Mundo de ficçãoIniciar sessão— Enzo Rosa Martins! — gritei pela terceira vez, e ele veio até mim.
— Desculpa, mamãe! Estava conversando com o T-Rex.
Quem diabos era isso agora?
— Filho, que dinossauro é o T-Rex?
Enzo olhou para mim e revirou os olhos.
— Por que vocês adultos não sabem nada sobre dinossauros? Esse é o T-Rex. — Ele pegou o dinossauro e me mostrou.
— Ah! O do bracinho curto.
Enzo bateu a mão na testa, visivelmente chateado.
— Ele é o rei dos lagartos tiranos, um dos maiores carnívoros que existiu.
Às vezes eu ficava até envergonhada com a inteligência do meu filho. Ele sabia tanto sobre dinossauros… e eu não sabia praticamente nada. Infelizmente, meu filho sofria muito bullying na escola por ter esse lado mais estudioso, mais curioso.
E era por isso que, mesmo sem entender quase nada, eu sempre fazia questão de brincar com ele e participar do mundo dele.
Afinal… ser mãe era isso.
— Vem tomar seu café, meu pequeno historiador.
Ele me olhou como se eu tivesse cometido um crime.
— Mãe! Quem estuda dinossauros são os paleontólogos.
Soltei um suspiro teatral.
— Desculpa a mamãe, filho. Vamos tomar café, meu paleontólogo.
Enzo sorriu satisfeito e finalmente sentou para comer.
Assim que ele terminou, nos arrumamos e fomos para o ponto de ônibus. Depois de deixá-lo na escola, segui direto para a perfumaria.
Na hora do nosso café, contei tudo para Juliana e arranquei várias risadas dela.
— Para de rir, sua chata!
— Ai, amiga, impossível não rir! — ela disse, quase sem ar. — Você tomou uma aula de uma criança de cinco anos!
Cruzei os braços, fingindo indignação.
— Obrigada pela parte que me toca. Agora vamos trabalhar.
Começamos o atendimento normalmente, e tudo estava indo bem… até a Priscila chegar.
Assim que ela colocou os pés na loja, eu e Juliana trocamos um olhar.
Problema vindo em três… dois… um…
Ela passou a mão por uma das prateleiras e fez uma cara de nojo exagerada antes de nos chamar.
— Essa prateleira está uma poeira só. As duas vão tirar os produtos e limpar agora.
Revirei os olhos sem nem disfarçar. Juliana encarou Priscila, e eu sabia que lá vinha bomba.
— Oh, rainha de Sabá… não sei se você lembra, mas temos uma funcionária da limpeza na loja. E outra coisa, passamos pano aqui não tem nem meia hora. Mas talvez você esteja precisando de um óculos fundo de garrafa, porque tem uma obra do outro lado da rua levantando poeira o tempo todo.
Priscila nos encarou com a cara fechada.
— Quem é a gerente geral aqui? Eu ou vocês? Se eu mandar vocês desentupirem o banheiro, é isso que vão fazer.
Juliana deu um passo à frente, já pronta para explodir.
— Qualquer uma vira gerente geral fodendo com o chefe, quero ver ter capacidade pra isso. Se você mandar a gente desentupir vaso, eu pego o desentupidor e enfio ele no seu c…
Antes que ela terminasse, tampei a boca dela rapidamente.
— Já chega! Eu posso demitir vocês, e o Alexsandro não fará nada.
Respirei fundo e encarei Priscila com calma, mas firme.
— Olha só, Priscila… sou uma pessoa bem tranquila. Mas você está passando dos limites. Desde que assumiu esse cargo, não faz nada além de pisar na gente.
Ela engoliu seco e se afastou quando me aproximei.
— Se continuar assim, eu mando uma mensagem para dona Valquíria, exponho sua safadeza com o nosso chefe e, depois disso… peço demissão. Mas antes, quebro a sua cara e arrasto você no asfalto.
Ela arregalou os olhos.
Sabia que eu não estava brincando.
Priscila já tinha me visto perder a paciência uma vez… e sabia muito bem como aquilo terminava.
— Vão trabalhar — ela disse, tentando manter a postura. — E não me enchem o saco.
Assim que ela entrou no quartinho, Juliana e eu nos olhamos… e começamos a rir.
— Graças a nós ela foi se esconder! — Juliana bateu palmas, animada.
— Mulher chata do cacete… trabalhar que é bom, nada. Mas encher o saco dos outros ela é profissional.
— Expert! — Juliana completou.
Respiramos fundo e voltamos ao trabalho, porque, querendo ou não, os clientes não tinham culpa de nada. Não demorou muito para a loja encher.
— Quando vai chegar o Dia dos Namorados? Não aguento mais atender gente babaca — reclamou Juliana, depois de atender o quarto cliente que comprava produtos de qualidade para a amante e inferior para a esposa.
— Os homens são uns babacas, amiga… mas isso vai render uma boa grana no final do mês.
— Isso é verdade!
Não demorou muito e chegou uma nova cliente. Juliana me encarou e disse que era minha vez.
— Bom dia! Posso ajudar? — falei automaticamente, sorrindo para a cliente.
— Estou procurando um presente… mas não sei o que comprar.
— Namorado ou marido? — perguntei.
— Ficante.
Juliana e eu trocamos um olhar rápido. Quem, em sã consciência, compra presente pra ficante?
— Então dá pra ousar — respondi, já pegando alguns perfumes.
A mulher ficou animada e acabou comprando mais produtos do que pretendia. Quando ela foi embora, Juliana e eu nos olhamos novamente.
— As mulheres de hoje estão cada vez mais idiotas. Dar presente pra ficante no Dia dos Namorados é a melhor.
— Amiga… mas quem somos nós pra julgar? — disse, e ela gargalhou.
— Pois é!
Voltamos ao trabalho e, na hora do almoço, ficamos relembrando vários clientes idiotas que apareceram naquele dia. Estávamos conversando animadas quando recebi uma ligação da escola.
— Mãezinha do Enzo, estamos ligando para avisar que ele está passando mal.
Meu coração gelou na mesma hora.







