Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 03: Bianca...
Voltei e trabalhei como uma máquina, mal conseguia pensar e Patrícia percebeu. — Conseguiu algo no banco? — Não. As lágrimas embargaram os meus olhos. — Você tem razão. Ela me encarou. — O quê? Minha voz falhou. — Me leva lá... no clube. — Não. Foi a resposta mais inesperada. — O quê? — Não. — Patrícia... — Eu não vou carregar essa culpa. — Por favor. — Não! — Eles vão machucar a minha irmã! As lágrimas começaram a cair. — Eles vão destruir a minha família! Patrícia me abraçou. — E quem vai salvar você? Desabei em seus braços e chorei como uma criança, porque ninguém nunca fazia essa pergunta. Todo mundo precisava de mim, mas e eu? Não precisava de ninguém? — Eu não tenho escolha. Ela chorou comigo. — Tem certeza? — Não. Mas também não tinha alternativa. Às sete da noite, parei em frente ao espelho do meu quarto, minhas mãos tremiam, usava um vestido simples emprestado por Patrícia, nada extravagante ou vulgar. Porque eu não era aquilo eu ainda era eu... ou pelo menos tentava acreditar nisso. Mamãe apareceu na porta. — Vai sair, filha? Sorri. — Vou resolver uma coisa. Ela acariciou meu rosto. — Não importa o que esteja acontecendo... Deus está olhando por você. Aquilo quase me fez desistir, mas então olhei para Amanda concentrada nos livros estudando e lembrei do medo em seus olhos. ...Não! Irei até o fim!... Quando o carro de aplicativo parou em frente ao Clube Ébano, senti minhas pernas falharem. Aquilo parecia um hotel comum de luxo, nada do que eu imaginava, homens de terno, mulheres elegantes e seguranças por toda parte. Tudo discreto, refinado e assustador. — Ainda dá tempo de voltar. — disse Patrícia segurando a minha mão. Meus olhos se encheram de lágrimas. — Se eu voltar, eles acabam com a minha família. Ela me abraçou forte. — Me perdoa por ter te mostrado isso. — Não foi você... é a vida... é o meu destino. Respirei fundo e entrei. Hoje venderia aquilo que tinha de mais precioso, mas seria a última vez que salvaria minha família. Depois disso... cada um responderia pelas próprias escolhas. ... O som do martelo me trouxe de volta ao presente, abri os olhos lentamente e a minha frente vários homens com olhares cobiçosos. As placas começaram a subir, os lances aumentavam e meu coração parecia parar a cada novo valor anunciado. Então um homem, sentado na área mais reservada do salão, levantou discretamente a placa, seu rosto estava escondido por uma máscara negra, mas por seu porte físico parecia atraente. Por algum motivo, senti seus olhos presos em mim, meu corpo inteiro estremeceu e, pela primeira vez naquela noite não foi apenas de medo. ... Aí! O que está pensando, Bianca! Acorda! Desviei o olhar e voltei a temer o que seria da minha vida após essa noite. O silêncio que antecedia cada novo lance era pior do que qualquer grito. Permanecia imóvel sobre o palco, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo para esconder o quanto tremiam. Meu coração batia tão forte que parecia ecoar por todo o salão. Os números aumentavam como se estivessem negociando uma joia rara, mas era a minha vida. Meu estômago embrulhava a cada voz anunciando um novo valor. Evitei olhar para a plateia, não queria enxergar os rostos daqueles homens. Não queria saber quem eram, nem imaginar o que passava pela cabeça deles. Apenas desejava que aquilo acabasse de uma vez por todas. — Trezentos mil. — Trezentos e cinquenta mil. As pessoas murmuravam, impressionadas. — Ela vale cada centavo. — comentou um velho. Fechei os olhos por um instante. Nenhum dinheiro do mundo compraria a paz que eu estava perdendo e quando voltei a olhar para o salão, meus olhos encontraram o homem da máscara. Ele permanecia sentado na última fileira do camarote exclusivo, não conversava com ninguém, não bebia e nem parecia interessado no espetáculo. Apenas... me observava, havia algo estranho na intensidade daquele olhar e o meu coração acelerou sem que eu entendesse o motivo, era como se eu o conhecesse... ou talvez apenas desejasse acreditar que existia alguém ali que enxergasse além daquela garota exposta sobre um palco. — Quinhentos mil! O apresentador praticamente gritou, o salão explodiu em aplausos. Respirei fundo, aquilo era uma loucura. ...Quem pagaria tanto dinheiro por uma desconhecida? Alguns desistiram enquanto outros ainda insistiam. Foi então que o homem mascarado levantou lentamente a placa. — Um milhão de reais. O silêncio tomou conta do salão, até o apresentador perdeu a voz por alguns segundos. Todos se voltaram para o camarote, ninguém ousou cobrir aquele lance. — Um milhão pela primeira vez... Meu peito apertou. — Um milhão pela segunda vez... As lágrimas voltaram a arder em meus olhos... era o fim. — Vendida! O som seco do martelo ecoou pelo salão, as pessoas aplaudiram e senti meu mundo desmoronar. Uma das organizadoras aproximou-se e segurou delicadamente meu braço. — Venha comigo... seu comprador já está esperando. Engoli em seco. Cada passo parecia me levar para um destino sem volta. Parei diante da porta da suíte reservada, minha mão estava gelada, minhas mãos trêmulas e coração quase saindo pela boca. A mulher abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ouvi uma voz masculina, grave e firme ecoando pelo lugar. — Deixe-nos a sós. A porta se fechou atrás de mim. E, fiquei frente a frente com o homem que havia comprado a minha primeira noite. O clique da porta se fechando atrás de mim pareceu selar o meu destino e por alguns segundos, fui incapaz de levantar a cabeça. Minhas mãos tremiam tanto que precisei apertá-las contra o vestido para tentar escondê-las. O silêncio dentro da suíte era sufocante, respirei fundo antes de criar coragem para olhar para o meu comprador. ... Comprador! Não tem como essa palavra sair diferente!... O homem permanecia de costas para mim, diante da enorme janela de vidro. O terno escuro tinha um caimento impecável, revelando a postura de alguém acostumado a dar ordens. Mesmo sem ver seu rosto, sua presença dominava o ambiente. — Pode respirar, agora. — disse ele, com a voz calma. — Parece que vai desmaiar a qualquer momento. Engoli em seco. — Eu... eu estou bem. Mentira, nunca estive tão apavorada em toda a minha insignificante vida. ... Espera! Ele nem se virou, como sabe que estou nervosa?... Balancei a cabeça afastando todos os pensamentos e tentando me concentrar. Me alertaram que esses homens gostam de ir direto ao ponto, sem rodeios e romantismo. Eles não tem paciência para melodramas.






