Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 2: Bianca...
O sol do meio-dia castigava sem piedade, o uniforme já estava grudado no meu corpo por causa do calor e, minhas mãos doíam de tanto empurrar o carrinho e varrer as ruas. Mesmo assim, eu sorria para as pessoas que passavam, porque, por mais difícil que seja a vida, eu ainda tenho motivos para continuar. Estava recolhendo alguns papéis perto de uma praça quando meu olhar se prendeu do outro lado da avenida. O meu coração reconheceu aquele carro antes mesmo dos meus olhos. Era o carro de Henrique... Franzi a testa, ele havia dito que estaria trabalhando e sem pensar muito, atravessei a rua, um sorriso bobo nascendo em meus lábios. Acreditei que talvez tivesse vindo me ver e preparado alguma surpresa. Afinal, ele sempre sabe como melhorar os meus dias mais escuros. Henrique estacionou em frente a uma joalheria e não estava sozinho. Uma mulher desceu do banco do passageiro, alta, bonita e muito elegante. Diminui os passos e meu sorriso desapareceu tentando buscar alguma justificativa, mas só sentia o meu coração rasgar no peito. Fiquei parada na calçada, enquanto eles entravam na loja, o vidro transparente permitia que eu visse tudo. Cada detalhe, sorriso e troca de carinho entre eles. Henrique segurou o rosto dela e a beijou. Naquele momento meu mundo parou, o ar sumiu dos meus pulmões, as pernas ficaram fracas. Eu queria estar vendo errado, queria que fosse um engano, mas não era. E, para destruir o pouco que restava do meu coração os dois se aproximaram do balcão e escolheram alianças. As lágrimas começaram a cair antes mesmo que eu percebesse, levei a mão à boca para abafar o soluço. ... Por que a minha vida é assim? Por que?... Ali vi meu futuro cair num abismo junto com os sonhos que um dia tive... Esse tempo todo vivi uma mentira. A mulher colocou a aliança no dedo, e os dois comemoraram como se fossem os protagonistas do conto de fadas mais lindo do mundo. Enquanto eu... sou apenas a idiota que acreditou num canalha. Saí correndo dali, nem me lembro de como consegui voltar ao trabalho, só me lembro das lágrimas, das pessoas perguntando se eu estava passando mal e das minhas colegas insistindo para eu comer algo. Apenas negava, porque parecia que havia uma pedra dentro da minha garganta e doía até para respirar. Passei o resto do dia varrendo ruas enquanto as lágrimas caíam em silêncio, varrendo chorando, forçando um sorriso para quem não tinha culpa e tentando entender em que momento eu deixei de ser suficiente. Quando finalmente cheguei em casa, já estava escuro, lavei o rosto antes de entrar. Não queria preocupar a minha mãe, mas bastou colocar os pés na cozinha para perceber que algo estava muito errado. Meu pai estava pálido, minha mãe chorava e Amanda tinha os olhos arregalados enquanto dois homens desconhecidos estavam sentados à mesa mirando uma arma para eles e o outro batia a faca contra a mesa de madeira, fazendo o som gelar a minha espinha. Meu coração disparou, minhas pernas falharam e apoiei no armário para não cair. — Quem são vocês? — perguntei, assustada. Minha mãe começou a chorar ainda mais, meu pai abaixou a cabeça e o homem da faca sorriu. — Então essa é a filha que te banca, seu vagabundo? — indagou com um sorriso cruel nos lábios. Senti um arrepio percorrer meu corpo. — Pai? Ele não respondeu. — Antônio anda devendo uma grana pesada pra gente... viemos cobrar. Olhei para meu pai. — Pai? — Bianca... — soluçou mamãe. — Quanto? — perguntei, sentindo as pernas tremerem. O outro homem riu. — Duzentos mil. Meu sangue gelou. — O quê? — Jogatina e bebida... — respondeu friamente. Virei para meu pai, incrédula. — Duzentos mil reais? Ele continuava em silêncio. — Pai, me diz que isso é mentira! — Eu vou pagar... — murmurou. Os dois homens gargalharam. — Vai pagar como? Vendendo essa espelunca? O homem da faca se aproximou. — Escuta aqui, princesa... a dívida venceu hoje. Ele segurou meu queixo com força. — E se até depois de amanhã não recebermos nosso dinheiro... nós voltaremos. E, quando voltarmos, não vai ser para conversar. — olhou maliciosamente para mim e Amanda. Meus olhos se arregalaram, mamãe abraçou Amanda, que chorava copiosamente. E naquele instante, ainda com o coração destruído pela traição de Henrique descobri que o pesadelo da minha vida estava apenas começando. Quando saíram, fui cobrar explicações do meu pai, mas levei uma bofetada tão forte que cai sentada no chão. Amanda veio me ajudar a levantar e nossa mãe nos obrigou a ir para o quarto. Naquela noite, eu não dormi... na verdade, ninguém dormiu, ouvia mamãe chorando baixinho no quarto ao lado e Amanda fingia mexer no celular, mas seus olhos vermelhos denunciavam que ela também estava apavorada. E meu pai... esse simplesmente desapareceu, como sempre faz quando a realidade se torna pesada demais. ...Covarde!... Aquela palavra surgiu na minha mente e doeu, porque, apesar de tudo, ele é meu pai. No entanto, confesso que naquele momento, eu estava cansada.... Cansada de vê-lo destruir tudo, de recolher os pedaços e de carregar uma família inteira nas costas. Quando amanheceu, saí para trabalhar sem sequer tomar café, meu corpo estava presente, mas minha alma, não. As palavras daqueles homens ecoavam na minha cabeça. "Quando voltarmos, não vai ser para conversar." Meu celular tocou inúmeras vezes era Henrique, bloqueei seu número. Não queria ter que conversar com ele, olhar para sua cara e ouvir suas desculpas falsas explicações... não me interessa o nome da outra, porque, nada mudaria o fato de que eu o vi beijando outra mulher e trocando alianças. Na hora do almoço, sentei em uma praça com minha marmita fechada no colo, não tinha fome e nem vontade de nada. Foi quando Patrícia, uma das garis que trabalha comigo, sentou ao meu lado. — Você está péssima, querida! Ela me encarou. — O que aconteceu? — Nada. — Mentira! Eu te conheço muito bem. As lágrimas vieram de novo então contei sobre como de um dia para o outro a minha vida virou um completo caos. — Eu não sei mais o que fazer. Patrícia ficou em silêncio, mordeu os lábios e vi que ela tinha uma solução. — Existe uma forma. Franzi a testa. — Que forma? — Você vai me achar louca. — Pior do que isso não fica. Ela hesitou. — Tem um clube exclusivo que minha prima me contou dias atrás... São pessoas muito ricas que pagam para passar a noite com eles... as virgens são as mais caras. Meu coração acelerou. — Não estou entendendo. Ela desviou o olhar. — Algumas mulheres participam desses leilões privados. Senti o estômago embrulhar. — Amiga, eles pagam milhões por uma noite. Levantei imediatamente. — Você enlouqueceu? — Bianca, espera! — Não! — Não estou te mandando fazer isso... foi apenas uma sugestão. Ela pousou um beijo em minha testa e me entregou o cartão do tal lugar. — Se eu tivesse esse dinheiro... com certeza te daria. Fiquei encarando aquele cartão por mais de uma hora. "Clube Ébano" As letras douradas pareciam zombar de mim, aquilo não podia estar acontecendo... essa não era a minha vida. Eu era Bianca, a menina que ajudava a mãe na cozinha, que sonhava em casar de véu e grinalda, ter dois filhos e envelhecer ao lado do homem que amava. A garota que guardou sua virgindade porque acreditava que a primeira vez seria especial... por amor, com o homem que seria seu marido. E agora... Henrique estava escolhendo alianças com outra, meu pai havia destruído a própria vida e estava arrastando todos nós junto com ele e homens perigosos ameaçavam a minha família. Só de lembrar do jeito que aquele homem olhou para Amanda, um arrepio horripilante percorreu a minha espinha. ...Não! Com ela, não. Com a minha irmãzinha, não! Nunca. Se alguém tivesse que pagar pelos erros do meu pai... seria eu." Corri no banco, pedi um empréstimo, mas não consegui nada.






