CAPÍTULO 4

MARCELO

Ela saiu antes que eu pudesse tomar qualquer outra atitude. Enquanto isso, Fred não parava de me ligar, mesmo eu já tendo dito que estava ocupado. Mas, contra a minha vontade, resolvi atender pela última vez:

— Sinceramente, acho que você já tem tamanho suficiente para cuidar das porras dos seus problemas.

— Pai, pode liberar o segurança, por favor? Ele está me barrando aqui fora. Por favor!

Em alguns instantes, Fred já estava na sala, à vontade, bebendo como se nada estivesse acontecendo na vida dele. Enquanto a minha, ironicamente, estava finalmente se tornando interessante.

— Então? O que quer me pedir desta vez? Espero que não tenha vindo se lamentar, como sempre faz.

— Eu vim pedir conselhos. — Não sei se é imaturidade ou idiotice do meu filho. — Eu sei... eu errei, mas estou arrependido do que fiz. Eu não sei onde estava com a cabeça.

— E o que você quer que eu diga? Que estou orgulhoso de você? Sinceramente, Fred, acho que já passou da hora de aprender a ser homem. Pensei que tivesse absorvido ao menos alguma coisa de tudo o que cansei de te ensinar. A principal delas foi ter caráter, mas nem isso você aprendeu, porra.

— Elizian... — Elizian? A mesma Elizian que estava comigo há minutos? — Não vai querer me ver nem pintado de ouro. E sabe o pior? O senhor está certo... e eu estou perdido sem aquela mulher.

— A mesma Elizian que trabalha para o Moretti? Você nunca me disse que ela era sua noiva. — Eu estava sem palavras. Me sentia sem reação.

— É... a mesma. — Ele continuava bebendo, como se a bebida pudesse apagar tudo. Talvez eu devesse fazer o mesmo. — Mas a culpa é dela por eu tê-la traído. Ela dava mais atenção àquele trabalho de merda e àquele patrão idiota do que a mim.

— Não culpe os outros pelos erros que você cometeu mais de uma vez e com plena consciência. Isso é covardia, Fred. Se não estivesse feliz, não seria mais conveniente terminar?

— Vai ficar do lado dela agora? Se a conhecesse, ficaria do meu lado. Aposto que ela também já me traiu, só não sei com quem. Aquela vadia escrota.

— Sabe, Fred? Se eu fosse uma mulher, nunca foderia com um babaca como você, quem dirá noivar. Agradeça à Elizian pela caridade que ela te fez. E agora, por favor, saia daqui e não volte a me perturbar. Você já não é minha responsabilidade, e eu estou cansado de ter um filho tão sem caráter.

— Está me expulsando porque estou sendo sincero? Você deveria me ensinar a ser um bom marido, mas preferiu me criar sozinho, sem me mostrar como...

— Como ser um homem? Porque sua mãe foi embora sem nem olhar para trás, enquanto eu te segurava no colo, tentando te acalmar, e ela entrava no carro. Você acha que eu não te mostrei e não te ensinei o valor das coisas — tanto das que se compram quanto das que não se compram? — Ele se calou, diante da minha frieza, com a expressão de quem não se importa com nada. — Eu fiz de tudo por você, Fred. Te daria minha vida, se preciso, mas cansei de passar a mão nos seus erros. Isso só te tornou ainda mais sem escrúpulos.

— Até mais, Marcelo. Obrigado por tudo... que não fez por mim. — E assim ele foi embora, como quem não tinha nada, mesmo tendo tudo.

Me joguei na cama, ainda vestindo apenas um roupão, e tentei não pensar em nada. Mas o cheiro dela ainda impregnava meu travesseiro, meus lençóis... e as imagens da noite passada invadiam minha mente.

— Eu transei com a ex-noiva do meu filho... e não me sinto nem um pouco arrependido. Será que sou tão safado quanto ele? — Enquanto a pergunta pairava no ar, sorri ao lembrar que, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia vivo novamente.

ELIZIAN

Por pouco não dei de cara com Fred — o vi no corredor e preferi ir pelas escadas, deixando-o sozinho no elevador.

Cheguei ao meu apartamento eufórica, sem saber se ligava para Bianca ou se refletia sobre tudo que aconteceu na noite anterior. Mas logo me lembrei: eu precisava trabalhar. A vida não é só transar com Marcelo Ferraz.

Após o banho, me vesti o mais rápido que pude e, em quarenta minutos, estava pronta. Peguei as chaves e desci para tirar o carro, mas, ao chegar no penúltimo andar, dei de cara com Fred — ele estava no mesmo elevador que eu precisaria usar.

— Posso falar com você um minuto? — Ele insistia, mas eu fingia que não o via, mesmo estando ao meu lado. — Por favor, Elizian. Me dá uma chance de me explicar.

Então, ele tocou meu braço. Aquilo era inaceitável.

— Se você ousar encostar as mãos podres em mim de novo, juro que não haverá segunda vez. E não, eu não quero ouvir nada do que você tem a dizer. Eu vi o suficiente. E quer saber, Fred? Você e a Bruna formam até um casal bonitinho. Espero que sejam muito felizes... e que você pare de me perturbar.

— Eu estou arrependido, Eliz... eu...

— Elizian. Meu nome é Elizian. E pega o seu arrependimento e enfia... onde você quiser. Só me deixa em paz. Porque, se não, você vai conhecer o próprio demônio na sua frente. E mais: eu vou infernizar tanto a sua vida que você vai pedir para nunca ter me conhecido.

— Eu estou arrependido. Ela nunca vai ser igual a você. Com ela era só diversão. Ela é só uma...

— Claro que ela nunca vai chegar aos meus pés, seu idiota. Olha bem pra mim... eu estava trabalhando enquanto você fodia a minha amiga. Acha mesmo que ela vai ser igual a mim algum dia? Acha mesmo que ela vai querer algo sério com você? Sabe... eu não sei onde estava com a cabeça quando aceitei casar com você. Acho que era carência. Depois da noite que eu tive ontem, não tive dúvidas: era realmente carência.

O elevador abriu, ele tentou me seguir, mas eu corri até o meu carro, abri a porta e entrei o mais rápido que pude. Precisava me livrar daquele homem... nem que isso me custasse transar mais vezes com o pai dele.

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