Mundo de ficçãoIniciar sessão
Scarlett Monroe aprendeu cedo que algumas casas não precisavam de grades para parecerem prisões.
A mansão Monroe ficava no alto de uma colina em Newport, Rhode Island, com vista para o Atlântico e jardins que pareciam cuidadosamente desenhados para enganar qualquer visitante. De fora, tudo ali ainda sugeria poder: as colunas brancas, os vitrais franceses, o mármore claro da entrada, os lustres importados e o som distante das ondas quebrando contra os rochedos.
Mas Scarlett conhecia os sinais da decadência.
Conhecia o eco frio dos corredores porque metade dos empregados havia sido dispensada nos últimos seis meses. Conhecia o cheiro de flores caras que sua mãe insistia em manter na sala principal, mesmo quando as contas médicas se acumulavam sobre a escrivaninha do escritório. Conhecia o brilho polido dos móveis antigos, preservados como relíquias de uma grandeza que a família já não tinha dinheiro para sustentar.
E, acima de tudo, conhecia o silêncio.
O silêncio de sua mãe quando os telefonemas de cobrança chegavam.
O silêncio de seu pai quando ela perguntava sobre as empresas. O silêncio dos advogados que entravam na mansão com pastas pretas e saíam sem olhar nos olhos de ninguém.Naquela manhã de outubro, o silêncio parecia mais pesado do que nunca.
Scarlett estava na biblioteca, sentada perto da janela, revisando alguns documentos da fundação beneficente que tentava manter funcionando apesar da ruína familiar. Usava uma calça de alfaiataria bege e uma blusa branca simples, os cabelos castanhos presos de qualquer jeito em um coque baixo. Não havia nada nela que lembrasse as fotografias glamourosas que a imprensa costumava publicar quando ainda se interessava pelos Monroe.
“Jovem herdeira americana comparece ao gala anual em Manhattan.”
“Scarlett Monroe: elegância discreta da aristocracia moderna.”
“Família Monroe mantém tradição entre os grandes nomes de Rhode Island.”
Mentiras bonitas.
Scarlett não era herdeira de nada além de dívidas, segredos e um sobrenome cada vez mais difícil de carregar.
Ela passou os olhos por uma planilha de doações canceladas e apertou os lábios. A fundação cuidava de bolsas de estudo para meninas sem recursos, um projeto que sua avó havia começado décadas antes. Para Scarlett, aquilo era a única parte do legado Monroe que ainda merecia ser preservada.
Todo o resto parecia podre.
A porta da biblioteca se abriu sem que ninguém batesse.
Richard Monroe entrou com a postura impecável de sempre. Alto, cabelos grisalhos penteados para trás, terno escuro feito sob medida e expressão controlada. Seu pai tinha o talento irritante de parecer vitorioso mesmo quando estava perdendo tudo.
Scarlett ergueu os olhos.
— Você poderia bater antes de entrar.
Richard ignorou o comentário e caminhou até o aparador, onde havia uma garrafa de conhaque aberta. Eram pouco mais de dez da manhã.
— Preciso falar com você.
— Isso raramente termina bem.
Ele serviu uma dose, mas não bebeu de imediato. Ficou encarando o líquido âmbar como se buscasse ali uma coragem que não possuía.
Scarlett fechou a pasta lentamente.
— É sobre a mamãe?
Algo passou pelo rosto dele. Não era tristeza. Richard Monroe raramente demonstrava tristeza. Era incômodo, talvez. Impaciência.
— Sua mãe está descansando.
— Isso não respondeu à minha pergunta.
— Victoria está estável.
Estável.
Scarlett odiava aquela palavra. Era uma palavra confortável demais para esconder verdades feias. A doença de Victoria Monroe havia começado como cansaço, depois virou exames, depois internações discretas, depois tratamentos caros com médicos de Boston que falavam baixo demais. Estável significava que ela não estava morrendo naquele minuto. Só isso.
Scarlett se levantou.
— Então sobre o que é?
Richard finalmente bebeu o conhaque. Depois pousou o copo com cuidado excessivo.
— Sobre o futuro desta família.
Scarlett sentiu o estômago se contrair.
— O que aconteceu agora?
Ele olhou para ela com uma calma que a irritou antes mesmo de ouvi-lo.
— A situação financeira chegou a um ponto crítico.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Crítico? Estamos vendendo obras de arte escondidos há meses, dispensamos funcionários, fechamos a casa de Palm Beach e os advogados vêm aqui mais do que parentes. Eu diria que o ponto crítico ficou para trás.
— Não seja dramática.
— Não me chame de dramática quando estou apenas descrevendo a verdade.
Os olhos de Richard endureceram.
— Ainda sou seu pai.
— E isso deveria significar alguma coisa?
A pergunta ficou no ar como uma lâmina.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. A relação entre Scarlett e Richard nunca havia sido calorosa. Quando criança, ela tentara conquistar o afeto dele com notas altas, bons modos, vestidos escolhidos por Victoria e sorrisos perfeitos para fotografias. Mais tarde, aprendeu que Richard não amava pessoas. Amava utilidade. Amava prestígio. Amava vitórias.
Scarlett só passou a importar quando se tornou bonita o bastante para ser exibida e obediente o bastante para ser usada.
Ou assim ele pensava.
Richard caminhou até a mesa e tirou um envelope de dentro do paletó. Colocou-o diante dela.
— Leia.
Scarlett não tocou no envelope.
— O que é isso?
— Uma solução.
Ela encarou o papel grosso, creme, sem identificação externa.
— Soluções não costumam vir em envelopes fechados entregues por você.
— Scarlett.
O tom dele mudou. Ficou mais baixo. Mais perigoso.
Ela pegou o envelope. Seus dedos estavam frios antes mesmo de abri-lo.
Dentro havia uma proposta formal, escrita em linguagem jurídica. Ela reconheceu o nome do escritório de advocacia no cabeçalho. Um dos mais caros de Nova York. Passou os olhos pelas primeiras linhas, sem entender de imediato. Havia menção às dívidas consolidadas do grupo Monroe, à transferência de participação em propriedades, à quitação de passivos bancários, à preservação dos ativos residenciais em nome de Victoria Monroe.
Então viu o nome.
Damien Blackwell.
Scarlett levantou os olhos devagar.
— Por que o nome de Damien Blackwell está aqui?
Richard não respondeu.
Ela voltou ao documento. Leu mais rápido, o coração começando a bater de forma irregular.
Blackwell Holdings. Quitação integral das dívidas pendentes. Reestruturação de propriedades. Garantia de tratamento médico para Victoria Monroe. Preservação do nome Monroe perante a imprensa. União matrimonial entre Scarlett Elaine Monroe e Damien Alexander Blackwell.
Por um instante, o mundo perdeu o som.
O mar continuou batendo contra os rochedos lá fora. O relógio antigo continuou marcando os segundos. Em algum lugar da casa, uma porta se fechou. Mas para Scarlett tudo ficou distante, como se ela tivesse sido empurrada para dentro de uma água escura.
Ela leu a frase outra vez.
União matrimonial.
Não acordo comercial.
Não fusão empresarial. Não parceria estratégica.Casamento.
Scarlett deixou o papel cair sobre a mesa.
— Não.
Richard suspirou, como se ela tivesse recusado um convite para jantar, não a própria sentença.
— Você ainda nem ouviu os termos.
— Eu li o suficiente.
— Então compreendeu que é uma proposta generosa.
Ela olhou para ele, incrédula.
— Generosa?
— Blackwell quitará as dívidas mais urgentes, assumirá algumas obrigações corporativas e garantirá que sua mãe continue recebendo o melhor tratamento disponível.
O nome de Victoria atingiu Scarlett no ponto exato onde Richard sabia que atingiria.
Ela ficou imóvel.
— Não use a mamãe nisso.
— Eu não estou usando ninguém. Estou explicando fatos.
— Não. Você está me vendendo.
Richard apertou a mandíbula.
— Cuidado com o tom.
Scarlett sentiu algo dentro dela rachar. Não era surpresa. Talvez, no fundo, parte dela sempre soubesse que um dia o pai tentaria transformar seu corpo, seu nome ou sua vida em moeda de troca. A surpresa era a forma. A frieza. A naturalidade com que ele falava, como se tivesse acabado de negociar uma propriedade.
— Você quer que eu me case com um estranho para pagar suas dívidas.
— Damien Blackwell não é um estranho. É um dos homens mais poderosos do país.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Deveria fazê-la pensar.
— Estou pensando. Estou pensando que meu pai acabou de me entregar a um homem que eu nunca vi pessoalmente como se eu fosse uma cláusula contratual.
Richard se aproximou da mesa.
— Você é uma Monroe. Privilégios vêm com responsabilidades.







