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Coração Blindado
Coração Blindado
Por: shelly pereira
🍀 CAPÍTULO 01🍀

Já era tarde da noite.

Em uma obra no meio da cidade, um garoto empurrava carrinhos carregados de tijolos de um lado para o outro. Vestia apenas uma camiseta surrada, uma calça jeans velha, um tênis furado e um capacete grande demais para sua cabeça magra.

A madrugada já avançava quando ele finalmente parou para descansar. Sentou-se sobre uma pedra próxima, tirando de dentro da mochila uma garrafa de água e um pequeno pacote de biscoitos.

Enquanto comia distraidamente, observava o céu estrelado acima da construção. Seus olhos pesavam de sono. O cansaço fazia sua cabeça tombar devagar até que…

— Ai!

Uma pedra acertou sua nuca.

Ele se virou rapidamente.

O encarregado da obra caminhava em sua direção.

— Os tijolos acabaram. Podemos ir embora mais cedo hoje. — O homem lhe entregou algumas notas amassadas. — Aqui está seu pagamento.

O garoto abriu um pequeno sorriso cansado.

— Então… até amanhã, senhor?

O homem o observou em silêncio por alguns segundos.

— Seus pais sabem que você trabalha desse jeito? Você ainda está estudando?

O garoto abaixou os olhos.

— Sabem… mas não podem fazer muita coisa. Somos pobres e eu preciso ajudar em casa. Não posso me preocupar só com a escola.

O homem torceu a boca para o lado, analisando as roupas gastas do menino.

— Toma isso aqui também.

Ele colocou mais algumas notas em sua mão.

— Compra roupas novas… e um sapato decente. Você ainda é novo, garoto. Infância só temos uma vez.

O garoto arregalou os olhos.

— Senhor… eu—

— Vai logo para casa. Já está tarde.

O menino sorriu agradecido várias vezes antes de sair dali. Enquanto caminhava, olhou discretamente para o dinheiro em sua mão e rapidamente o escondeu dentro do sapato.

Era mais seguro assim.

No caminho para casa, precisava atravessar parte da cidade.

As luzes dos prédios iluminavam as ruas movimentadas, cheias de pessoas rindo, carros passando e mulheres espalhadas pelas calçadas.

Foi então que ele parou.

Do outro lado da rua, uma mulher estava caída no chão.

Um homem a chutava enquanto gritava palavrões.

— Sua inútil! Drogada imunda!

O garoto atravessou a rua correndo.

No instante em que o homem ergueu uma garrafa para acertar a mulher, o garoto entrou na frente.

Crash!

A garrafa atingiu suas costas com força.

Ele caiu de joelhos imediatamente.

A mulher levantou o rosto lentamente. A maquiagem borrada escorria junto das lágrimas.

— Mas o que você está fazendo aqui, seu idiota?! — ela gritou, empurrando-o. — Quer estragar meu trabalho?!

O garoto caiu no chão outra vez.

Ao redor, algumas pessoas observavam a cena em silêncio. Algumas riam. Outras apenas desviam o olhar.

O homem encarou o garoto por alguns segundos… então começou a rir.

— Olha só isso… Parece que você criou um projeto de homem aí. — Ele olhou para a mulher com desprezo. — O que foi? Não conseguiu manter as pernas fechadas?

A mulher entrou rapidamente na frente do garoto.

— Esquece ele. Vamos embora daqui. — Ela segurou o braço do homem. — Posso te levar para um lugar melhor.

E saiu puxando-o pela rua.

O garoto ficou parado observando os dois desaparecendo entre as luzes da cidade.

Então soltou um suspiro cansado.

Quando se levantou, sentiu uma dor forte nas costas. A garrafada havia aberto um corte, fazendo o sangue escorrer por baixo da camiseta.

Mesmo assim, continuou andando.

Antes de voltar para casa, comprou alguns lanches baratos.

Depois seguiu por uma pequena estrada de terra até chegar diante de uma casa simples e velha.

Abriu o portão devagar.

Entrou em silêncio.

Assim que deixou a sacola sobre a mesa improvisada da cozinha, foi direto para o banheiro.

A água fria caiu sobre suas costas feridas, fazendo-o apertar os dentes de dor.

Quando terminou o banho, ficou alguns segundos parado diante do espelho.

Seu corpo era magro demais.

Havia marcas antigas espalhadas pelos braços, costas e peito.

Queimaduras.

Cicatrizes de cigarro.

Feridas que nunca desapareceram completamente.

Os olhos do garoto se encheram de lágrimas, mas ele respirou fundo antes que elas caíssem.

Foi então que ouviu alguém chamá-lo.

Rapidamente vestiu a camiseta e saiu do banheiro.

Uma garotinha estava parada na escada, ainda sonolenta.

— Por que você está acordada essa hora, May?

Ela sorriu ao vê-lo.

— Ouvi você chegando… queria saber se estava bem.

O garoto abriu um pequeno sorriso cansado.

— Estou sim. Vem aqui. Eu trouxe lanche.

May desceu correndo as escadas.

— Irmão… a mamãe não vai voltar para casa hoje?

O sorriso dele desapareceu por um instante.

— Acho que não… mas talvez seja melhor assim. Você sabe o que acontece quando ela e o papai estão aqui.

May abaixou os olhos.

Então perguntou baixinho:

— Você não vai embora também… vai?

O garoto ficou em silêncio por alguns segundos antes de bagunçar os cabelos dela.

— Não vou abandonar vocês.

Ele forçou um sorriso.

— E mesmo se um dia eu for… vou levar todos comigo.

May o abraçou forte.

— Eu te amo, irmão.

Depois subiu as escadas novamente.

O garoto permaneceu sentado sozinho na cozinha silenciosa.

Perdido nos próprios pensamentos.

— Acha mesmo que consegue proteger alguém?

Uma voz debochada veio da escada.

Seu irmão mais velho estava sentado ali.

— Faça-me o favor, Max.

Max levantou os olhos lentamente.

— Se você me ajudasse um pouco, talvez fosse possível.

O garoto riu com desprezo.

— Acha que vou destruir meu futuro trabalhando igual um escravo feito você? Eu quero estudar… ficar rico… sair dessa vida miserável.

Max respirou fundo.

— Então nossos irmãos não importam para você, Logan?

Logan se levantou lentamente.

— Nessa vida é cada um por si.

Ele olhou para Max da cabeça aos pés.

— Além disso… olha para você. Parece um lixo humano.

Max permaneceu em silêncio.

— Eu tenho aula daqui a pouco. Vou dormir.

E subiu as escadas.

Sozinho outra vez, Max apenas abaixou a cabeça.

Sem dizer uma única palavra

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