Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 4: Bianca ...
O homem virou-se lentamente, a máscara negra ainda escondia parte do seu rosto, revelando apenas os olhos de um azul intenso. Eram frios mas, ao mesmo tempo, carregavam algo que eu não conseguia decifrar. Ele me observou por alguns segundos, mas não era como os homens lá de fora. Seu olhar não percorreu meu corpo com desejo. — Qual é o seu nome? — perguntou. Ele tinha acabado de pagar um milhão de reais por mim e me pergunto: Como não sabe o meu nome? — Bi... Bianca... Ele repetiu baixinho, quase para si mesmo. — Bianca... Então ele fechou os olhos por um instante. — Nome lindo... eu sabia. Meu coração acelerou. — Sabia... o quê? Ele não respondeu, apenas continuou me olhando. — Você não me reconhece, não é? Balancei a cabeça negativamente. Nunca o tinha visto, pelo menos acredito que não. Ele soltou um suspiro discreto. — Melhor assim. Aquelas palavras aumentaram ainda mais minha confusão. Quem é esse homem? Por que parece me conhecer? Por que me escolheu? Respirei fundo e criei coragem para perguntar: — Por que eu? Ele demorou alguns segundos antes de responder. — Porque, no momento em que te vi subindo naquele palco, percebi que não pertencia àquele lugar. Senti meus olhos marejarem. É a primeira pessoa, naquela noite, que parece enxergar além da garota que estava sendo leiloada. — Está com medo de mim? — perguntou. Sorri sem humor. — O senhor comprou a minha virgindade... Como não teria medo? Ele passou a mão pelo queixo, pensativo. — Tem razão. Então caminhou até uma pequena mesa, serviu um copo de água e o estendeu para mim. — Beba. Hesitei, ele apenas esperou e aceitei o copo com as mãos trêmulas. — Não vou machucar você, Bianca. — afirmou e arregalei os olhos. Mas não conseguia acreditar... acabei de vender o meu corpo a um completo desconhecido e desconhecidos nunca inspiram confiança. Segurei o copo de água com força, como se ele fosse a única coisa capaz de me manter de pé, meus olhos não saíam daquele homem... Há algo nele que me deixa confusa. Ele não se aproximou, não tentou me tocar e nem fez nenhuma exigência. É completamente diferente do que eu havia imaginado durante todo o tempo em que estive naquele palco e com o que me avisaram quando entrei nesse lugar. — Pode se sentar, Bianca... — disse em tom educado. Olhei para a poltrona de couro, para ele e novamente para a poltrona, mas permaneci onde estava. — Prefiro ficar de pé. Um leve sorriso surgiu no canto de seus lábios. — É teimosa. Não respondi, então as palavras da mulher ecoaram em minha mente. "Não se oponha a eles, não seja teimosa e os satisfaça da maneira que quiserem, afinal, estão pagando caro por isso." Apertei os olhos e os lábios. Ele caminhou até um aparador, servindo duas taças de vinho. Pensou por um instante e depois desistiu de uma delas. — Melhor não. Pegou uma garrafa de água e colocou sobre a mesa. — Você já passou por emoções demais esta noite. Aquilo me surpreendeu, ele parecia se preocupar comigo. — Quem é o senhor? Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Ronan... Apenas isso, sem sobrenome ou mais explicações. — Não é brasileiro, né? — perguntei para quebrar um pouco do gelo, mas já sabendo a resposta. Ele é bem fluente, mas não esconde o sotaque. — Não. — Então... por que está aqui? — Negócios. As respostas curtas começavam a me irritar. — O senhor fala como se estivesse em um interrogatório. Pela primeira vez, ele sorriu de verdade e aquele sorriso transformou completamente seu rosto. Por trás daquela máscara e da aparência séria existia um homem muito mais jovem do que eu imaginava. — Faz tempo que não sorrio. — confessou. — Por quê? Seu semblante voltou a ficar fechado. — A vida me ensinou que sentimentos costumam ser uma fraqueza. Sua resposta ficou ecoando na minha mente. Que tipo de vida uma pessoa leva para acreditar nisso? Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ele retirou um envelope do bolso interno do paletó e colocou sobre a mesa. — Aqui está o dinheiro. Olhei para o envelope sem entender. — O valor prometido no leilão. É seu. Balancei a cabeça imediatamente. — Não... Ele franziu o cenho. — Foi por isso que você veio? Neguei com a cabeça. — Eu... eu não sou assim... esse tipo de mulher que o senhor deve estar pensando. Não estou aqui por mim... é pela minha família. As lágrimas voltaram. — Meu pai deve dinheiro para pessoas perigosas. Se eu não pagar... eles vão matá-lo e a minha irmã... talvez ela tenha que pagar o preço. Não sou uma qualquer! Ronan permaneceu imóvel, seus olhos analisavam cada expressão do meu rosto como se tentasse descobrir se eu estava mentindo. Então perguntou: — E depois que pagar essa dívida? Respirei fundo. — Nunca mais vou ajudá-lo... Foi a primeira promessa que fiz pensando em mim. Ele assentiu lentamente. — Espero que cumpra. Ficamos em silêncio, meu coração voltou a acelerar quando percebi que ainda havia uma pergunta sem resposta e a mais importante de todas. Olhei diretamente para ele. — O senhor pagou um milhão de reais... — a voz saiu quase em um sussurro. — Quando... quando isso vai acontecer? Ronan sustentou meu olhar por alguns segundos. As palavras saíram sem pensar, mas não via a hora de tudo isso acabar e poder sair daqui o mais rápido possível. Ronan levou a mão até a máscara e, lentamente, começou a retirá-la. Prendi a respiração, a máscara deslizou lentamente por seu rosto até revelar um homem lindo de traços marcantes, cabelos escuros perfeitamente alinhados e olhos azuis tão intensos quanto eu havia imaginado. Absurdamente lindo, mas não foi sua aparência que me deixou sem reação. Foi a forma intensa como ele me olhava... não havia luxúria ou arrogância. Havia um estranho sentimento que não soube decifrar e uma estranha certeza de que a minha vida nunca mais será a mesma depois dessa noite.






