A dor era tão intensa que Jaqueline mal conseguia respirar.
As lágrimas continuavam escorrendo sem parar.
Ela levou a mão ao peito e só conseguiu se acalmar depois de muito tempo.
Pouco depois, o toque do celular rompeu o silêncio.
Era uma ligação da companhia aérea confirmando os dados da passagem.
— Sra. Jaqueline, sua passagem para Santa Vitória já foi emitida. A senhora gostaria de escolher o assento?
Jaqueline limpou as lágrimas rapidamente.
Sua voz saiu baixa:
— Um assento próximo à janela, por favor. Obrigada.
Assim que desligou, a porta do quarto se abriu.
Francisco entrou devagar.
O terno dele continuava impecável, e até os punhos da camisa estavam perfeitamente alinhados.
Ele perguntou de forma indiferente:
— Com quem você estava falando?
Jaqueline colocou o celular de lado.
— Com uma amiga.
Francisco não perguntou mais nada.
Apenas ficou parado ao lado da cama, olhando para ela.
Sua voz era tranquila:
— O que aconteceu da última vez foi um mal-entendido. Foi Marina quem deu o suco de manga para eles, mas ela não sabia da alergia. Vamos esquecer isso.
O peito de Jaqueline apertou de repente, e por um instante ela não conseguiu respirar.
Se fosse ela, Francisco provavelmente a odiaria pelo resto da vida.
Mas, quando se tratava de Marina, aquilo simplesmente não era nada.
Jaqueline abriu a boca, querendo perguntar e gritar, querendo colocar para fora toda a mágoa e todo o ressentimento que guardou durante anos.
Mas, no fim, tudo o que conseguiu dizer foi:
— Tudo bem.
Como se toda a sua força tivesse sido arrancada do corpo, ela se sentiu completamente exausta.
Cansada demais até para falar.
Todas as injustiças que haviam tirado seu sono por tantos anos, toda a dor de nunca ser aceita...
Naquele momento, tudo se transformou apenas em um sorriso amargo.
Então essa era a diferença entre ser amado e não ser amado.
Francisco pareceu surpreso com a reação dela.
Depois acrescentou:
— Na próxima semana, as crianças vão para um acampamento de férias. Eu e Marina vamos acompanhar elas. Você pode voltar para casa sozinha.
Ele esperava a mesma reação de sempre: que ela implorasse, que pedisse para ele ficar.
Mas Jaqueline apenas assentiu com calma.
— Eu entendi.
Francisco franziu a testa.
A reação dela estava diferente demais do normal.
Mas, naquele momento, o celular dele tocou.
Ele olhou para a tela e falou:
— A empresa precisa de mim. Vou embora primeiro.
A porta se fechou.
Só então Jaqueline finalmente abriu as mãos que mantinha cerradas.
Na palma, havia quatro marcas profundas deixadas pelas unhas.
Nos dias seguintes, o celular de Jaqueline começou a vibrar sem parar.
Todas as mensagens eram de Marina.
Eram fotos e vídeos registrando os momentos felizes do acampamento.
Em um dos vídeos, Arthur e Helena apresentavam Marina orgulhosamente aos colegas:
— Essa é a nossa mãe!
As outras crianças ficaram impressionadas.
— Uau! Sua mãe é muito bonita!
— Seu pai é bonito e sua mãe é linda. Vocês têm muita sorte!
Uma criança perguntou, curiosa:
— Então quem costuma buscar vocês na escola?
Na gravação, Arthur e Helena ficaram em silêncio por alguns segundos.
Depois responderam:
— A pessoa que cuida da gente.
A mão de Jaqueline tremeu.
O copo de água escorregou de seus dedos e caiu no chão.
Ela se abaixou lentamente e olhou para os pedaços espalhados.
De repente, começou a rir.
Então, durante todos aqueles anos...
Ela tinha sido apenas uma babá gratuita.
Mas tudo bem.
Essa babá logo deixaria de existir.
No futuro, que a amada Marina cuidasse deles.
......
Uma semana depois, Anselmo levou Arthur e Helena de volta para a mansão.
Assim que entraram pela porta, as duas crianças correram para a cozinha com expressões animadas.
Helena gritou:
— Mamãe! Você sabe? A Marina torceu o pé na competição de pais e filhos, e o papai ficou morrendo de preocupação!
Arthur completou:
— O papai reservou o hospital inteiro para cuidar da Marina! Até cancelou reuniões da empresa e ficou com ela o tempo todo!
Jaqueline estava em frente ao forno.
Ela ouviu tudo em silêncio enquanto as crianças contavam a história com entusiasmo.
Sem dizer nada, colocou cuidadosamente as luvas térmicas nas mãos.
Helena bateu o pé, insatisfeita.
— Mamãe, você está ouvindo? O papai trata a Marina muito bem.
O barulho do forno interrompeu a fala dela.
Um aroma doce se espalhou pela cozinha.
As duas crianças se aproximaram imediatamente.
Arthur ficou na ponta dos pés.
— É bolo! Eu quero comer!
Jaqueline tirou a assadeira do forno.
As bordas do bolo estavam um pouco queimadas.
Ela franziu a testa e, sem hesitar, jogou tudo no lixo.
Helena gritou:
— Por que você jogou fora?
Jaqueline respondeu calmamente:
— Queimou. Não dá para comer.
Arthur chutou a lixeira com raiva.
— Você está mentindo! Fez isso de propósito! É porque ainda está brava pelo que aconteceu antes e não quer deixar a gente comer! Você é uma mãe ruim!
Helena também falou com raiva:
— Nós não queremos uma mãe como você!
Jaqueline tirou as luvas térmicas.
Sua respiração ficou pesada.
Ela olhou para aquelas duas crianças, pelas quais quase perdeu a vida ao dar à luz.
Pela primeira vez, sentiu que eles eram completos desconhecidos.
Falou em voz baixa:
— Tudo bem. Eu também não quero filhos como vocês. Daqui para frente, procurem a Marina.
Depois disso, virou as costas e caminhou em direção à escada.
Atrás dela, vieram os gritos das duas crianças:
— Nós odiamos você! Vamos odiar você para sempre!
Os passos de Jaqueline pararam por um instante, mas ela não se virou.
No momento em que colocou o pé no terceiro degrau, ela sentiu um empurrão violento nas costas.
— Morra!