Na manhã seguinte, Max acordou antes do sol nascer.
O pequeno apartamento ainda estava mergulhado no silêncio, exceto pelo barulho fraco da velha chaleira no fogão. Seus olhos ardiam de cansaço. O corpo inteiro doía por causa do trabalho pesado da noite anterior, mas ele apenas ignorou a dor como sempre fazia.
Preparou o café da manhã simples para os irmãos e, enquanto o pão esquentava, organizou silenciosamente sua mochila velha sobre a mesa.
O tecido já estava desgastado, os zíperes quase quebrando e algumas costuras tinham sido refeitas à mão várias vezes.
Logan apareceu na cozinha bocejando. Pegou uma maçã e observou Max por alguns segundos antes de rir com deboche.
— Você realmente não tem vergonha de usar essa mochila toda acabada?
Max continuou arrumando os cadernos sem responder.
Logan deu outra mordida na maçã e o analisou dos pés à cabeça.
— E essas roupas? Cara… parece até que você roubou de um morto.
Por alguns segundos, Max apenas ficou em silêncio.
Depois fechou a mochila devagar e respirou fundo.
— Se continuar parado aí, vamos chegar atrasados.
Logan revirou os olhos e colocou o braço na porta, impedindo sua passagem.
— Escuta aqui… para de falar comigo na escola. Eu tenho vergonha de ser visto com você.
O sorriso debochado desapareceu, dando lugar a uma expressão fria.
— Acho que fui bem claro.
Max segurou calmamente o braço dele e o afastou do caminho.
— Faça o que quiser.
Então saiu da cozinha sem olhar para trás.
Na sala, Maira estava sentada no sofá de cabeça baixa, escondendo o rosto atrás dos cabelos.
— Eu odeio minha vida… — murmurou. — Queria morrer.
May, que terminava de arrumar os materiais escolares, suspirou.
— Você faz drama demais.
— Drama? — Maira ergueu o rosto irritada. — Olha para esses sapatos, May! Olha para os nossos materiais! Tudo velho, rasgado… Nós parecemos mendigos!
Alan, sentado no chão mexendo no celular quebrado, riu baixo.
— Ela não está errada.
Max apareceu colocando a mochila nas costas.
— Estamos atrasados.
May olhou imediatamente para ele.
— Você não vai tomar café? Eu deixei um pouco para você.
Max forçou um pequeno sorriso cansado.
— Meu estômago não está muito bom hoje. Pode comer.
Alan soltou uma risada curta.
— Sério mesmo que você vai para escola desse jeito?
Max abaixou o olhar para as próprias roupas gastas. As mangas do casaco estavam desfiadas e os tênis já tinham perdido a cor fazia tempo.
Mesmo assim, apenas deu de ombros.
— O dinheiro mal dá para sobreviver.
Maira apertou os dedos contra a saia do uniforme.
— Você não consegue nem comprar sapatos novos para nós…
Aquilo atingiu Max mais do que deveria.
Mesmo assim, ele apenas respirou fundo.
— Vou tentar resolver isso, tudo bem? Mas agora precisamos ir.
Alan levantou reclamando.
— Ainda não acredito que temos que andar junto dele.
Os três começaram a sair na frente, rindo e conversando entre si.
Max ficou parado alguns segundos observando os irmãos.
Mesmo ouvindo aquelas palavras… eles ainda eram tudo o que ele tinha.
— Eu preciso resolver uma coisa antes — disse baixo. — Podem ir na frente.
May virou rapidamente.
— Mas você vai chegar atrasado!
— Não se preocupe comigo.
Alan soltou uma gargalhada.
— Ainda bem. Pelo menos hoje ninguém vai achar que somos parentes dele.
— Alan! — Maira repreendeu.
Mas o garoto apenas deu de ombros.
— O quê? Vai dizer que você também não sente vergonha? O cara parece um morto-vivo.
May lançou um olhar furioso para ele.
— A culpa não é dele! Se não fosse o Max, a gente nem teria comida!
Maira desviou o olhar, incomodada.
— Vamos logo…
Os três seguiram pela rua.
Max permaneceu parado, ouvindo cada palavra em silêncio.
Então abaixou lentamente a cabeça.
Por um instante, suas mãos apertaram as alças da mochila com tanta força que os dedos ficaram brancos.
Mas logo ele apenas respirou fundo e começou a andar.
Precisava continuar.
Sempre precisava.
Ao entrar em um beco estreito para cortar caminho, passos pesados ecoaram atrás dele.
Antes que pudesse reagir, um chute forte atingiu suas costas.
Max caiu de joelhos no chão sujo, arfando de dor.
Alguns homens cercaram o garoto.
— Cadê aquele desgraçado do seu pai? — um deles perguntou segurando Max pelo cabelo.
O garoto gemeu baixo ao sentir o puxão.
— Eu… eu não sei…
O homem puxou ainda mais forte e encostou um canivete em seu pescoço.
— Acho bom não estar mentindo, moleque.
O metal gelado fez o corpo de Max tremer.
— Suas irmãzinhas são bonitas… Seria uma pena se elas pagassem a dívida no lugar dele.
Os olhos de Max se arregalaram imediatamente.
— Não encostem nelas!
O homem riu.
— Então manda aquele vagabundo aparecer hoje nesse endereço.
Ele jogou um papel amassado no peito de Max.
— Ou voltaremos para cobrar de outro jeito.
Logo depois o empurrou no chão novamente.
— E não tenta bancar o herói com a gente. Sabemos onde vocês moram… e conhecemos a vadia da sua mãe também.
Os homens foram embora rindo.
Max permaneceu caído por alguns segundos.
Seu corpo tremia.
Não sabia se era medo, raiva… ou cansaço.
Com dificuldade, pegou a mochila caída no chão e saiu do beco.
Assim que alcançou a rua principal, respirou fundo várias vezes tentando se acalmar.
Então viu ao longe as irmãs caminhando para escola.
Seus olhos caíram diretamente sobre os sapatos gastos de Maira.
“…Nós parecemos mendigos.”
Aquela frase voltou como uma faca em seu peito.
Max apertou o pouco dinheiro que tinha no bolso.
Era praticamente tudo o que havia conseguido trabalhando até tarde na obra.
Mesmo assim… entrou em uma pequena loja de calçados.
Escolheu dois pares femininos.
Depois comprou materiais escolares novos, cadernos, canetas e algumas outras coisas simples.
Quando saiu da loja, sobrou tão pouco dinheiro que mal daria para sua própria comida.
Mas ao imaginar as irmãs sorrindo… sentiu que valia a pena.
Mesmo que elas nunca soubessem.
Quando chegou à escola, as aulas já haviam começado.
Antes de entrar na sala, entregou as sacolas para a faxineira.
— A senhora pode entregar isso para minhas irmãs?
Ela olhou surpresa para os materiais novos.
— E por que você mesmo não entrega?
Max sorriu sem jeito.
Um sorriso pequeno… triste.
— Não quero que elas fiquem com vergonha de mim.
A mulher ficou em silêncio por alguns segundos.
Então segurou as sacolas com cuidado.
— Suas irmãs deveriam sentir orgulho de você.
Max abaixou os olhos sem responder.
— Agora vá logo para sala — ela continuou com um sorriso gentil. — E boa sorte na prova.
— Obrigado…
Max correu até a sala tentando recuperar o fôlego.
O professor suspirou assim que o viu entrar.
— Novamente atrasado, senhor Max.
Alguns alunos começaram a rir baixo.
— Vá para seu lugar e comece sua prova.
Enquanto caminhava até a carteira, Max ouviu cochichos e piadas sobre suas roupas.
“Parece um mendigo.”
“Será que ele toma banho?”
“Olha esse tênis…”
Ele fingiu não ouvir.
Sentou-se em silêncio, pegou a caneta e começou a responder às questões.
Mesmo cansado… sua mente continuava funcionando perfeitamente.
Algum tempo depois, entregou a prova.
Ao voltar para a carteira, apoiou a cabeça sobre os braços.
O corpo finalmente cedeu ao cansaço.
E ele acabou dormindo.
Quando a aula terminou e os alunos saíram conversando, o professor se aproximou devagar da mesa.
— Max…
O garoto despertou assustado.
— Desculpe, professor… eu acho que dormi.
O homem observou atentamente as olheiras profundas, o rosto pálido e as mãos machucadas do garoto.
— Você ainda está trabalhando na obra e fazendo bicos à noite?
Max desviou o olhar.
— Sim… mas isso não está atrapalhando meus estudos.
O professor suspirou.
— E realmente não está. Suas notas continuam excelentes… você é um dos melhores alunos dessa escola.
Max permaneceu em silêncio.
— Mas seu corpo não vai aguentar por muito tempo.
O professor aproximou a cadeira e continuou mais baixo:
— Você precisa permitir que o estado ajude você e seus irmãos.
Imediatamente Max se levantou.
— Não!
Sua voz saiu desesperada.
— Eu consigo cuidar deles! Eu prometi isso!
O professor o encarou com tristeza.
— Max… isso não é justo com você.
O garoto tentou sorrir.
— Eu estou bem.
Mas até aquele sorriso parecia cansado demais para continuar existindo.
O professor segurou delicadamente uma de suas mãos magras.
— Quem está cuidando de você?
A pergunta fez o silêncio pesar na sala.
Max desviou os olhos rapidamente.
— Eu vou melhorar… prometo.
Puxou a mão devagar.
— Só… por favor… não nos separe.
O professor sentiu o peito apertar ao perceber o medo verdadeiro nos olhos do garoto.
Mas Max apenas pegou sua mochila velha mais uma vez.
E saiu da sala sozinho.