Capítulo 8

Quente

Que tem ou transmite calor. – Dicionário Michaelis

Não, Alan não tinha uma lasanha congelada favorita. Se ele fosse dizer a verdade, nem lembrava quando tinha sido a última vez em que comera lasanha ou qualquer tipo de comida congelada. Mas ele achou muito interessante que Magda estivesse tão firme em tentar parecer a pessoa menos atrativa para ele.

O príncipe a seguiu até a cozinha e se encostou na bancada. Era um apartamento bem pequeno e a cozinha mal cabiam duas pessoas. Ainda assim, ele queria estar perto dela.

A viu retirar a lasanha da embalagem e ler a caixa para ter certeza de que faria corretamente o processo de preparo. Ela retirou o plástico que cobria o alimento e enfiou no micro-ondas, colocando o tempo que estava na caixa. Depois que o alimento começou a rodar sob a luz do aparelho, ela mexeu em um botão adicionando mais trinta segundos.

“Não tem medo de queimar?” Ele perguntou.

“Não vai,” ela se vira para ele, os dedos enfiam o último plástico dentro da caixinha, “eu coloquei esses trinta segundos porque o micro-ondas está frio.”

Sem dar muita atenção, ela j**a a embalagem em um lixo.

“Como assim?”

“É tipo pré-aquecer o forno, sabe?” Ela o imita, se encostando na bancada e ficando ao lado dele, “só que não corre o risco de que as coisas desandem, já que está tudo congelado mesmo.”

Fazia sentido, pensou Alan. “Isso explica porque minha comida sempre fica estranha quando como.”

“Como assim?”

Alan ri, ela pareceu roubar as palavras dele e usá-las contra ele. Mas, a confusão no rosto dela deixa claro que nada daquilo foi planejado.

“Eu sempre esquento demais quando estou no trabalho, mas a comida fica gelada quando estou em casa.”

“Ah,” ela solta, “achei que você comia fora. Ou, sei lá, tinha um cozinheiro.”

Alan não consegue segurar uma gargalhada, ela realmente achava que ele era um príncipe, com um exercito de funcionários?

“Olha, eu não sou um príncipe de verdade,” diz quando seu riso se controla.

“Não, eu sei que não.” Agora, ela o olha como se fosse um alienígena. “Se fosse, não estaria em um programa de TV.”

“Então por qual motivo você achou que eu tinha um cozinheiro?”

“Sei lá, você é dono de uma empresa de móveis...”

“Calma aí!” ele a interrompe, se posicionando meio de lado para vê-la melhor, “eu só faço o designer de interiores. É uma empresa pequena.

Magda o observa enquanto pensa. Caramba, ela quase parece deixar tudo o que está pensando transparecer em seu rosto, mas há uma pequena camada de segredo que impede Alan de saber exatamente o que ela está pensando e o deixa com tantas possibilidades de saber o que se passa naquela cachola deixando-o eufórico.

“Desculpa, acho que exagerei.”

Tudo, absolutamente tudo o que passou pela menta de Alan foi diferente do que ele recebeu.

“Não me ofendeu,” ele diz. “Não precisa pedir desculpas.” O sorriso dele se alarga quando percebe ela ficando vermelha. De perto, de tão perto, ela é fofa.

E, bom, está maquiada, mas ainda é possível ver as sardas dela. Também está com uma blusa e um short, roupas bem casuais, mas que deixam ele ver o salpicado de sardinhas que escorre pelo corpo dela.

Seus pensamentos logo vagam por onde mais ela teria sardas. Ele remexe os olhos pela cozinha dela e tenta pensar em outra coisa que não seja o corpo dela. Tenta pensar em algo que não seja o perfume dela ou os cabelos volumosos que ela prendeu em um rabo de cavalo alto.

De alguma forma, ela o atiça.

“O que procura?”

E, também o observa.

“Apenas reparando na sua cozinha.” Ele diz. “Mal do ofício,” mente.

A verdade é que se ele pudesse, seria um reles marceneiro. Mas quando disse isto para a mãe, ela quase o expulsou de casa.

“Meu filho não vai ter mão calejada!”

De hobby, ele acabou aprendendo a esculpir com faca – e para o terror da mãe, a sujeira era enorme.

Mas, também seguiu para a profissão que o deixava mais perto do que havia planejado para si. Planejar móveis era um tanto divertido. Principalmente quando a pessoa era criativa.

Já, a cozinha de Magda, era bem... padrão. Tudo era meio branco demais. A pia era de uma pedra barata, o fogão era tão simples e antigo que de branco passou a amarelo; o micro-ondas era novo, todo de inox, a geladeira estava cheia de ímãs e fotos.

Alan se aproximou do último eletrodoméstico.

“Gosta de viajar?” Perguntou.

“Queria poder viajar mais,” ela responde.

As fotos são de vários lugares diferentes, mas o mais interessante é que são todas... simples. Há fotos de paisagem, com amigos, dela mais jovem, de alguns bichinhos, de comida.

“Parece um perfil, só que analógico,” ele comenta.

Ela ri. O riso dela deixa um sorriso grande no rosto dele.

O micro-ondas apita, o tempo de conversa jogada fora acaba e ela se aproxima do eletrodoméstico para retirar o alimento quente.

“Ei!” ele a impede, “vai se queimar,” alerta.

“Não, não vou.” Magda rebate, abre a porta e uma fumaça suave escapa. A embalagem de papel deixa que o queijo sobre o alimento borbulhe, um alerta de que está quente.

“Deixa que eu pego,” Alan insiste. Ele pega um pano de prato que está sobre o balcão.

“Você é convidado,” ela já está enfiando a mão dentro do aparelho.

“Não!” ele a puxa.

Não quer que a ruiva se queime. Age rápido, agarra a cintura, a puxa para seu corpo. Eles se chocam, ele se eletrifica, sente Magda tremer antes de erguer os olhos para ele, meio caída porque se desequilibrou com o puxão.

O corpo dele é quente. É perfumado, mas a roupa é o que mais chama a atenção. Tem cheiro de amaciante, um dos bons. Ele sabe lavar roupa, ela pensa, deixar a roupa cheirosa.

Magda sabe que ele mora sozinho, sabe que ele foi criado numa família majoritariamente feminina e que ele adora comida caseira. Não tem certeza se tudo aquilo é real ou se ele só inventou, porque ela sabe que ele não tinha interesse de ir para o programa.

Bom, Magda trabalhava para o programa de Rasha, então ela tinha acesso a informações privilegiadas. É por isso que estar naquele programa parecia tão errado. Mas, colada nele, o olhando ali de baixo e vendo ele olhando-a de cima, sentindo a preocupação dele em que ela se queimasse...

É, Magda sentiu o coração batendo bem forte. Ela temeu de susto e depois de... prazer? Era bom estar ali, colada nele. Era bom sentir o cheiro da roupa e do perfume. Ser cuidada por alguém de forma sincera, tão sincera que até ele se pegou desprevenido quando a puxou.

Se não fosse isso, então porque ele também tinha aquela cara de assustado?

“Desculpe,” ele diz. Ajudando-a a se estabilizar antes de se afastar um pouco.

“Tudo bem,” ela sussurra.

Ele pega a comida quente e as câmeras captam toda a cena com precisão. Aquele momento seria muito comentado. Aquele momento seria muito apreciado e até julgado. As pessoas teriam muito material para trabalhar nas redes sociais e até apostarem que Magda e Alan seriam um casal no final do programa.

Isto incluía Rasha Muniz.

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