Em casa, Maira terminava cuidadosamente o curativo na cabeça de Max enquanto tentava controlar o próprio nervosismo.
As mãos dela tremiam levemente.
— Acho melhor irmos ao hospital… — murmurou com os olhos cheios de lágrimas. — Você precisa levar pontos.
Max segurou delicadamente a mão da irmã antes que ela continuasse.
— Ei… está tudo bem.
Sua voz saiu calma apesar do rosto machucado.
— Vocês duas já passaram por coisas demais hoje. Vão tomar banho e descansar.
May se aproximou trazendo um copo de água.
Max agradeceu com um pequeno sorriso cansado.
— E não contém nada disso para ninguém — continuou ele. — Eles não vão mais atrás de vocês.
May permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de perguntar:
— Mas por que aceitou trabalhar para aquele homem?
Max desviou os olhos.
— Você sabe muito bem com o que eles estão envolvidos…
O garoto apenas sorriu de leve.
Um sorriso triste.
— Vai ser só por um tempo.
Então se levantou lentamente, ignorando a dor pelo corpo inteiro.
Pegou a jaqueta velha.
— Ainda preciso trabalhar hoje.
— O quê?! — Maira o encarou assustada. — Você mal consegue ficar em pé!
Max bagunçou de leve o cabelo dela.
— Já estou acostumado.
E saiu antes que elas tentassem impedir.
Assim que a porta fechou, Maira desabou no sofá chorando.
— Achei que ele fosse morrer hoje…
May sentou ao lado dela em silêncio.
Os olhos também estavam marejados.
— O Max passou por muita coisa por nossa causa…
Ela apertou as próprias mãos.
— E tudo por culpa dos nossos pais.
Maira secou o rosto devagar.
Então pareceu pensar em algo.
— Que tal fazermos uma surpresa para ele?
May ergueu o olhar surpresa.
— Surpresa?
Maira assentiu.
Um pequeno sorriso apareceu apesar dos olhos vermelhos.
— Podemos fazer um bolo de aniversário.
May ficou em silêncio por alguns segundos.
Então percebeu algo doloroso.
— O Max… nunca teve um aniversário de verdade, não é?
As duas se olharam.
E naquele momento sentiram o peso da vida que o irmão carregava sozinho.
— Então vamos fazer — May respondeu sorrindo de leve.
Na obra, Max continuava trabalhando mesmo completamente machucado.
Cada movimento fazia seu corpo doer.
As mãos ardiam.
A cabeça latejava.
Mas ele continuava carregando peso como se nada tivesse acontecido.
O chefe da obra percebeu rapidamente seu estado.
— O que aconteceu com você?
Max evitou encará-lo.
— Tive uma briga na saída da escola.
O homem franziu a testa.
— Isso não parece uma simples briga.
Max apenas abaixou a cabeça.
— Estou bem.
O homem suspirou.
— Vá descansar um pouco. Outra pessoa termina isso.
Max tentou protestar.
— Mas—
— Vai descansar, garoto.
Sem escolha, Max acabou obedecendo.
Pouco depois, o homem voltou trazendo um lanche simples e sentou ao lado dele.
— Seus pais sabem disso?
Max deu uma risada baixa e amarga.
— Eles nem devem saber que eu existo hoje.
O homem permaneceu em silêncio.
Depois olhou novamente para as roupas gastas do garoto.
— E as roupas? Você não disse que ia comprar outras?
Max ficou alguns segundos olhando para as próprias mãos machucadas antes de responder:
— Precisei comprar coisas para minhas irmãs primeiro.
Então sorriu sem graça.
— Está tudo bem.
Mas claramente não estava.
O homem apenas suspirou fundo antes de voltar ao trabalho.
Os dias passaram rapidamente.
E Max começou a viver uma rotina cruel.
Durante o dia: escola e obra.
Durante a noite: serviços perigosos para o homem do ferro-velho.
O cansaço começou a consumir seu corpo aos poucos.
Quase não dormia mais.
Quase não comia.
E mal parava em casa.
Até que certa manhã…
Alguém bateu no portão carregando várias sacolas.
Alan abriu a porta ainda sonolento.
Quando viu o rapaz bem vestido parado ali, fez cara feia.
— O que você quer aqui?
O garoto sorriu tranquilamente.
— O Max está?
Alan revirou os olhos.
— Aquele idiota perdeu a hora hoje. Ainda está dormindo.
O rapaz entrou sem cerimônia.
— Ótimo.
Logan estava jogado no sofá assistindo televisão.
Assim que viu o desconhecido, franziu a testa.
— Quem é você? E como sabe onde a gente mora?
O rapaz sequer olhou para ele.
— Nem te conheço, moleque.
E subiu as escadas.
Alan caiu no sofá rindo.
— Ele veio atrás do Max.
Logan pareceu surpreso.
— Como aquele fracassado conhece alguém assim?
Alan deu de ombros.
— Vai saber.
No quarto, Max dormia profundamente com o cobertor cobrindo quase todo o rosto.
O rapaz abriu um enorme sorriso travesso.
Então pulou em cima da cama.
— FELIZ ANIVERSÁRIO!
Max levou um susto e puxou o cobertor rapidamente.
— SEU IDIOTA!
O rapaz começou a rir.
— Bom dia para você também, zangado.
Max o empurrou irritado.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim te ver.
Ele aproximou uma sacola do garoto.
— E te dar um presente.
Max estreitou os olhos desconfiado.
— Você bateu a cabeça?
O rapaz ignorou a pergunta e observou atentamente os machucados no rosto dele.
Seu sorriso diminuiu imediatamente.
— Você voltou a trabalhar para aquele cara, não foi?
Max desviou o olhar.
— Não começa.
— Por que não vem trabalhar para minha família?
— Porque eu não preciso da sua pena.
O rapaz suspirou antes de entregar a caixa do presente.
Max abriu devagar.
Dentro havia um colar delicado com um pingente contendo as iniciais dos dois.
Por alguns segundos, ele ficou em silêncio.
O rapaz sorriu satisfeito e colocou o colar em seu pescoço.
— Agora você já sabe a quem pertence, zangado.
Max imediatamente empurrou a mão dele.
— Morgan, deixa de ser idiota.
Morgan apenas riu.
Mas logo seu olhar caiu sobre as mãos machucadas do garoto.
Depois nos hematomas espalhados pelo pescoço.
Seu sorriso desapareceu novamente.
— Max…
A voz dele saiu mais baixa.
— Você não pode continuar vivendo assim.
Max se levantou antes que o assunto continuasse.
Foi tomar banho rapidamente.
Quando voltou já vestido, algumas marcas das agressões ainda apareciam pelas mangas curtas e pelo corte aberto próximo ao ombro.
Morgan o observou em silêncio.
O peito apertou ao perceber o quanto Max estava magro.
Cansado.
Destruído.
— Você vai acabar morrendo antes da gente crescer…
Max pegou a mochila ignorando completamente a frase.
— Para de drama.
Então passou por ele.
— Vamos logo.
Ao descerem as escadas, May e Maira apareceram carregando um bolo simples.
As duas sorriram nervosas.
Então começaram a cantar parabéns.
Max parou no meio da sala completamente sem reação.
Parecia não saber o que fazer.
Porque ninguém nunca tinha feito aquilo por ele antes.
Logan começou a rir no sofá.
— Sério isso? Ele vai gostar de bolo de aniversário? Olha só para ele.
Alan pegou um pedaço antes mesmo de terminar a música.
— Tá muito bom.
— EI! — May ficou indignada. — Não é para você!
Mas Max apenas sorriu de leve.
Um sorriso pequeno… verdadeiro dessa vez.
— Obrigado…
Sua voz saiu baixa.
Quase emocionada.
— Agora eu realmente preciso ir.
Morgan observava tudo em silêncio.
E pela primeira vez percebeu algo:
Mesmo vivendo daquele jeito…
Max ainda tentava proteger aquele lar quebrado sozinho.
Na saída, Morgan abriu a porta do carro.
— Anda. Vou te levar.
Max imediatamente negou.
— Esse lugar não é para um riquinho como você.
Morgan encostou no carro sorrindo.
— Tudo bem.
Depois apontou para ele.
— Mas ainda estou te devendo um jantar de aniversário.
Max balançou a cabeça sem conseguir esconder um pequeno sorriso.
Então saiu andando pela rua.
Morgan ficou observando suas costas se afastarem lentamente.
O vento balançava a jaqueta velha do garoto enquanto ele desaparecia entre as ruas da cidade.
E naquele instante…
Morgan percebeu que estava começando a se preocupar mais do que deveria.