transformei o Clã Black na engrenagem que faz aquele país girar. Eu não governo pelo caos; o caos é para amadores. Eu governo pela ordem. E a minha ordem é absoluta.

Mas agora, Dublin ficou pequena para o meu alcance.

Desembarcar no Rio de Janeiro vindo do ar gelado da Irlanda é como levar um soco de umidade no peito. É como se eu estivesse bebendo água pelo nariz a cada trago de ar. Mal cruzei o portão da área VIP e minha equipe de segurança já havia montado um perímetro: rostos conhecidos e armas ocultas sob ternos sob medida.

A reunião fora transferida para a zona portuária, em uma das ruelas mais decrépitas da cidade. Detesto mudanças de última hora; no meu mundo, imprevistos cheiram a emboscada. Mas, sem alternativa, ordenei o deslocamento. Esta cidade é um paradoxo sangrento. No meio da miséria que escorre pelas calçadas, há uma alegria irritantemente simples. Uma vida que eu nunca conheci.

Chegamos a uma carcaça de alvenaria antiga — o esconderijo perfeito para pecados. Lá dentro, a célula brasileira de irlandeses me aguardava. Eu não estava satisfeito com os lucros. Cruzei o oceano para descobrir se o problema era incompetência ou traição. O suor frio no rosto dos meus subordinados confirmava que eles sabiam: cada passagem minha por este solo costuma deixar um rastro de cadáveres longo o suficiente para servir de aviso.

Dei o ultimato: eles têm até o fim da semana. Caso contrário, cabeças rolariam, literalmente, pelo chão sujo daquele galpão. Afinal, por baixo da seda dos meus ternos, ainda sou o homem que sabe exatamente como o aço se sente contra um osso.

Saí para a rua, o tédio pesando como o calor úmido. Encostei-me em uma pilastra, as sombras me ocultando, e foi então que a vi...

Ela era deslumbrante. Alta, com pernas longas que uma saia comportada e levemente desbotada que tentava, sem sucesso, esconder sua beleza.

Seus cabelos estavam presos e ela parecia imersa em um universo paralelo, com os olhos fixos em um livro. Fiquei hipnotizado... até que o inevitável aconteceu: ela acertou em cheio, com a testa, um poste de ferro antigo.

Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto. Como alguém podia ser tão deliciosamente distraída? Ela ficou vermelha, fugindo da própria timidez, e eu, movido por um impulso que não sentia há anos, comecei a segui-la. Ordenei a Fred, meu homem de confiança, que a rastreasse. Queria saber tudo: onde morava, com quem falava... até o nome de um maldito animal de estimação, se ela tivesse um.

O Rio acabava de ficar interessante.

Dois dias depois, Fred colocou a pasta sobre minha mesa. Victoria Volpe.

Havia um vácuo sobre a mãe dela, um erro raro de Fred que revelava sombras profundas em sua árvore genealógica.

Mas o que me foi revelado me deixou ainda mais chocado. Ela era vítima do descaso do pai e vítima do sadismo da madrasta.

Mas o que as páginas seguintes traziam era pior do que qualquer ausência de dados.

O relatório detalhava a podridão em que ela estava submersa. Roberto Volpe, o pai, estava atolado em dívidas e favores com o Clã Callahan, a máfia americana que não costuma ser gentil com quem falha. Esse clã era nossos inimigos a anos, meu pai não foi capaz de destruí-los, mas eu não daria uma segunda chance.

Mas o verdadeiro asco subiu pela minha garganta ao ler sobre a madrasta, Maísa.

O armazém na Zona Norte era apenas a fachada para algo muito mais sombrio: tráfico de drogas e, o que eu considero o pecado capital, tráfico humano.

Aquela mulher estava brincando com vidas, usando o solo brasileiro para alimentar mercados negros internacionais.

Nas fotos anexadas, Victoria alternava entre uma tristeza profunda e momentos de brilho ao lado de uma amiga, Julia Santiago.

Senti um aperto estranho no peito, algo que costumo enterrar com uísque e pólvora.

Eu, que causei o inferno para tantos, não suportava imaginar o suplício particular em que ela vivia com aquela família de ratos e criminosos de quinta categoria.

Uma determinação fria tomou forma: era hora de um monstro maior entrar na história e mudar as regras.

Fiz Fred comprar um crédito alto na empresa dela, exigindo atendimento exclusivo. Quando soube que o sistema barrou o valor por ela ser novata, quase fui até lá fazer aquele gerente porco sangrar.

Mas não importava; ela não ficaria ali muito tempo. No mundo de Roberto, Maísa e dos Callahan, ela era uma mercadoria pronta para ser vendida a qualquer momento ou um estorvo. No meu, ela seria a prioridade.

Na quarta-feira, posicionei-me perto do escritório.

Eu a vi de longe, sempre tão distraída. Eu poderia ter me afastado e dar o espaço para ela passar; mas eu queria sentir seu calor e seu perfume.

Me coloquei na frente dela. E ela se chocou com o meu peito, o choque foi tão forte que se eu não tivesse tido o reflexo de segurá-la pelos ombros ela teria caído no asfalto quente.

O cheiro dela, uma mistura de lírios, rosas e baunilha me invadiu antes que ela me olhasse com aqueles olhos grandes azuis profundo... Envergonhada, ficou vermelha me pedindo desculpas e momentaneamente ela ficou... Perplexa?

A soltei com um sorriso, que nem sabia que era capaz de dar a alguém.

Aqueles olhos fizeram parte dos meus pensamentos e sonho durante alguns dias... Os dias foram longos. Por sorte dos meus subordinados, acabei adiando sem data de partida do Rio.

Na nossa última reunião, decidi sair e respirar um pouco antes de ir beber alguma coisa.

Por ironia do destino fui pego de surpresa. Ao sair de um beco, nossos ombros colidiram com violência. O impacto foi seco. Segurei-a pelos ombros para que não caísse no calçamento de pedras de novo.

— Você está bem? — perguntei, a voz saindo mais profunda do que o planejado.

Aqueles olhos azuis, que me perseguiram por dias, estavam ali. Senti uma descarga elétrica. Pensamentos possessivos invadiram minha mente; eu queria beijar aquela boca ali mesmo, à luz do dia. Soltei-a antes de perder o controle.

— Você realmente precisa olhar por onde anda — eu disse, tentando soar gentil. — Vai acabar sofrendo um acidente.

Ela riu, acanhada, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha; mencionando que a amiga dizia o mesmo. Fui direto ao ponto e a convidei para beber.

Quando ela revelou seu nome completo, meu mundo girou. Kavanaugh. “Como assim?”.

Como ela podia carregar esse nome de peso e viver aquela vida deplorável? Eu precisava investigar mais, mas antes, precisava dela por perto.

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